Blade Runner: distopia ácida, mega-industrial e ultra-capitalista:

É bem possível que eu solte alguns spoilers, então pare pra pensar, pense muito bem, e lembre que esse dia já vem.

Foi na minha geração que Blade Runner, fracasso de público e crítica quando de seu lançamento, se tornou um dos filmes mais cultuados de todos os tempos, redescoberto na “Era do videocassete”. Sou um fã tão antigo e tenho laços afetivos tão fortes com o filme que ainda hoje prefiro a versão original lançada no cinema, com a voz em “off” de Harrison Ford e as ambiguidades em relação a Deckard – muito mais fiel inclusive à proposta de Philip Dick, que em entrevistas confessou que o personagem era humano. Dá pra imaginar o temor com que recebi a notícia de uma continuação da obra prima de Ridley Scott.

Trinta anos após os eventos do primeiro filme, a Tyrell Corporation faliu e suas patentes e espólio se tornaram propriedade de um bilionário excêntrico e genial chamado Dr. Wallace (Jared Leto), que criou uma nova geração de replicantes [aparentemente] totalmente obedientes. Desse modo, os “bonecos” voltaram a ser fabricados não só nas colônias mas também na Terra. Os modelos antigos — aqueles que se rebelavam – permaneciam sendo “removidos” pelos “caçadores de androides”. Numa dessas remoções, o policial replicante K. (Ryan Gosling) encontra uma imensa caixa enterrada aos pés de uma árvore morta. Dentro, os restos mortais de uma ”andróide”, ossos e cabelo, que revelaram que a moça havia dado à luz. Eis aí o argumento para a investigação policial que estrutura o filme. K. recebe ordem para encontrar a criança, que ameaça a fronteira entre humanos e não humanos, colocando assim em risco a sociedade.

É óbvia a relevância da reprodução orgânica como elemento central na distinção entre máquinas e seres vivos, entre uma possível inteligência artificial e os homens, especialmente em uma distopia em que a engenharia genética criou cópias dos homens transformadas em produto por um monopólio científico-capitalista e destinadas à escravidão. Ainda assim o argumento me pareceu fraco, confesso que não pude deixar de lembrar d’O Parque dos Dinossauros. Os problemas levantados sobre humanidade e identidade no primeiro filme se dão em uma camada de profundidade bem maior.

Por isso é de se comemorar que esse ”tema novo” tenha papel diminuto para a apreciação de “2049”. No fundo, ele é apenas um fio condutor que permite a reatualização de TODOS os tópicos relevantes de Blade Runner. O oficial de polícia K. refaz uma trajetória que poderia ser a do próprio Deckard em um mundo alternativo. Procura por sua identidade lutando contra um mundo ilusório só para descobrir que seu desejo de liberdade e de autoconhecimento era impulsionado pelo mais terrível e programado “wishful thinking”, cujo véu não caiu antes por causa da necessidade tão humana do protagonista de se acreditar especial. Um paradoxo que se encontra no próprio cerne da existência humana.

Além do papel da memória nas narrativas que formam a noção de “eu”, o esvanecimento das diferenças entre o real e virtual ganha uma nova dimensão. Em 1982, esse tópico está no esqueleto da história, com a gradual humanização dos replicantes e o esboroamento das definições de pessoa sintetizada nos dramas de consciência do “caçador de androides”, em sua relação amorosa com Rachael, e, principalmente, com as dúvidas sobre a natureza do próprio Deckard. [Na minha opinião, a opção do “corte do diretor” por retratar o policial como um replicante rompe um dos pilares da obra, que é a incapacidade do público de desfazer suas incertezas sobre o personagem principal e sua paixão por Rachel]. Agora, o tema se reforça com a criação de um outro nível de virtualidade em “Joy”, uma máquina que emula uma namorada e dona de casa e que se torna a grande companheira, a verdadeira “esposa” do agente K.

O mais impressionante, porém, é o respeito e a competência de Villeneuve para recriar, sem cair em caricatura, o mundo, a ambiência, o clima do primeiro filme. Estamos definitivamente no universo de Blade Runner, a distopia ácida, mega-industrial, ultra-capitalista, desnaturada, cosmopolita, desumanizada e cyber-punk do filme original, elevada a uma potência ainda mais assustadora com cenários de caos pós-apocalíptico, desertos empoeirados, lixões e escravidão infantil. Da paleta de cores aos ângulos da câmera, passando pelo magistral trabalho de Hans Zimmer — que sem abdicar das próprias características nunca nos deixa esquecer do sabor da trilha clássica de Vangelis –, as homenagens e auto-referências se sucedem, de maneira sutil ou nem tanta, mas nunca vulgar. A prostituta replicante que espiona o agente K. é construída para nos fazer lembrar de Daryl Hannah, a chefe de polícia nos faz recordar de Rutger Hauer, o drone que obedece ao comando de voz de K. é um upgrade da máquina com que Deckard analisa as fotos do apartamento de Leon. O diretor se mantém fiel à linha de investigação policial noir, sem soluções fáceis nem concessões à agitação dos blockbusters hodiernos.

No fim das contas, Villeneuve evita a tentação de cair em um cinema de ação ou apostar na comoção de uma revolução de escravos, preferindo investir nas decisões, frustrações e vícios mesquinhos que mantém todos os personagens no limbo contraditório e instável entre a humanidade e a desumanização. Ryan Gosling dá exemplo formidável da construção de um protagonista perdido entre o estoicismo e o desejo, a obediência e a consciência, a verdade que é imposta e torna o mundo uma mentira e a mentira que é a única vivência humana possível. Se Blade Runner fosse transformado em uma franquia pop [perigo afastado pelo fracasso de bilheteria de “2049”] não seria pela falta de qualidade dessa continuação, digna do mais exigente dos fãs. Saí do cinema aliviado e feliz, pronto para rever o clássico de 1982 madruga adentro.

André Luiz dos Reis

Historiador, mestrando em História pela UFRJ, cristão ortodoxo e membro da NR-RJ.
 

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