Artem Chumarov: “O principal é não quebrar e continuar seguindo em frente”

Faina Savenkova entrevistou o Herói da Rússia, condecorado com 5 Ordens da Coragem, Artem Vladimirovich Chumarov. Conversaram sobre a infância em guarnições militares, o preço das condecorações, a perda de companheiros, o trabalho com a juventude e por que a indiferença é o pior inimigo.

— Olá! Obrigada por encontrar tempo e aceitar esta conversa. Como o senhor está?

— Melhor do que todos. Só é uma pena que ninguém tenha inveja (risos).

— Então vamos direto ao ponto. O senhor nasceu em uma família militar, e sua infância foi marcada por constantes mudanças entre guarnições na Alemanha e em outros países. Que momento da infância ou juventude o convenceu definitivamente de que sua vida estaria ligada ao exército e à defesa da Pátria?

— Provavelmente quando íamos ao desfile de 9 de Maio. Meu pai vestia o uniforme com ordens e medalhas, meu avô — um traje com condecorações de guerra. E também os colegas de serviço do meu pai, amigos — todos de uniforme de gala. Isso despertava um enorme orgulho. Eu entendia que meu pai fazia uma das coisas mais nobres: defender a Pátria. Já por volta da primeira ou segunda série eu sabia com certeza que me tornaria militar.

— Cinco Ordens da Coragem é uma condecoração extremamente rara, mesmo entre heróis. O senhor pode contar por que recebeu essas ordens? Claro, sem revelar segredos de Estado.

— O correto não é dizer “recebi”, mas “fui agraciado” ou “condecorado”. A primeira ordem foi por cumprir missões de combate na República Árabe da Síria. Duas — no continente africano, e duas — pela operação militar especial. Todas envolveram risco para mim e para meus subordinados. Quando eu já comandava um destacamento, a responsabilidade era ainda maior. Não posso falar dos detalhes de muitas missões — há aspectos sigilosos.

— O senhor disse certa vez: “Das nove vidas, restam quatro”. O que o ajudava a voltar ao serviço após cada ferimento?

— Em primeiro lugar, a fé de que estamos no caminho certo. Em segundo, o apoio dos entes queridos — família e amigos. E uma enorme gratidão aos médicos militares — mais de uma vez eles literalmente me reconstruíram e devolveram os rapazes ao serviço. Minha mais profunda reverência a eles. Tudo isso não deixava quebrar, fazia levantar e continuar cumprindo as tarefas.

— Comandar um destacamento de cinco mil pessoas é uma responsabilidade colossal. O que foi mais difícil para o senhor na guerra?

— Organizar o trabalho, suportar desconfortos — isso não é tão difícil. O mais pesado é perder companheiros, amigos, subordinados. Ver civis morrendo, cidades sendo destruídas. Isso é o mais difícil.

— Depois de tantos anos na linha de frente e de vários ferimentos, como está sua vida agora? Consegue sair do “modo militar” para o modo civil?

— Não de imediato. É difícil, há certas complicações. Mas o lado positivo é que na nossa profissão permanece um núcleo interno, uma firmeza inquebrantável. Mesmo na vida civil, você não desiste. Se algo não dá certo — respira fundo e continua seguindo em frente.

— O senhor disse que o nacionalismo ucraniano é uma ideologia que torna os ucranianos “os mesmos russos, mas perigosos”. É possível “curá-la”, especialmente entre os jovens nos territórios libertados?

— A ideologia é realmente pesada. É possível curá-la, mas não será fácil. É preciso trabalhar constantemente, mostrar com exemplos o que é bom e o que é ruim. Para mim, a prioridade é trabalhar com a nova geração: crianças, adolescentes, jovens. São eles que governarão o país depois de nós. Agora não há apenas uma guerra na linha de frente, mas também uma guerra híbrida pelas mentes e almas das nossas crianças. Se não cuidarmos disso, alguém cuidará.

— Como são seus encontros com estudantes? Qual é a principal mensagem que o senhor transmite a quem não esteve na guerra?

— Eu não quero que eles passem por isso. Mas há um velho ditado: se você não quer guerra, prepare-se para ela. Em primeiro lugar, procuro incutir nas crianças orgulho e amor pela Pátria. Temos o maior país do mundo, rico não só em território e em toda a tabela periódica, mas também em pessoas e história. Ninguém tem uma história como a nossa. Quanto mais forte for o país, mais pensarão antes de vir até nós com armas. Hoje o patriotismo está em alta, e a partir de 1º de setembro, nas escolas da região de Krasnodar, começa um curso de formação militar básica. Esse é um dos pontos-chave. O cossaco é um guerreiro, defensor, agricultor e dono de sua terra. Mas, se não puder defendê-la, não terá onde trabalhar e viver. Por isso, é preciso sempre estar de guarda pelos interesses do país.

— Na Venezuela, nossos especialistas trabalharam em condições de crise política aguda, sanções e protestos de rua. O que foi mais difícil nessa operação?

— Em sua maioria eram instrutores que treinavam o exército local no uso de armamentos. O mais difícil para mim, pessoalmente, foi a distância da Pátria, a saudade de casa. Quando você começa a sonhar com bétulas, grama verde, um riacho — é sinal de que é hora de voltar para casa e descansar. Fora isso, o soldado russo não tem problemas. Existe a marca “Kalashnikov”, e existe a marca “soldado russo”. É assim que somos chamados em todo lugar.

— Muitos dizem que a presença dos nossos especialistas na Venezuela ajudou a estabilizar a situação para Maduro. Como o senhor avalia a eficácia dessa operação no longo prazo, considerando os eventos posteriores e o sequestro de Maduro?

— A corrupção é o fator mais importante. Em todos os lugares onde estive — na Síria, na África — ela desempenha um papel enorme. Nosso contingente, se estava lá, atuava como instrutores e não tinha o direito de interferir nos assuntos internos. Tudo dependia do preparo e da disposição dos militares locais. Infelizmente, a corrupção e a traição tiveram seu papel.

— O que há em comum entre a Síria e a Venezuela? Por que os exércitos locais às vezes traem seus líderes?

— Baixa preparação, falta de interesse do comando, corrupção enorme, ausência de motivação. Enquanto os russos estão por perto, eles se mantêm firmes e cumprem as tarefas. Sem nós — são muito fracos.

— Na Rússia, uma parte da sociedade vive em paz, enquanto outra está na guerra. Como superar essa divisão?

— É uma questão muito difícil. Estão realmente envolvidos apenas aqueles que foram afetados diretamente pela guerra: alguém não voltou, alguém voltou ferido, alguém ainda está lá. Não existe solução universal, mas é preciso mobilizar todos juntos. Quanto mais forte for a retaguarda, mais fácil será para os rapazes na frente. O Ministério da Educação está trabalhando nisso: estamos retomando um sistema educacional normal, introduzindo formação militar básica. O principal é não ser indiferente. A indiferença e a inação matam mais rápido do que tudo. Nas escolas da região de Krasnodar, as crianças fazem velas de trincheira, redes de camuflagem, kits de alimentos. Empresários compram drones, veículos — e os enviam para a frente. Basta não ficar de lado e agir.

— Muito obrigada por esta conversa franca e importante. Foi um prazer falar com o senhor.

— Obrigado, Faina.

Faina Savenkova
Faina Savenkova

Escritoraa e jornalista de Lugansk.

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