Dugin — Rumo à Laocracia

No capitalismo, os capitalistas governam. No socialismo, são os representantes da classe trabalhadora – o proletariado – que governam. No nazismo ou fascismo, governa a elite nacional ou racial.

No marco da Quarta Teoria Política, quem deve governar é o Povo  do russo Narod, semelhante ao Volk alemão (não é a mesma coisa que “população”).

A Rússia moderna situa-se no plano do capitalismo. Logo, ela é governada por capitalistas e, portanto, não pelo Narod. Para construir a Rússia na qual governará o Narod, é necessário concretizar uma revolução anticapitalista (anti-oligárquica, ao menos): magnatas financeiros deveriam ser excluídos do poder político (e isso é o central).

Todos devem escolher: Poder ou Dinheiro. Escolha o Dinheiro – esqueça o Poder. Escolha o Poder – esqueça o Dinheiro.

A revolução deve se concretizar em três estágios:

(1) Ultimato a todos os grandes oligarcas (uma centena tirada de uma lista da Forbes e mais outra centena que se oculta, mas que todos sabemos quem são) para que jurem lealdade aos ativos russos (todos ativos estrangeiros e nacionais estratégicos passarão a ser controlados por órgãos especiais).

(2) Nacionalização de toda a propriedade privada de importância estratégica.

(3) Transmutação dos representantes patrióticos do grande capital para a categoria de funcionários públicos, com a transferência voluntária de suas propriedades ao Estado. Eliminação dos direitos civis (incluindo o fim do direito ao voto, participação em campanhas eleitorais, etc.) para aqueles que preferirem preservar capital em escala não estratégica, porém significante.

O Estado deve se tornar um instrumento do Povo, e esse sistema deve se chamar de Laocracia – literalmente, Poder do Povo (Laos é Povo, em grego).

Na sangrenta batalha pela Ucrânia, nós vislumbramos a verdadeira face do Capital. A grande negociata ucraniana (oligarcas como Poroshenko, Kolomoisky, Akhemetov, etc.) lidera o genocídio contra o Povo. Oligarcas russos traem o Povo ao se engajarem em um acordo criminoso com seus companheiros de classe ucranianos. E tudo isso seguindo os interesses da oligarquia global: o sistema capitalista mundial, centrado nos Estados Unidos.

Isso tudo expõe toda a incompatibilidade entre a Rússia e o capitalismo (ou o capitalismo ou a Rússia): algo que é plenamente compreendido pelos líderes da Nova Rússia. Eles, por estarem na Vanguarda de todo o povo russo, verdadeiramente iniciaram esta Revolução do Povo Russo. Esse é o motivo pelo qual eles atacam de modo tão enérgico, tanto os mercenários devotos da Junta, nas fileiras dos porcos fascistas ucranianos, quanto os elementos capitalistas liberais nas quinta e sexta colunas da Rússia. E também, o mais importante, a razão pela qual eles se tornaram inimigos existenciais do governo mundial e dos EUA. Strelkov, Gubarev, Purgin, Pushilin, Mozgovoy: todos eles desafiaram o Capital global. E o fizeram em prol do Povo, isto é, do povo russo.

Neste sentido, se os apoiadores do povo ucraniano fossem coerentes, eles seriam aliados desta Revolução, e não meros capatazes do Capital global, como o são agora. Caso eles se voltassem para o lado da Nova Rússia, os ucranianos estariam se voltando, não tanto para a Rússia, e nem mesmo para o lado russo, mas para o lado do Povo – o Povo como letra maiúscula, que luta uma batalha mortal contra o mundo do Capital, visando, enfim, a Laocracia.

Deste modo, a campanha que está por vir contra Kiev não será apenas uma vingança ou uma mera campanha de liberação das antigas terras russas: ela será uma campanha em defesa da Laocracia, do Poder do Povo, em nome de um Estado Popular. E eu não penso que a oligarquia russa irá apoiar isso (apesar de ela não poder deixar de constatar que seus dias estão contados). Esse é o motivo pelo qual ela grita tão histericamente “Não mandem tropas!”, já que a vitória da Nova Rússia significará inevitavelmente a ressurreição da própria Rússia, o despertar do Povo. Essa é a razão para as tentativas desesperadas de trair a Nova Rússia, a saber: a agonia da oligarquia russa e de seus capatazes políticos. Sua tarefa é destruir os heróis da Revolução da Nova Rússia – que é não apenas popular, mas também social – e destruí-la enquanto ela ainda encontra-se no auge de sua jovialidade.

Aleksandr Dugin

Filósofo e cientista político, ex-docente da Universidade Estatal de Moscou, formulador das chamadas Quarta Teoria Política e Teoria do Mundo Multipolar, é um dos principais nomes da escola moderna de geopolítica russa e um dos mais importantes pensadores de nosso tempo.

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