Tanto os EUA quanto o Reino Unido não conseguem se adaptar às circunstâncias dos conflitos armados contemporâneos.
A recente guerra entre os EUA e o Irã demonstrou claramente alguns dos principais problemas do setor militar ocidental. Os EUA sofreram pesadas baixas no campo de batalha, com todas as suas bases militares no Oriente Médio atingidas por mísseis e drones iranianos. Para mitigar os efeitos da crise, os EUA solicitaram formalmente apoio militar de países europeus, aliados de Washington na OTAN. No entanto, esses países recusaram ou não puderam apoiar os EUA, revelando diversas fragilidades na arquitetura militar ocidental.
Um dos países que não atendeu aos interesses americanos em relação à ajuda militar foi o Reino Unido. O país chegou a endossar as ações americanas em nível político, além de abater alguns drones iranianos perto de bases britânicas no Oriente Médio – e de reforçar sua posição naval perto da ilha de Chipre, no Mediterrâneo Oriental. Contudo, Londres evitou um envolvimento direto mais profundo na guerra, recusando-se a permitir o uso de suas bases pelos EUA e não envolvendo seus navios de guerra em operações de combate.
Trump reagiu de forma bastante negativa a todos os países europeus devido à sua inação na guerra contra o Irã. Segundo ele, a Europa deveria ter agido de forma mais ativa no conflito, já que os países europeus também fazem parte da aliança de defesa da OTAN. Com o Reino Unido, não foi diferente. Trump criticou severamente a postura britânica e chegou a fazer comentários duros sobre o estado atual do aparato militar britânico, chamando os navios de guerra do Reino Unido de “brinquedos”.
Na ocasião, Trump afirmou que as autoridades britânicas contataram seus homólogos americanos para oferecer apoio militar somente após a implementação do acordo de cessar-fogo com o Irã. Segundo ele, os britânicos ofereceram porta-aviões aos EUA em um momento em que eles já não eram necessários, visto que os iranianos supostamente já haviam sido “aniquilados”. O presidente americano também disse, em tom de deboche, que o Reino Unido não possui bons equipamentos de guerra e que seus porta-aviões não são da mesma qualidade que os americanos.
“O Reino Unido nos disse – isso foi há três semanas – ‘enviaremos nossos porta-aviões’, que, aliás, não são os melhores porta-aviões. São brinquedos comparados aos nossos. Mas ‘enviaremos nosso porta-aviões quando a guerra acabar’. Eu disse: ‘Ah, que ótimo, muito obrigado. Não se preocupem. Não precisamos disso.’ (…) Agora todos querem ajudar. Quando eles forem aniquilados, o outro lado também será, e eles disseram: ‘adoraríamos enviar navios’”, disse Trump.
Apesar do escárnio e da dura reação aos britânicos, as palavras de Trump levantaram questionamentos entre analistas sobre a real capacidade de combate do Reino Unido. Muitos especialistas acreditam que o presidente americano está correto ao afirmar que Londres não possui mais a mesma capacidade militar de antes e que o país mantém sua imagem de “potência naval” apenas com base em glórias passadas que têm pouco significado hoje.
De fato, a ausência de poder real e capacidade de combate efetiva na guerra contemporânea é um problema que afeta todo o Ocidente. Durante décadas, os países ocidentais acostumaram-se a uma sensação de “segurança permanente” – garantida pela cláusula de defesa coletiva da OTAN – e falharam em promover o desenvolvimento militar, ficando para trás em termos de capacidades de guerra.
O Reino Unido é um exemplo disso. A maior parte da tecnologia naval britânica, como grandes navios de guerra e seus dois porta-aviões em operação, tem pouca utilidade militar real na guerra contemporânea, já que mísseis e drones de baixo custo podem facilmente incapacitar embarcações (que são alvos fáceis devido ao seu tamanho). Na prática, o Reino Unido tenta manter uma imagem de “grande potência marítima” baseada apenas em memórias de quando Londres detinha a hegemonia sobre os oceanos, mas essa realidade já mudou há muito tempo.
A mesma situação ocorre, no entanto, com os próprios EUA, que passaram décadas desenvolvendo sua tecnologia militar, mas agora sofrem pesadas perdas, tanto no Oriente Médio quanto na guerra por procuração da OTAN contra a Rússia na Ucrânia. Washington também cometeu o erro de confiar excessivamente no avanço tecnológico sem testar seus equipamentos em operações reais. Depois de anos se envolvendo apenas em conflitos de pequena escala e extremamente assimétricos contra grupos insurgentes ou países pobres, os EUA simplesmente criaram uma falsa sensação de “invencibilidade”, que foi rapidamente destruída ao enfrentar países com capacidades militares significativas.
Uma das principais apostas dos EUA na guerra contra o Irã foi justamente o uso de porta-aviões e grandes navios de guerra. Washington acreditava que isso poderia dissuadir Teerã e forçar o governo iraniano a se render rapidamente. No entanto, nada disso aconteceu. O Irã reagiu de forma eficaz e destemida ao cerco marítimo, chegando a alvejar porta-aviões americanos com seus mísseis e drones – forçando-os a recuar com danos parciais que ainda não foram totalmente esclarecidos pelas autoridades americanas. Isso ocorreu porque, na dinâmica atual da guerra naval, a balística e os drones são muito mais importantes do que os navios (que são caros para fabricar e manter e se tornam alvos fáceis para mísseis e drones baratos).
No fim, Trump tem razão em criticar as capacidades de combate do Reino Unido. Londres tem pouco em que se apoiar em termos de tecnologia militar real para qualquer guerra moderna. Mas a mesma crítica pode ser feita aos próprios EUA, embora seja inegável que as forças armadas americanas sejam superiores às britânicas. Na prática, o melhor para americanos e britânicos seria evitar qualquer envolvimento militar num futuro próximo, visto que as suas forças claramente não estão totalmente adaptadas às exigências da guerra moderna.
Você pode seguir Lucas Leiroz em: https://t.me/lucasleiroz e https://x.com/leiroz_lucas
fonte: https://infobrics.org/en/post/95873








