O General Carlos de Meira Mattos, geopolitólogo brasileiro, nos faz sempre recordar aquela trágica figura de helênica memória: a profetisa Cassandra, amaldiçoada com um dom profético no qual ninguém acreditava.
Nenhum país pode prescindir de um tratamento científico da geopolítica, mas é óbvio que para alguns países isso é ainda mais importante do que para a maioria. É o caso dos países continentais, como o Brasil.
Os países podem adquirir dimensões continentais pelo toque de genialidade política de grandes líderes, ou até com um pouco de sorte, mas na era contemporânea – em que todas as terras já estão exploradas, esquadrinhadas e ocupadas – tão somente pela aplicação metódica de uma estratégia geopolítica essas dimensões continentais podem ser preservadas.
O Brasil, felizmente, teve uma boa quantidade de grandes teóricos da geopolítica. Nisso, não estamos atrás de qualquer país desenvolvido do Hemisfério Norte. Mas a sina do Brasil tem sido a de, usualmente, ignorar completamente as orientações dos seus geopolitólogos.
O geopolitólogo brasileiro, portanto, nos faz sempre recordar aquela trágica figura de helênica memória: a profetisa Cassandra, amaldiçoada com um dom de profético no qual ninguém acreditava.
É o caso do General Carlos de Meira Mattos e suas reflexões sobre a Amazônia, expressas na obra “Uma Geopolítica Pan-Amazônica”.
A obra, publicada durante o governo do General Figueiredo narra a história da ocupação amazônica, as lutas para expandir e preservar as fronteiras amazônicas, os desafios da região e os projetos já desenvolvidos e, finalmente, um grande número de orientações e diretrizes a serem adotadas como políticas de Estado para a região.
O eixo central das reflexões de Meira Mattos é a natureza eminentemente continental da estatalidade brasileira, derivando daí uma vocação continental traduzível em uma interiorização dirigida pelo Estado. Essa interiorização, obviamente, deve estar voltada para a Amazônia, região ainda pouco ocupada, de fronteiras frágeis e porosas, pobre em infraestrutura e perpetuamente cobiçada.
Apoiado na ciência geopolítica clássica, portanto, o entendimento de Meira Mattos é de que ao ter a sua atenção historicamente dirigida para o Atlântico, o Brasil vem continuamente traído a sua vocação geograficamente inscrita e pré-determinada.
E, naturalmente, essa vocação encontrará a sua realização na devida integração da região amazônica. Mas essa integração, por sua vez, deve ser pensada de maneira compartilhada, já que a própria Amazônia é compartilhada com os outros países da região. Nesse sentido, a Amazônia seria o veículo de autorrealização geopolítica do Brasil e, simultaneamente, uma das principais ferramentas de integração continental (também destino nacional).
Meira Mattos ressalta a importância do Pacto Amazônica como estrutura de articulação entre os países amazônicos, mas há uma diferença importante no pensamento dele em comparação com a maneira pela qual a Amazônia é pensada hoje: Meira Mattos exclui, de maneira bastante consciente e explícita, as três Guianas, que segundo o autor não pertencem objetivamente à Amazônia em seu sentido hidrográfico.
Ainda que Meira Mattos empreenda essas exclusões de maneira técnica, sabemos também que as Guianas são algumas das principais ferramentas de interferência de países de fora de nossa região. Nesse mesmo tema, Meira Mattos denuncia as tentativas de internacionalização da Amazônia, que não raro se dão por meio de conferências e pactos internacionais envolvendo países de fora da região. Ele menciona até a existência de um projeto de assentar na Amazônia excedentes populacionais de outras partes do mundo, como a Ásia, sob a justificativa da “superpopulação”.
Os métodos desenvolvidos por Meira Mattos para realizar as duas coisas (integração da Amazônia ao Brasil, integração ibero-americana através da Amazônia) envolvem uma miríade de objetivos, o primário sendo a construção de uma ampla rede de transportes ligando a Amazônia à região central do Brasil, e das cidades “polares” da Amazônia às suas cidades-irmãs nos países vizinhos.
O Centro-Oeste, aliás, ressalto, tem um papel central. Daí a importância de Brasília. Não há integração amazônica sem Brasília enquanto marco de interiorização continental. O Centro-Oeste junto com a Bolívia, aliás, desempenhando essa função de zona-eixo da América do Sul é pensada como possível espaço de integração hidroviária entre o norte do continente e o sul do continente através da construção de lagos artificiais que permitam o trânsito aquático do Rio Amazonas ao Rio do Prata.
Outro elemento fundamental da estratégia envolve a descentralização da Amazônia, com a criação de mais estados e, talvez, territórios federais na região, e a transformação de determinadas cidades em polos de desenvolvimento integrados por rodovias e hidrovias, com benefícios fiscais e outros métodos de atração de colonos, ou seja, “zonas econômicas especiais”. Meira Mattos, nisso, ressalta a importância de alguns centros já existentes, com destaque para Manaus e Belém, pontas de lança da estratégia pan-amazônicas.
Meira Mattos, aliás, é tão precursor que já discutia a extensão das rodovias amazônicas ao Pacífico, através do Peru e Equador.
Ler uma obra dessas e olhar para o Brasil hoje é chegar à conclusão de que praticamente nada foi feito, nem se terminou a Transamazônica; de modo que a atualidade de Meira Mattos é testemunho da inércia, incompetência e indigência de nossas elites políticas.








