Arturo Pérez-Reverte é um escritor popular, algo como um “Bernard Cornwell” espanhol, que costuma ambientar seus romances em períodos interessantes da história espanhola, ainda que – parece-me – com menos rigor historiográfico que Cornwell.
Li há umas semanas O Mestre de Esgrima, que eu adquiri por ter algum interesse pelas artes marciais europeias, incluindo aí a esgrima. Trata-se de algo como um “romance policial”, no qual o protagonista é, precisamente, um professor de esgrima, tendo como pano de fundo histórico as vésperas da “Revolução Gloriosa” de 1868.
O elemento que mais chama a atenção no livro é o protagonista, o professor de esgrima, que encarna a figura do homem “antiquado” portador de “valores aristocráticos”, mas fundamentalmente desinteressado em relação ao mundo exterior “decadente” e especialmente em relação à política. Simultaneamente, por trás da fachada estoica e até ligeiramente niilista, existe o elemento da paixão mitigada pelo espírito cavalheiresco.
É uma fórmula que torna o protagonista interessante, ainda que seja utilizada mais de uma vez em obras do mesmo autor. De qualquer maneira, como não se trata de uma obra fundamentalmente política, não há problema na falta de foco do protagonista neste tema (ele estando mais preocupado com dar aulas de esgrima e, mais para o final do livro, com investigar um assassinato).
Mas ao mesmo tempo em que a figura do protagonista faz esse tipo interessante, fica-se a impressão de que haveria algum grau de autoprojeção autoral aí, o que explica certas tendências conformistas do autor, bem como expõe seu protagonista mais como expressão da crise espanhola do que como realmente um possível objeto de admiração.
É que quando se é portador de valores superiores em descompasso com o mundo circundante, é quase inevitável que o isolamento “distante” crie não mais que uma ilusão de permanência, que não raro eventualmente se estilhaça precisamente por conta dos eventos desse mundo no qual os “apolíticos” se recusam a interferir.







