As novas relações de trabalho: a passivo-agressividade hierárquica

O camarada Guilherme Alvares, psicólogo e psicanalista da NR-DF, traz uma reflexão com base nos conceitos da psicologia organizacional mais recente e sobre as novas relações trabalhistas pós-pandemia. O que as elites querem dos novos sujeitos?

Nas teorias das relações de trabalho no campo da psicologia, um autor se destaca, Christophe Dejours, apresentando que em toda relação social, principalmente de labor, há conflitos. Um desses conflitos, se constitui na hierarquia. Antigamente, havia a compreensão de que os empregados não precisavam gostar do seu empregador, mas eles poderiam se reunir para sublimar seu sofrimento. Assim, compreendendo essa barreira entre o trabalhador realizando uma função necessária, mas que acima dele, havia um líder, um empregador para dar direção ao trabalho que necessitava ser realizado. Vejamos que é desumano existir relações sociais sem conflito, onde há concordância em relação a tudo, principalmente, porque o ser humano comete erros.

Com essa premissa, desde as sociedades tradicionais, a existência de hierarquia e diferentes níveis sociais são inquestionáveis. Um filho não pode ocupar a mesma posição na família que o pai da mesma família, assim como o aluno não pode ocupar a posição de mestre, até que este atinja o seu próprio conhecimento, por intermédio do mestre.

A nossa sociedade contemporânea, tem tentado introduzir o conceito de horizontalidade na sociedade, uma representação de que todos são iguais em todas as relações. Por ressentimento ao autoritarismo vivenciado no Brasil e no mundo, por ressentimento às famílias de nascimento, reproduzem discursos de destruição do alicerce da sociedade. Das bases tradicionais que sempre regeram e permitem certa organização. Esses discursos promovem um falso senso de igualdade, mas, ao mesmo tempo, uma desordem na compreensão dos sujeitos deles mesmos.

Uma vez que os trabalhadores começam a aprender, inconscientemente, sem se dar conta, sobre a horizontalidade, uma nova forma de agir no mundo se estabelece. Os conflitos que antes existiam entre um empregado e seu patrão, logo são reduzidos. Porque há uma falsa segurança de que são iguais, que estão realizando o mesmo trabalho e recebendo o mesmo salário. Como diziam os discursos liberais dos anos 2000, “trabalhe para se tornar seu próprio patrão”. Assim como há a compreensão atual de “self made man” americano, um homem que se resolveu por si só financeiramente. É um ideal que corrompe o ser humano, a acreditar que pode realizar tudo por si só, sem precisar do outro. Que a distância entre o empregado e o empregador, é o quanto o empregado pode trabalhar para se tornar empregador.

Logo, chegamos ao ápice da fantasia neoliberal, ela foge do escopo da realidade, mantém o ser humano alienado de sua posição em sociedade. Enquanto o empregado acredita que pode virar empregador, ele desvaloriza o trabalho de seus colegas. O que era para realizar em trabalhos coletivos no passado, se tornam trabalhos com natureza tão individual, que promovem isolamento do sujeito, dos que realizam a mesma função. O “home office” da pandemia não foi apenas uma mudança de ambiente do trabalho, foi uma mudança de compreensão de si, enquanto sujeito no trabalho.

A dissolução de eventos em comunidade, feiras, religiões, nas grandes sociedades apresentam isso. Que o interesse do status quo não é promover uma capacidade da existência dos conflitos entre a sociedade, mas mitigar por completo, ao ponto das pessoas acreditarem inconscientemente que não há necessidade do conflito. O conflito é humano, tente construir uma relação de conflito com qualquer que seja a inteligência artificial, como o ChatGPT, e logo irá perceber que não há possibilidade real de discordância verdadeira. Ela pode até contra argumentar inicialmente, mas ela nunca vai dizer que você está completamente errado. Não como um pai de família faria, um líder religioso, ou um chefe de verdade.

Guilherme Alvares
Guilherme Alvares

Estudante de Psicologia, adepto do zen budismo e membro da NR-DF.

Artigos: 56

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