O Lugar do Sagrado

Existe em toda sociedade humana, em toda civilização, um limite abaixo ou além do qual a ultrapassagem só se efetua ao preço de convulsões que tornam impossível qualquer retrocesso. Quais são os limites da nossa sociedade? Será que ainda existem? Se o ar ambiente atual é feito de injustiça, de empobrecimento, de tensões sociais e étnicas, mistura-se cada vez mais com o cheiro pegajoso da guerra que paira sobre as nossas cabeças. Entre as múltiplas causas que conduzem uma sociedade à crise, a ausência do sagrado, porque releva do invisível, é simultaneamente a mais silenciosa e a mais importante.

O sentido do sagrado

O termo sagrado provém do latim sacer que designa o que é inviolável, o que é interdito. Ele próprio é fundado no radical “sak”, comum às línguas indo-europeias. O sagrado inscreve-se no espaço pois estabelece um limite além do qual os homens não podem agir de maneira ordinária, de maneira profana. No mito da fundação de Roma, Rómulo traça um limite em torno da cidade que deseja fundar e a ultrapassagem dessa fronteira por seu irmão Remo custa-lhe a vida. Os Romanos chamavam a esse limite o pomœrium. O direito romano nomeava res toda a categoria de objetos que não eram nem uma pessoa, nem uma ação. As res extra commercium designavam, como a expressão indica, tudo o que não podia ser objeto de qualquer comércio. Assim, as res publicae designavam os bens que pertenciam ao Estado e que este deixava ao livre uso dos habitantes da República e depois do Império (vias públicas, portos, rios…). Do mesmo modo, as res communis agrupavam o que a natureza deu a todos os homens: o ar, a água dos rios, o mar e as suas margens. Finalmente, as coisas de direito divino (res divini iuris). Por exemplo, um templo era simultaneamente sacrum (enquanto pertencia ao divino), sanctum (inviolável) e religiosum (subtraído aos usos humanos). A ideia de que o sagrado é posto à parte do uso ordinário, de que os homens não podem nele procurar qualquer proveito material, encontra-se também nas línguas semíticas. A palavra hebraica qādôš (קדש) significa “o que é posto à parte”. Encontra-se este sentido no aramaico qaddīš (קדיש) e no árabe quds (ق دس). O termo árabe para designar Jerusalém é aliás al-Quds (ال ق دس) que se traduz frequentemente por “a cidade santa”. No entanto, a língua corânica utiliza o termo haram (حَرَام), mais próximo de um dos aspetos do latim sacer na medida em que faz referência ao caráter inviolável, nomeadamente do ponto de vista do direito. Esta palavra pode designar um lugar sagrado, mas também tudo o que está fora do uso ordinário e, por consequência, atingido por interdito.

O que escapa à mercantilização

O que é sagrado não pode, portanto, ter valor mercantil uma vez que é subtraído às atividades econômicas. Só pode haver a dádiva como compromisso material. Ora, uma das características mais flagrantes das sociedades modernas é a extensão permanente e em todas as direções da influência mercantil. Elas já não dão lugar ao sagrado, ou, por outras palavras, dão tudo a César sem nada deixar a Deus. Tudo é cifrado e encontra-se pouco a pouco integrado no mercado, agora mundializado. Se o ventre da mãe é sagrado, que não importe; será avaliado como um receptáculo suscetível de gerar lucro. Até 200 mil dólares por uma barriga de aluguel (nos Estados Unidos). A “mãe de aluguel” – mas porque não chamar-lhe “recipiente de criança”? – obterá algumas dezenas de milhares de dólares, com variações muito fortes em função do país. A infertilidade dos homens e das mulheres está em constante crescimento [1] e abre caminho a um mercado em plena expansão.

A terra paga-se, claro, e há muito tempo. A água paga-se, e cada vez mais caro dado que o custo da despoluição das águas e dos solos está a aumentar, e conta-se em bilhões de euros em França [2]. O próprio ar é taxado, de maneira indireta, através de dispositivos como a taxa de carbono, o imposto ecológico sobre veículos térmicos, os impostos sobre a energia… Pode estimar-se que um francês paga em média 450 euros por ano para se pagar o direito de deteriorar o ar que respira.

Tudo se passa como se o homem pagasse um direito à vida aquando da sua entrada neste mundo, depois, após ter pago toda a vida, paga ainda para poder deixá-lo. Na Suíça, por exemplo, a família de uma pessoa que deseja morrer terá de desembolsar até 11 mil euros para cobrir todas as despesas de uma morte assistida [3]. Tudo isto porque o limite saltou e a procura do lucro se introduziu em todos os espaços disponíveis como uma onda gigante.

Ora, o sagrado, no seu sentido mais lato, isto é, a presença do Divino na Terra, inclui a ideia da gratuidade pura. Não a gratuidade humana, na sua acepção não mercantil, mas a gratuidade de essência divina, para além do cálculo de qualquer natureza que seja. O sagrado é livre de direito. Encontra-se uma manifestação disso na natureza: a profusão dos frutos, o jorrar de uma fonte, a totalidade do ar. O sagrado, se se define como um limite, é na realidade uma manifestação da ausência de limite na elevação qualitativa. Daí a necessidade, para entrar no sagrado, de se despojar do limite quantitativo. É o que Jesus pede quando expulsa violentamente os mercadores do Templo para que uma “casa de oração” não se transforme em “caverna de ladrões”.

A natureza sagrada do homem leva-o a procurar sem cessar. Esta insaciabilidade do coração é a consequência da infinidade do Divino. Mas se o homem se desvia da busca de Deus e tende só para este mundo, cai no reino da quantidade e a insaciabilidade do coração transforma-se e derrama-se no espaço deixado livre abaixo, a saber, a insatisfação permanente, a ingratidão. O sagrado é o limiar que discrimina a ingratidão da insaciabilidade espiritual.

A geografia sagrada

Outrora, os homens passavam grande parte da sua existência fora. Pelo próprio fato de o horizonte geográfico ser muito mais restrito do que é hoje (cerca de vinte quilômetros à volta de casa para um camponês da Idade Média no reino de França), os habitantes de um território percorriam-no de cima a baixo e possuíam uma cartografia mental muito precisa do seu ambiente. Cada pedra, cada curso de água, colina, planalto, floresta eram nomeados e inscreviam-se numa geografia sagrada onde se encontravam lugares favoráveis e procurados, lugares malditos ou interditos, perigosos ou fascinantes. Um simples olhar sobre o mapa de Cassini do século XVIII permite apercebermo-nos do emaranhado de nomes vindos do latim, do frâncico para o Nordeste do país, do celta, nomes de santos, nomes que indicam a fertilidade do solo ou, pelo contrário, as terras incultas… [4] Cada recanto tem um nome. É uma das marcas do enraizamento da população e da sua ligação com a terra que era percorrida e praticada diariamente.

A nossa sociedade, se ainda é permitido chamar-lhe assim, tanto a degradação dos laços entre os homens parece mais que uma consequência mas assemelha-se antes a um projeto, produz um desapego consumado entre o habitante e o seu território. O modelo urbano impõe-se a favor da metropolização e as cidades tentaculares geram o que o antropólogo francês Marc Augé designou como “não-lugares” [5]: estações, aeroportos, centros comerciais… Espaços onde predomina a funcionalidade ao serviço das trocas mundializadas e que, pela sua padronização extrema, provocam uma desumanização. O reino da quantidade chama a repetição, enquanto o sagrado engendra o qualitativo e a unicidade. É toda a distância que se pode constatar entre o turista e o viajante e isso participa do desenraizamento mental, psíquico e físico no interior das sociedades modernas. É esse mesmo mecanismo que tentamos evidenciar com a ideia do “transcolonialismo”, que é desprovido de projeto colonial no sentido clássico do termo, uma vez que o objetivo não é o enraizamento de uma população alógena num território já povoado, mas a sobreposição de uma camada de população fisicamente desenraizada sobre outra, mental e espiritualmente desenraizada. A criação de uma nação nômade, instável e inquieta corresponde a um capitalismo nômade que prospera na inquietação dos povos.

Os povos europeus autóctones estão confrontados, de fato, com a questão identitária. Na França, esta questão cristaliza-se em torno de uma direita nostálgica. Esta nostalgia refere-se muitas vezes a uma imagem fantasiada do país fixado nas características demográficas dos anos 1950, antes da convulsão de Maio de 68. Ora, a sociedade francesa dos anos 1950 era imbuída de interditos e de quadros vindos do catolicismo que já não seriam suportáveis hoje. Assim, obtém-se a imagem reconstruída de uma França de antes de 68 que possui, no entanto, todos os atributos de que foi carregada depois. Isto é particularmente verdade para a ideia que esta direita nostálgica faz da mulher francesa. Isto reúne, na realidade, a mesma fantasia que mantêm os descendentes de imigrantes que dedicam um culto ao seu país de origem (basta olhar para as bandeiras ostentadas durante os jogos de futebol em França) sem lá terem posto os pés senão em raras ocasiões, por vezes mesmo nunca. Que ponto comum pode haver entre um jovem francês dito autóctone tentado pela direita identitária e nostálgica e o jovem francês originário, de perto ou de longe, de um país do Norte de África ou da África subsariana, mas vivendo na França, desprezando esta enquanto valoriza desmesuradamente aquele? É o desenraizamento. E a inquietação identitária que daí decorre.

Entre as principais vias da direita identitária em França, alguns são justamente oriundos das mesmas áreas geográficas fantasiadas pelos marginais que eles contestam.

Mas mais ainda: todos estes desenraizados identitários apoiam o supremacismo israelita no que ele tem de mais sanguinário, pois constitui aos seus olhos um modelo de defesa de uma identidade à qual sentem pertencer. Um modelo justamente fundado numa geografia sagrada afirmada e confirmada pelo judaísmo, pelo cristianismo e pelo islã. Jerusalém é a bola de discórdia de um bilhar de três tabelas.

É aliás o reconhecimento desta geografia sagrada que permitiu a criação do Estado de Israel em 1948 com o aval das Nações Unidas. Sem voltar às numerosas razões que tornaram esta gênese possível, olhemos para uma delas sob o ângulo que nos interessa presentemente. Este reconhecimento baseia-se numa forma muito particular de encarar a religião: a de uma coisa de que se herda e não como uma via na qual se embarca. É esta mesma acepção patrimonial do religioso que está na origem do fanatismo sionista e, mais amplamente, do fanatismo judaico, uma vez que o judaísmo é primeiro um património genético muito antes – e até em vez – de ser a adoração de Deus. Ora, o que se encontra na inquietação identitária do francês autóctone ou do francês alógeno, é o apego reativado a uma religião de cultura ou de civilização enquanto forma mais marcada da pertença étnica. Esta conceção patrimonial da religião só é possível quando o seu caráter sagrado já não é compreendido. Sendo assim, como admirar-se que uma personagem como Éric Zemmour apele os franceses autóctones a reatar com o cristianismo católico sem se incomodar com a questão de Deus, portanto do sagrado, uma vez que aquilo em que é preciso apoiar-se é justamente o caráter identitário e genético da religião?

Éric Zemmour transpõe simplesmente o modelo judaico para o cristianismo: inútil acreditar em Deus, o que conta é que Ele nos tenha dado a Terra. É assim que se serve do sagrado. Mas os cristãos não esperaram pelo aceno de Zemmour, pois o que conta para o clero em geral é o número de ovelhas. Reatar com o cristianismo como se retomasse a loja do avô, é meter-se com os mercadores do Templo, com os “cambistas” e os “vendedores de pombas” [6]. Mas muitos muçulmanos franceses adotaram esta religião patrimonial e é aliás este islão “genético” que é posto em evidência no Ocidente, alimentando assim o jogo doentio do bilhar de três tabelas.

No final, existe uma distância vertiginosa entre servir Deus e servir-se de Deus. Um simples pronome reflexivo basta para marcar o limiar que separa o sagrado do profano. Quando a religião perde o seu caráter sagrado e cai no domínio do que se herda, se compra e se vende, cai um guarda-fogo. Pode tentar-se substituí-lo pela lei, pela norma. O nosso país é aliás um campeão na produção de leis: no início do ano de 2025, a França contava com 359.851 textos de lei em vigor no seu território, um recorde histórico atingido graças a um crescimento constante, em particular desde os últimos vinte anos [7]. Leis cada vez mais numerosas, em todas as direções e, por consequência, cada vez menos dignas de serem respeitadas. Leis sanitárias cuja vocação primeira era a humilhação (uma declaração para se autorizar a si próprio a sair de casa, possibilidade de comprar meias mas não pantufas, beber o café de pé…), leis relativas à circulação (zonas de 30 km/h que a própria polícia não respeita, falso sinal vermelho…), leis completamente iníquas [8]… Um sinal manifesto do desvirtuamento da norma no sentido latino do termo: já não há medida padrão da justiça na qual se possa apoiar. Esta tendência irá até ao colapso completo da lei. Então, quando a crise atingir o seu auge, colocar-se-á, como sempre, a questão que nunca se deveria ter perdido de vista: qual é o lugar do sagrado?

Notas

[1] https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/39752330/

[2] https://www.statistiques.developpement-durable.gouv.fr/pollution-de-leau

[3] https://choisirmafindevie.org/qa/?utm_source=chatgpt.com

[4] https://www.geoportail.gouv.fr/donnees/carte-de-cassini

[5] Marc Augé, Non-lieux. Introduction à une anthropologie de la surmodernité, Paris, Seuil, 1992.

[6] Matthieu, XXI, 12-13.

[7] https://www.legifrance.gouv.fr/contenu/Media/files/autour-de-la-loi/legislatif-et-reglementaire/statistiques-de-la-norme/indicateurs_2025.pdf

[8] Acórdão do Tribunal de Cassação de 15 de setembro de 2022: “A ocupação sem direito ou título de um imóvel pela vítima não pode constituir uma falta que exonere o proprietário do edifício da sua responsabilidade, quando se comprove que o acidente sofrido por esta última resulta da falta de manutenção do imóvel.”

Fonte: Égalité et Réconciliation

Hyacinthe Marigot
Hyacinthe Marigot
Artigos: 56

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *