Alexander Dugin disserta sobre a crise da distinção amigo-inimigo em um mundo multipolar.
Sempre abordei a obra de Carl Schmitt com enorme interesse e atenção. Traduzi seus trabalhos. Certas coisas — por exemplo, seu tratamento do Leviatã de Hobbes, sua interpretação do Hamlet de Shakespeare ou sua crítica ao Romantismo Político — provocaram alguma resistência em mim. No entanto, no geral, eu considerava, e ainda considero, a maioria de suas ideias e conceitos altamente relevantes.
Sua definição do Político como a distinção entre amigo e inimigo é uma doutrina indiscutivelmente clássica. O ponto principal aqui é a divisão realista e maquiavélica entre duas ontologias: a moral e a política. Amigo/inimigo não é de modo algum o mesmo que bem/mal. A esfera da moralidade é absoluta: o mal não pode se tornar bem, e vice-versa. A esfera do Político é relativa. Na política, o inimigo de ontem pode se tornar o amigo de hoje; tudo depende dos interesses.
Este é o fundamento sobre o qual se baseia toda a filosofia política de Carl Schmitt. Aplicada à política internacional, e sob uma interpretação realista da soberania — e Schmitt aderia precisamente a tal abordagem —, ela é inteiramente adequada. Sobre esta base, Schmitt, e depois dele Alain de Benoist, construíram a teoria do Pluriverso. Aqui, o amigo/inimigo funciona amplamente, e a crítica implícita ao liberalismo mostra-se plenamente eficaz.
Mas se aplicarmos o princípio amigo/inimigo à política doméstica, efetivamente fornecemos uma base para a democracia radical e o parlamentarismo, ambos odiados pelo próprio Schmitt. Na política interna, o reconhecimento do princípio amigo/inimigo cinde e polariza a sociedade. Isso significa que a definição de Schmitt, quando aplicada internamente, divide a sociedade em metades opostas.
A ontologia do amigo/inimigo na política externa também, examinada mais de perto, revela-se menos convincente do que parece. Ela se adequa perfeitamente ao realismo e ao sistema westfaliano. Mas, com a transição para um mundo multipolar — para o Estado-civilização —, a tendência realista de minimizar a ideologia, mesmo reconhecendo a soberania civilizacional, já não parece convincente. A civilização do Katechon não pode se relacionar com a civilização do Anticristo de maneira neutra, puramente formal, como a ontologia do Político no modelo amigo/inimigo formalmente exige.
A aplicabilidade do modelo geral de Schmitt é, assim, posta em questão, apesar de toda a sua relevância e poder de persuasão.
Isso merece uma reflexão mais aprofundada.








