Introdução
Quem escreve, em um artigo publicado na edição 1/2021 da “Eurasia. Rivista di studi geopolitici” intitulado “Qanon: raízes ideológicas e papel geopolítico”, já havia tratado do tema da pulsão conspiratória inerente à cultura de massa norte-americana; das teorias oitocentistas sobre a conspiração católico-europeia para a dissolução dos Estados Unidos, à “caça às bruxas”, até o chamado “satanismo das elites” e a pseudorreligião do fenômeno Qanon.
A esse respeito, o metafísico francês René Guénon, em seu tempo, havia destacado o uso geopolítico das pseudorreligiões (em particular o do teosofismo na Índia britânica) e sublinhado como o satanismo inconsciente das massas (que tenta empurrar Deus para o inferno) era muito mais danoso do que aquele grotesco, evidente, e muitas vezes também violento, de restritos grupos de pessoas.
Agora, a publicação (ainda que restrita) dos documentos ligados ao caso Epstein foi considerada por muitos como uma vitória das teses conspiratórias sobre o supracitado “satanismo das elites”, ao qual se oporia naturalmente o triunfo de uma nova visão e reconstrução da América. Na realidade, os documentos liberados parecem deixar transparecer algo bem diferente.
Deixando de lado as teses igualmente conspiratórias (embora provenientes de uma angulação política diferente) que gostariam de apresentar o financista e traficante de menores como espião russo (o que, em todo caso, não reduziria o nojo pelos participantes de suas festas orgíacas), o que emerge é mais que tudo a ideia de utilizar a manipulação e a chantagem sobre os “goyim” (assim como o próprio Epstein define os “não judeus” em seu correio eletrônico) como instrumento para direcionar a sociedade ocidental (em sua totalidade) nos trilhos desejados por um lobby particular de riqueza e poder que encontra no Estado de Israel sua divindade terrena. O que é sim “satânico”, mas certamente não nas formas de despiste a que o conspiracionismo qanoniano (que parece ser parte deste desenho) nos acostumou.
O mito da tradição judaico-cristã
Poucos destacaram a transversalidade dos laços de Jeffrey Epstein. De suas “trocas epistolares”, de fato, emerge uma relação bastante estreita com o ideólogo do primeiro trumpismo Steve Bannon, cujo nome aparece em diversas ocasiões nos documentos liberados. Epstein, em particular, o teria ajudado a estabelecer conexões em Israel e com diversos homens políticos “soberanistas” e islamofóbicos europeus, de modo a facilitá-lo na construção de uma rede “populista” no Velho Continente[1]. Não só, mas em seu correio eletrônico se faz referência ao enorme potencial em termos de manipulação das massas presente na plataforma 4chan, conhecida justamente pela difusão de teorias conspiratórias e por ter, de alguma forma, dado impulso à campanha eleitoral de Donald J. Trump em 2015. Epstein teria encontrado Christopher Poole, fundador da mesma plataforma, justamente em 2015; data que corresponde ao lançamento de um fórum, interno ao 4chan, que se tornou rapidamente central para a difusão de um imenso volume de propaganda “extremista” que se revelou funcional ao primeiro sucesso trumpista[2].
Ainda de maior relevo são os contatos com o magnata da indústria de alta tecnologia estadunidense Peter Thiel, verdadeira eminência parda da nova administração Trump. Disso se tratará adiante. Aqui bastará recordar que Thiel está ligado por duplo vínculo ao vice-presidente J.D. Vance (seu protegido em todos os sentidos), a Curtis Yarvin (ideólogo do chamado “esclarecimento sombrio”) e ao pensador israelense Yoram Hazony (teórico de referência do próprio Vance, amplamente financiado por Thiel através do “reservatório de pensamento” e movimento internacional National Conservatism).
De Yarvin já se falou no artigo Paleotrumpismo e neotrumpismo, publicado no site informático da “Eurasia” em 18 de setembro de 2024. A figura de Hazony, por sua vez, merece um breve aprofundamento, sobretudo à luz de suas ideias sobre o “conservadorismo nacional” que estão tendo certa aceitação nas direitas europeias (Giorgia Meloni incluída)[3]. Em seu texto mais conhecido, As virtudes do nacionalismo (publicado na Itália por Guerini e Associati em 2019), Hazony indica sim a necessidade de trazer o conservadorismo de volta ao centro da esfera identitária de cada nação singular, mas ao mesmo tempo sua noção de conservadorismo permanece bastante “ambígua”. Para o ideólogo israelense (exaltado por Vance por ter influenciado a virada “iliberal” do sistema político sionista), o conservadorismo está estritamente conectado à ideia de tradição judaico-cristã, onde por “tradição judaico-cristã” se entende uma tradição muito judaica e bem pouco cristã. Hazony, de fato, vê no bíblico Reino de Israel o primeiro e perfeito exemplo de Estado-nação étnico-confessional: um modelo que, com base num princípio utópico-retrospectivo, deveria ser proposto na contemporaneidade e exportado em larga escala pelo menos para todo o Ocidente geopolítico. Em outros termos, ele vislumbra no “modelo hebraico” do passado, e no modelo colonial presente, uma forma de nacionalismo e patriotismo mais amplo e válido para todo o espaço da “tradição judaico-cristã”.
Ora, o conceito de “tradição judaico-cristã” deve necessariamente ser analisado em detalhe. Já por volta da metade do século passado, o pensador judeu-americano Arthur A. Cohen havia destacado como este era um verdadeiro e próprio “mito escatológico, produto de uma falsificação histórico-ideológica”[4]. Além disso, sublinhava como tal mito existia apenas para os cristãos, visto que o que eles imaginam do judaísmo é apenas uma caricatura (também bastante edulcorada) do mesmo. Os cristãos, consequentemente, aceitam acriticamente tal mito sem sentido, enquanto os judeus o têm historicamente sustentado apenas na medida em que era útil para garantir a existência do Estado de Israel ou para abrir caminho dentro das sociedades ocidentais.
Aliás, paradoxalmente, foram os inimigos da religião a construir a “tradição judaico-cristã”. Em particular, a construção deste mito pareceria ser obra daqueles pensadores iluministas que no cristianismo (e em seu predecessor) viam algo intrinsecamente hostil à razão. Contudo, o termo teria sido oficialmente cunhado por Ferdinand C. Baur, fundador da escola teológica do protestantismo alemão de Tübingen, em 1831[5]. Tal termo teria sido feito subsequentemente seu pelo idealismo alemão, de Hegel até Marx, que em seu ensaio sobre a “questão judaica” já falava de uma “judaização do cristianismo” e do papel do “Deus judaico”, o dinheiro, no sistema capitalista. O mesmo termo foi depois retomado por Nietzsche em seu Der Antichrist, onde era utilizado como sinônimo de escravidão dos valores.
É curioso notar, portanto, como o conceito de “judeo-cristianismo” sempre teve uma acepção negativa. Também os teólogos protestantes alemães da segunda metade do século XIX o usaram em referência à ideia de que as duas tradições deveriam ser definitivamente separadas. Segundo Cohen, de fato, judeus e cristãos têm pouco a dizer-se. Suas tradições são inconciliáveis pelo simples fato de que os primeiros não reconhecem a figura messiânica do Cristo. A esse propósito, retomando as teses do teólogo judeu-alemão Franz Rosenzweig (1886-1929), afirma sempre Cohen: “se eu tivesse que confrontar novamente a mesma loucura, a mesma santidade, o mesmo fervor, a mesma cega convicção e se ainda as multidões dela reconhecessem a divindade, ou se chocassem sobre ela, sentir-me-ia novamente obrigado a matá-lo”[6].
Jesus Cristo, portanto, seria apenas um falso Messias, e os cristãos devem conviver com o fracasso de sua escatologia e a vã espera de seu retorno. Consequentemente, o cristianismo funda-se numa forma de pessimismo teológico, produto da obra de São Paulo e Santo Agostinho (este último profundamente influenciado pelo maniqueísmo). Ao contrário, o judaísmo é baseado no otimismo teológico e escatológico. O judeu vive imerso no futuro, na messiânica espera de um reino que permanece puramente terreno. O profeta Daniel, de fato, divide a história do mundo em dois reinos distintos: o reino do mal e do sofrimento terreno para Israel; o reino da salvação terrena em que Israel derrota e submete à própria vontade seus inimigos e todos os povos da terra. Portanto, como sustentado também pelo pensador medieval anticristão Moisés Maimônides (paradoxalmente objeto de homenagem por parte de João Paulo II no curso de sua histórica visita à sinagoga de Roma), Israel é o modelo; o cristianismo, por sua vez, é apenas uma cópia ruim construída sobre a mentira messiânica.
Obviamente, também a história de Israel não é isenta de Messias que se revelaram falsos. O célebre rabino Akiba, por exemplo, proclamou Messias Simon Bar Kokhba, protagonista da rebelião contra os Romanos de 132-135 d.C., terminada com sua morte. Ainda, Sabbatai Zevi (1626-1676) autoproclamou-se Messias, para depois transformar seu movimento num fator de desestabilização interna do Império Otomano através da falsa conversão ao Islã de seus adeptos. Sem considerar a figura do polonês Jacob Frank (1726-1791), que se considerava a reencarnação de Zevi.
Parece além disso evidente que não existe uma real comunhão de valores. A tradição cristã inspira-se em parte na grega, em que o valor da história (cf. Heródoto e Tucídides) consiste em aprender as lições do passado, de modo que este possa ser glorificado na memória dos vivos e por sua vez imitado e tomado como exemplo (nisso poderia consistir uma real forma de conservadorismo europeu). Para os Gregos, a hybris é sempre um defeito; para o judeu, por sua vez, excesso e transgressão (pense-se justamente no messianismo blasfemo de Zevi e Frank) são coletivizados e transformados em virtude. A convicção de serem os escolhidos de uma eleição divina permite-lhes agir fora da moral e para além dela. Não por acaso, na virada entre Oitocentos e Novecentos, Asher Ginsberg (pai do sionismo cultural) escreveu um pequeno ensaio, claramente plagiado de Nietzsche, intitulado Inversão de todos os valores, em que o conceito nietzschiano de super-homem era substituído pela ideia de uma “supernação” a ser identificada obviamente com Israel, destinada a dominar sobre o mundo inteiro e capaz de agir fora do sistema internacional. Aliás, esta capacidade do atual “Estado judeu” de operar na rejeição do direito e em desprezo pela vida humana (como se observou também no caso do genocídio palestino ainda em curso) está na base da fascinação que Israel exerce sobre grande parte da extrema direita europeia. Em Israel vê-se uma hipóstase do super-homem, conforme uma grosseira interpretação das categorias nietzschianas.
Interessante também o fato de que outra ideia nietzschiana, a da morte de Deus, tenha sido retomada como instrumento para justificar o nascimento de uma nova forma religiosa: aquela secular e parodística do Holocausto (com seus lugares santos, seus milagrados e seus dogmas incontrovertíveis) utilizada em todos os efeitos como meio de subjugação ideológico-geopolítica da Europa e de negação de toda forma de pensamento alternativo. Igualmente interessante, neste sentido, a tentativa de criminalizar o cristianismo como inspirador do nazismo por parte do historiador judeu francês Jules Isaac.
Finalmente, seria oportuno sublinhar que existe uma diferença substancial entre o judaísmo palestino e o pós-palestino, ou da diáspora, com o segundo que se desenvolve e se solidifica na literatura rabínica em termos puramente anticristãos.
Não obstante isso, é igualmente oportuno levar em consideração também os apologistas da “tradição judaico-cristã”. Estes conhecem suas fortunas a partir de meados do século XX e utilizam tal discurso como uma forma de defesa e contraste frente à difusão do comunismo. De particular relevo, neste caso, são tanto o primeiro núcleo das ideias neoconservadoras nascido em torno da revista do judaísmo estadunidense “Commentary”, paradoxalmente animada por ex-trotskistas, quanto as contribuições presentes numa outra revista, “The Bridge”, que se propunha a reconectar o cristianismo com o judaísmo através do pedido de perdão a Israel e afirmava que a comum descendência espiritual empurraria judeus e católicos na América, onde deveriam se unir para contrastar a difusão do secularismo. Curioso o fato de que “The Bridge” tenha nascido em ambientes católicos, sobretudo à luz do fato de que os autores que trataram deste tema, pelo menos no passado, eram guiados pelo comum desprezo pelo catolicismo e pela ortodoxia cristã, com o primeiro considerado como o mais acérrimo inimigo do judaísmo.
Hoje a situação parece ser bem diversa, pois o conceito de “tradição judaico-cristã” se transformou numa verdadeira e própria religião civil do Ocidente e é utilizado sobretudo como instrumento de defesa do sionismo em todas as suas formas, incluindo o genocídio na Palestina. Isso não faz senão sublinhar a dependência dos cristãos da tradição judaica pelo seu passado e suas origens; no caso específico, mostra como tal dependência é unilateral e não recíproca. Em outros termos, evidencia a espera paciente do retorno dos cristãos à sinagoga, em primeiro lugar através do reconhecimento da natureza hierofânica do Estado de Israel.
Neste sentido, não é de subestimar a afirmação do sionismo cristão (convicção da necessidade de trazer os judeus de volta à Terra Santa para acelerar o segundo advento de Cristo) nos ambientes do tradicionalismo católico, com direito a polêmica sobre o uso do termo “irmãos mais velhos” (na Bíblia, Esaú, o irmão mais velho, é aquele abjeto que é deserdado por um prato de lentilhas). Tal afirmação se deve em primeiro lugar ao pontificado do já citado João Paulo II, que não por acaso é tomado como modelo pelos atuais entusiastas apoiadores italianos do “conservadorismo nacional” teorizado por Hazony. Mas é justamente a corrente tradicionalista católica norte-americana, fortalecida em oposição à eleição ao sólio pontifício de Bergoglio (bastante hostil em relação ao projeto sionista e de orientação “terceiro-mundista”) e com o primeiro mandato trumpista, a ter abertamente franqueado tal tendência, influenciando de modo determinante também expoentes do mundo católico italiano que se tornaram verdadeiros megafones da mensagem[7]. Obviamente, o atual vice-presidente dos EUA, o já citado J.D. Vance, converteu-se ao catolicismo em 2019, enquanto seu mentor e protetor Peter Thiel (que impôs sua escolha a Donald J. Trump em troca do apoio à sua corrida presidencial) se define ainda como cristão, não obstante sua declarada homossexualidade e seu ímpeto prometeico em direção a uma forma distópica e exasperante de progresso tecnológico.
Um discurso à parte, a concluir este parágrafo, merece um ensaio de Isaac Rottenberg (1926-2010) que reencontra o fundamento da tradição judaico-cristã na criação mesma dos Estados Unidos e na particular interpretação da Bíblia hebraica por parte dos pais peregrinos. Isso nega a laicidade insita na Constituição dos Estados Unidos e o fato de que os “pais fundadores” fossem, no melhor dos casos, meros deístas, bastante pouco inclinados à supremacia de uma qualquer religião. Muitos deles, além de serem proprietários de escravos, eram livres pensadores, iluministas, maçons que acreditavam sim na supremacia de uma divindade genericamente indicada como “Providência”, a qual, uma vez originado o universo, teria se destacado dele. Hoje, seriam na maioria ateus ou agnósticos. Consequentemente, embora o fenômeno “judeo-cristão” atual seja indissociável de sua matriz norte-americana e dos reiterados “grandes avivamentos” protestantes que parecem ter absorvido também parte do mundo católico, há, contudo, aspectos espaço-temporais e culturais que deveriam ser melhor investigados para evitar o risco de perigosas banalizações.
Duas formas coincidentes de messianismo
Não é difícil identificar na base do novo desenho geopolítico norte-americano duas formas de messianismo apenas aparentemente distintas: uma “tradicional” e ligada justamente ao mito judaico-cristão (e, portanto, às correntes neoconservadoras e do sionismo cristão que têm no secretário de Estado Marco Rubio seu expoente de destaque) e uma “prometeica” (mas igualmente pseudorreligiosa) que se liga ao mito tecnocrático de um supergoverno mundial fundado na inteligência artificial que tem em Vance seu componente visível, mas em Yarvin e Thiel suas referências ideológicas.
Se Yarvin é sobretudo um teórico (a ele pertence a ideia de que o homem, quando não produz, deve viver imerso na realidade virtual, fechado em blocos de cimento sem janelas, e que os Estados Unidos devem ser geridos como uma empresa por um ditador/diretor executivo), Thiel representa o verdadeiro e próprio ponto de encontro entre oligarcas de alta tecnologia (Elon Musk incluído), neonacionalistas e complexo militar-industrial. Seu nome (como o do próprio Trump ou de seu secretário do tesouro Howard Lutnick) comparece em diversas ocasiões nos documentos ligados ao caso Epstein. Com o financista e traficante de menores, Thiel falou abertamente daquela que deveria ser a estratégia geopolítica estadunidense no curto/médio prazo: provocar uma forma de caos global e explorar a condição geográfica dos EUA para assumir o pleno controle sobre o hemisfério ocidental (uma doutrina Monroe 2.0), isolar-se e valer-se da condição de fragmentação e desestabilização para acumular recursos e descarregar sobre o resto do mundo o peso da crise de seu próprio sistema capitalista.
Por seu lado, Epstein aconselhou ao político israelense Ehud Barak que mantivesse sob controle o poderoso desenvolvimento do grupo Palantir, a empresa do próprio Thiel produtora de software para vigilância, espionagem e coleta de dados utilizados tanto pelo ICE em suas batidas em Minnesota, quanto pelo IDF para controlar e massacrar a população de Gaza.
Barak foi por muito tempo “cliente” e confidente de Epstein. A ele se deve não só o início da operação “Chumbo Fundido” contra Gaza (era ministro da defesa em 2008), mas também uma maciça ação de pressão sobre a justiça italiana para obter a absolvição do empresário suíço Stephan Schmidheiny (condenado no processo Eternit pelo homicídio culposo de 92 trabalhadores)[8]. Da biografia de Epstein, “Eurasia” já se ocupou em 6 de fevereiro de 2026 com o artigo Jeffrey Epstein, Israel e o poder ocidental. Aqui será suficiente recordar que as fortunas de Epstein começaram com a confiança depositada nele pelo magnata Les Wexner (autor em juventude de um ensaio do emblemático título Por que amo e respeito o judaísmo, publicado pelo Ohio Jewish Chronicle, e envolvido nos anos 80 no escândalo Irã-Contras e no consequente tráfico de cocaína da América Latina para a América do Norte[9]) e com a relação amorosa que o ligou a Ghislaine Maxwell. Esta é filha de Robert Maxwell, empresário do setor midiático e agente secreto a soldo de diversos patrões de origem judaico-checoslovaca, o qual em 1948 teria agido como intermediário para favorecer o envio de ajuda militar da Checoslováquia às forças sionistas empenhadas no primeiro conflito árabe-israelense.
Ora, esta particular conexão Palantir-ICE-IDF nos remete ao modelo teórico de Hazony. Como já relatado, o que propõe o ideólogo israelense para o Ocidente outro não é senão uma nova ordem fundada no princípio de que o “povo eleito” pode agir sem se importar com as regras morais e o direito internacional. O modelo de Hazony é representado pelas colônias militarizadas da Cisjordânia, fundadas numa mistura de violência, fanatismo e estreita vigilância. Sua ênfase nos compartilhados valores judaico-cristãos, na realidade, esconde a simples vontade de empurrar à sacralização total do Estado de Israel; esta é a verdadeira e única divindade, enquanto os outros Estados (pequenas unidades fragmentárias e privadas de real soberania) são reduzidos a acessórios de Israel. O messianismo judaico, de fato, é todo configurado sobre esta ideia: sobre a subjugação a Israel dos povos não judeus (os goyim citados a mais não poder nos documentos do caso Epstein). Reportava a este propósito o pensador francês de origem judaica Bernard Lazare: “Sem a lei, sem Israel para praticá-la, o mundo não seria. Deus o faria entrar no nada; e o mundo conhecerá a felicidade só quando estiver submetido ao império universal desta lei, ou seja, ao império dos judeus”[10].
É uma ideia que se reencontra no dito rabínico: “como o mundo não pode existir sem o vento, assim o mundo não pode existir sem Israel”. Aqui, o paragón com o vento não é de modo algum desprovido de significado, visto que ele perturba a composição da paisagem, levanta a poeira e se mete nos lugares mais remotos e escondidos onde reina a treva.
É claro que o messianismo terreno judaico se funda na ideia de paz como mera submissão dos outros povos à vontade de Israel. O messianismo prometeico-tecnocrático de Thiel é apenas aparentemente diferente. O modelo permanece o da sociedade da vigilância (ou melhor, do capitalismo da vigilância), que teve no episódio pandêmico um magnífico banco de provas, com direito à militarização da campanha vacinal na Itália e o enriquecimento desmedido das sociedades multinacionais farmacêuticas. A luta ao globalismo hodierno, por sua vez, esconde a vontade de substituir elites decrépitas para promover os interesses de novas oligarquias transnacionais (sobretudo israelo-americanas) paradoxalmente ainda mais totalitárias.
Aqui é preciso compreender o papel da administração Trump como agente do caos antes de trazer uma forma de pax judaico-americana e antes de prover à sua sucessão, talvez com um elemento menos inclinado ao narcisismo, menos imprevisível e mais facilmente gerível (J.D. Vance?). A desestabilização do Irã, por exemplo, entra neste desenho. A este propósito, o secretário do tesouro Scott Bessent candidamente reconheceu que os EUA criaram um déficit de dólares no País ao preciso escopo de desencadear uma espiral inflacionista vertiginosa. Tal déficit teve como efeito imediato a falência de um dos mais importantes bancos iranianos na sequência de uma maciça retirada de depósitos. Isso forçou o banco central a imprimir nova moeda com o consequente colapso da mesma. E isto, por sua vez, produziu um ciclo de protesto popular pesadamente infiltrado por agentes estrangeiros, pelo menos em sua segunda fase[11].
Mas em que consiste esta nova pax judaico-americana? Thiel, como já antecipado, falou da evolução em direção a uma ordem global tecnológico-totalitária em que a própria tecnologia toma o efetivo predomínio sobre a política. Trata-se, em outros termos, da imposição do modelo israelense em escala global, com uma restrita elite que vive na riqueza e com plenos direitos e uma massa enorme que vive fora dos “oásis felizes”, privada de qualquer coisa e submetida a formas de controle cada vez mais invasivas.
Esta nova ordem, a seu modo de ver, seria a única via para evitar o apocalipse (um apocalipse provocado pelo caos global gerado pelos próprios EUA). A nova ordem seria, portanto, um katechon. Contudo, se o katechon paulino tinha a tarefa de frear o advento do Anticristo, Thiel chama “Anticristo” à sua forma catecôntica. Para os padres da Igreja e os teólogos cristãos medievais, o Anticristo correspondia ao messias da tradição judaica.
Notas
[1]Ver How Jeffrey Epstein sought to help Steve Bannon build a global populist movement, 9 febbraio 2026, www.edition.cnn.com.
[2]Ver Epstein met with 4chan’s founder just as the infamous political thread began, 5 febbraio 2026, www.ms.now.
[3]S. Azzali, L’ideologo israeliano del neonazionalismo, “Eurasia. Rivista di studi geopolitici” n. 1/2026, vol. LXXXI.
[4]A. Cohen, The myth of the judeo-christian tradition, Harper & Row Publishers, New York 1970, p. 13.
[5]E. Natahan – A. Topolski, Is there a judeo-christian tradition? A European perspective, su www.jstor.org.
[6]The myth of the judeo-christian tradition, ivi cit., p. 169.
[7]G. Franciosi, Sionismo cristiano e tradizionalisti cattolici, “Eurasia. Rivista di studi geopolitici”, op. cit.
[8]Eternit, Report: per Schmidheiny si mosse anche il Mossad. E Jeffrey Epstein, 4 gennaio 2026, www.rainews.it.
[9]Iran-Contra, l’inchiesta che svela il ruolo di Epstein, 22 dicembre 2025, www.insideover.com.
[10]B. Lazare, L’antisémitisme, son histoire et ses causes, 1894, riedizione ad opera di Kontre Kulture 2012, p. 15.
[11]US says it caused dollar shortage to trigger Iran protests: what that means, 13 febbraio 2026, www.aljazeera.com.








