Chamar o ditador e oficial militar de um regime comunista, o general Wojciech Jaruzelski, de “conservador” vai surpreender muitos leitores ocidentais.
Afinal, um ícone de lealdade aos seus senhores soviéticos pode ser considerado conservador em algum sentido que não seja uma dedicação nefasta a conservar uma ordem política altamente destrutiva?
A história é escrita pelos vencedores, diz o antigo ditado. Isso é ainda mais adequado ao caso da Polônia, onde um novo despertar histórico, acompanhado de retóricas patrióticas grandiosas, ocorreu nos últimos 20 anos. Esse despertar basicamente relegou todo o período entre 1945 e 1989 à lata de lixo da história como um momento constrangedor e triste na narrativa histórica polonesa, um em que as decisões morais eram sempre claras: nós ou eles. Eles, os opressores do povo polonês, não eram apenas os soviéticos, mas também os sucessivos governos e governantes da República Popular da Polônia.
Essa nova atitude negativa em relação à história da Polônia tem como alvo, em primeiro lugar, o falecido general Jaruzelski e concentra-se principalmente na sua decisão de impor a lei marcial em dezembro de 1981, uma decisão de consequências verdadeiramente históricas.
De certa forma, o status de Jaruzelski na vida social e política mainstream da Polônia pode ser comparado, de maneira inversa, ao status quase sacrossanto do Martin Luther King Jr. nos Estados Unidos. Na medida em que se acumulam elogios ao líder mártir dos direitos civis como um dos precursores da sociedade americana moderna, a pessoa é bem e educadamente recebida. Qualquer opinião dissidente sobre King, seja expressa pela esquerda ou pela direita, seria considerada moralmente inaceitável e fora dos limites do aceitável.
O mesmo princípio se aplica a Jaruzelski, com a diferença de que em todos os casos é obrigatório condená-lo nos termos mais duros possíveis. Um exemplo patológico dessa atitude estabelecida foi exibido durante o funeral dele em 2014, no qual grupos de manifestantes leais ao atual partido no poder fizeram uma demonstração de seus alardeados valores conservadores e cristãos ao perturbar a cerimônia solene, gritando acusações políticas inadequadas para o caixão de uma pessoa que se reconverteu ao catolicismo em seu leito de morte e recebeu os Sacramentos.
Se um polonês, seja ele acadêmico, jornalista ou comentarista, ousar expressar uma opinião diferente sobre Jaruzelski; ou tentar lançar alguma nova luz sobre sua figura e suas ações; ou oferecer uma avaliação diferente, menos emocional, de seu período no poder, pode ter certeza de que será alvo de hordas de trolls da internet ou de autoproclamados especialistas, sendo chamado de comunista, agente russo ou de alguém sofrendo de algum tipo de deficiência mental. A mensagem subjacente é clara: nenhuma dissidência será tolerada. Isso se aplica especialmente às vozes polonesas de direita, das quais se espera condenações de Jaruzelski sem qualquer reserva. Qualquer abordagem alternativa à sua figura é considerada quase um crime de pensamento entre os conservadores.
Essa narrativa, sempre presente na sociedade polonesa, é um testemunho do poder duradouro da propaganda midiática, especialmente do tipo que é patrocinado pelo Estado, voltada claramente para alcançar uma agenda política ao custo de um debate histórico honesto que pudesse lançar mais luz sobre uma das figuras mais importantes da história polonesa moderna.
Felizmente, nem todo mundo se rende diante de tal chantagem moral. Alguns estudiosos e comentaristas na Polônia estão mais interessados na verdade do que em “serem aceitos”.
Um desses estudiosos é Adam Wielomski, professor de ciência política na Universidade Cardeal Stefan Wyszyński em Varsóvia e comentarista político conservador. Conhecido por suas pesquisas sobre Carl Schmitt, a direita contrarrevolucionária francesa, o nacionalismo francês e o fascismo latino, Wielomski não é estranho a controvérsias devido às suas visões sobre Jaruzelski.
Em muitos artigos e comentários, assim como em uma famosa entrevista de 2009 com o próprio Jaruzelski para o periódico Pro Fide Rege et Lege, Wielomski deixou clara sua visão: o falecido general não é de forma alguma aquele vilão notório que os neoconservadores e liberais poloneses o pintam como sendo.
“O general Jaruzelski levou uma vida simples e avaliá-lo do ponto de vista político é uma questão complicada”, disse-me Wielomski em uma entrevista. Ele aponta para a infância e juventude de Jaruzelski como fatores cruciais na formação de sua visão ideológica básica, que era abertamente católica e nacionalista. Veio então o Pacto Molotov-Ribbentrop e a partilha da Polônia em 1939, que resultou na trágica deportação do jovem Jaruzelski para a Sibéria. Querendo voltar ao seu país, ele se alistou no Exército Polonês criado pelos comunistas poloneses a serviço de Stalin.
Sabemos que, durante esse período, Jaruzelski perdeu a fé religiosa e renunciou às suas visões antissoviéticas. O próprio Jaruzelski apontaria mais tarde que, por causa de suas experiências na Sibéria, entre o povo russo simples, ele começou a ver a Rússia sob uma luz diferente e se tornou um realista político. Wielomski coloca grande ênfase nesse paradigma realista presente no pensamento de Jaruzelski.
“Enquanto seu comportamento pessoal era caracterizado por um oportunismo profundo, suas ações políticas são mais complicadas”, disse Wielomski. Ele continuou:
“Reconhecendo a República Popular da Polônia (RPP) como o Estado polonês de facto e de juri, ele trabalhou por muitos anos para melhorar suas forças armadas. Sabemos que contribuiu para a desestalinização do exército, removendo dele os oficiais mais obstinados e teimosos durante o período de liberalização comunista. Por fim, Jaruzelski introduziu a lei marcial em dezembro de 1981. Esse é o episódio mais controverso, porque até hoje não sabemos se, na ausência da lei marcial, o Exército Vermelho não teria intervindo na Polônia”.
Embora o consenso histórico retrate Jaruzelski como um ávido defensor da introdução da lei marcial para enfrentar o movimento Solidariedade, e que os soviéticos não estavam dispostos a intervir na Polônia em 1981, Wielomski, no entanto, levanta a questão: o que a URSS teria feito caso a lei marcial tivesse fracassado? Ele acredita que, em dezembro de 1981, nem o próprio Jaruzelski sabia a resposta para essa pergunta, mas que existia o potencial para uma incursão militar destrutiva do Pacto de Varsóvia na Polônia.
“Provavelmente, na época, ele foi movido apenas pela crença oportunista de que precisava salvar seu próprio governo e posição política”, disse Wielomski. “Na verdade, acredito que, ao salvar sua própria posição, ele também salvou a Polônia de uma invasão devastadora altamente provável por tropas soviéticas, da RDA [Alemanha Oriental] e tchecoslovacas”.
Wielomski também observa a rápida descomunização do Estado polonês durante o governo de Jaruzelski nos anos 1980. “Os slogans comunistas e o domínio do POUP [Partido Operário Unificado Polonês] foram substituídos por uma ditadura de esquerda baseada em slogans patrióticos de salvação da pátria e sobre a ameaça da URSS”, disse Wielomski.
“O domínio dos apparatchiks comunistas foi substituído pelo domínio de oficiais militares não ideológicos”, continuou Wielomski. “Após a rejeição da fraseologia comunista da RPP, restou apenas uma ditadura de esquerda”.
Wielomski concorda com outro defensor da escola conservadora do realismo político, o professor Bronisław Łagowski, de que o maior erro político de Jaruzelski foi sua decisão de entregar o poder a um grupo de esquerdistas e liberais sedentos por poder, representados de forma mais proeminente por figuras como Adam Michnik, Bronisław Geremek e Tadeusz Mazowiecki, do campo do Solidariedade. Esse grupo “privatizou e destruiu tudo o que foi construído entre 1944 e 1989”, observou Wielomski. “Por causa dessa decisão, da dependência militar-política da URSS, caímos no status econômico e político de neocolônia do capitalismo ocidental”.
Outra voz revisionista à direita, Jan Engelgard, editor do semanário nacionalista Myśl Polska e diretor do Museu da Independência de Varsóvia, difere um pouco em sua avaliação das decisões políticas de Jaruzelski no final dos anos 1980.
“Se em 1989 ele cometeu um erro ao entregar o poder aos seus antigos adversários e abrir o país à influência ocidental e ao liberalismo é difícil avaliar, porque também é difícil indicar qualquer alternativa real”, disse-me Engelgard em uma entrevista. Líderes que tentaram evitar fazer essas concessões como o iugoslavo Slobodan Milošević, pagaram caro por isso, disse Engelgard. “As leis de ferro da geopolítica e da economia foram simplesmente decisivas na época”.
Engelgard acredita que a atual negatividade excessiva em torno de Jaruzelski faz parte de uma agenda política esquerdista mais ampla. O que muitos no establishment de direita da Polônia parecem não perceber, segundo Engelgard, é que Jaruzelski é acusado, muitas vezes por esquerdistas, de defender a ordem comunista, quando na verdade ele foi um político que impediu uma revolução. Assim, fica mais fácil ver Jaruzelski à luz da imagem de um estadista conservador tradicional — um “ditador comunista”, sim, mas cujas decisões foram guiadas pelo desejo de manter a ordem e a estabilidade contra uma onda revolucionária; um governante guiado pelo realismo geopolítico, posicionando-se contra um movimento baseado em ideologia e febre revolucionária.
Seria exagero dizer que tal figura seria reconhecida por Carl Schmitt como o katechon — aquele que restaura a ordem em meio ao caos?
Engelgard não tem dúvidas. Ele, assim como Wielomski, também aponta para os primeiros anos de Jaruzelski, combinados com a experiência da Segunda Guerra Mundial, como decisivos em sua visão política. A biografia do falecido general é, por um lado, a história de um patriota católico de uma família de proprietários de terras com tradições inequivocamente nacionalistas e anticomunistas; por outro, sua vida inicial mostra que, após 1945, muitos poloneses decidiram, em nome da sobrevivência prática, fazer uma escolha política pelo comunismo apesar de suas visões anteriores.
Havia dezenas de milhares como Jaruzelski, aponta Engelgard. Pessoas que vinham de grupos políticos hostis ao comunismo antes da guerra. O fato de que alguns se tornaram comunistas, ou se simplesmente aceitaram a realidade pós-guerra de dominação da Polônia pela Rússia soviética, deveu-se ao simples imperativo de autopreservação.
Engelgard observa que a Polônia precisava funcionar de alguma forma após o terrível imbróglio da Segunda Guerra Mundial, ressurgindo depois que sua própria existência biológica foi ameaçada. Essa foi exatamente a visão adotada por Jaruzelski, que realmente acreditava ser essa a posição moralmente correta e realista a tomar. Não é exagero notar aqui que essa também era a posição fundamental do cardeal Stefan Wyszyński, Primaz da Polônia: preservar a nação a todo custo de outra revolta sangrenta e de tumultos, mesmo que isso significasse ceder às demandas do Estado comunista. Nenhuma pessoa sã acreditava verdadeiramente na possibilidade realista de combater o Império Soviético e ressuscitar uma Polônia plenamente independente.
“A grande maioria da intelligentsia polonesa se reconciliou com a realidade pós-guerra e, mais ou menos, ‘se infiltrou’ nas estruturas do Estado e do partido no poder”, disse Engelgard.
Segundo Engelgard, Jaruzelski cultivava a imagem de um “verdadeiro comunista”, mas não era nada disso. Após 1956, a chamada “tendência nacionalista” enraizou-se no POUP, um grupo referido como os Partisans e liderado por Mieczysław Moczar. Lajos Léderer, correspondente do London Observer, referiu-se a Moczar como “uma figura do tipo De Gaulle que é tanto um comunista autoritário quanto um forte nacionalista polonês”. Os Partisans visavam combinar a ideologia oficial com o patriotismo polonês, e Jaruzelski imediatamente se juntou às suas fileiras.
A filiação aos Partisans permitiu que Jaruzelski avançasse em sua carreira política e eventualmente chegasse à chefia do Estado polonês. Esse avanço, segundo Engelgard, possibilitou a execução de uma agenda política específica, pela qual Jaruzelski conduziu a Polônia pela crise dos anos 1980, privando o aparelho estatal de suas cores ideológicas e essencialmente marginalizando a atividade e a relevância do POUP comunista em favor de uma ideologia amplamente nacionalista e enraizada na tradição.
Ame ou odeie ele, foi Jaruzelski quem completou o processo de liquidação do comunismo na Polônia, um fenômeno que vinha ocorrendo desde 1956.
“Muitos não querem lembrar que o curso da lei marcial poderia ter sido mais trágico, se o chefe de Estado fosse outra pessoa que não estivesse tão profundamente enraizada na tradição polonesa e consciente dos episódios trágicos da história polonesa, incluindo as revoltas fracassadas”, disse Engelgard.
Andrzej Walicki, historiador e ex-professor da Universidade de Notre Dame, observou em sua obra, Do Projeto Comunista à Utopia Neoliberal:
“Ao introduzir a lei marcial, o general Jaruzelski referiu-se exclusivamente à ameaça ao bem-estar nacional, tratando a introdução de uma ditadura militar como um “mal menor” temporário. Após conquistar, teoricamente, um poder indiviso, ele não tentou politizar todas as áreas da vida; pelo contrário, contentou-se com uma lealdade passiva, combinando-a com esforços intensos para criar uma esfera politicamente neutra na qual todos os poloneses pudessem cooperar entre si pelo bem do país. Ele até delineou o ideal do “Constitucionalismo Socialista”, que resultou na criação do Tribunal Constitucional e do cargo de Ouvidor (Ombudsman). Enquanto avaliava realisticamente suas capacidades, ele não correu o risco de iniciar reformas de mercado, mas, no entanto, reconheceu a necessidade de desenvolvimento nessa direção, rejeitando completamente a visão comunista de uma economia centralizada de não-mercado.”
À luz dessas opiniões adversas, é importante levar em conta dois outros fatores que parecem atenuar o status de Jaruzelski como suposto vilão da história da Polônia.
Em 2016, uma pesquisa do Centro Polonês de Pesquisa de Opinião Pública (CPOP) relatou que 41% dos poloneses expressaram a opinião de que a decisão de implementar a lei marcial foi justificada; 35% acreditavam no contrário; e 24% não tinha opinião. Pode-se argumentar, então, que, apesar da mensagem negativa da mídia mainstream sobre Jaruzelski e sua decisão política mais consequente, mais da metade dos poloneses, quando perguntados, relutam em condenar diretamente o falecido general.
A correção da decisão de impor a lei marcial foi mais frequentemente apoiada na pesquisa do CPOP por poloneses entre 45 e 64 anos, que experimentaram em primeira mão os efeitos do governo de Jaruzelski. Isso desmente a alegação popular de que a decisão de Jaruzelski visava claramente prejudicar as aspirações justas e corretas da nação polonesa. Não surpreendentemente, a divulgação dos dados da pesquisa do CPOP foi recebida com comentários depreciativos da direita establishment, com um popular portal de notícias alinhado ao partido governante Lei e Justiça chamando os resultados da pesquisa de “preocupantes”.
Outra alegação subjacente na propaganda negra sobre Jaruzelski é que o presidente americano Ronald Reagan era linha-dura em relação a Jaruzelski e à sua decisão de impor a lei marcial, e que a administração Reagan era totalmente oposta aos métodos do general. Basta ler o bem pesquisado livro de Douglas J. MacEachin, Inteligência American e a Crise Polonesa 1980–1981 (disponível para leitura online no site da própria Agência Central de Inteligência dos Estados Unidos), para concluir que a posição americana, embora abertamente favorável ao Solidariedade em público, era mais realista e acomodatícia em relação a Jaruzelski.
De acordo com um relatório da CIA de junho de 1981, a lei marcial foi considerada uma ação que excluía a intervenção direta da URSS. Os efeitos dessas conclusões levaram ao apoio americano dado a Jaruzelski como político no final dos anos 1980, incluindo um apelo do presidente George H. W. Bush apoiando a candidatura do general à presidência de uma República da Polônia renascida.
A história do general Wojciech Jaruzelski não é tão simples quanto parece. Uma pesquisa calma, conduzida com apreço pela mentalidade política realista e por uma compreensão conservadora da política como “a arte do possível”, levou numerosos comentadores e estudiosos poloneses e não poloneses a concluir que Jaruzelski não foi nem malfeitor nem salvador.
Em vez disso, em uma visão mais equilibrada, Jaruzelski surge como uma figura trágica, shakespeariana, atuando em circunstâncias extremamente difíceis, cujas justificativas declaradas deveriam ao menos receber uma avaliação justa. Não tenho dúvida de que Jaruzelski se identificaria plenamente com estadistas como o marechal francês Philippe Pétain, que foi colocado numa posição igualmente difícil de manter um governo francês após a invasão nazista, pelo que mais tarde foi julgado e condenado por traição. Dirigindo-se a seus compatriotas em sua última transmissão de rádio, em agosto de 1944, ele disse: “Se eu não pude ser a vossa espada, tentei ser o vosso escudo. Afastei de vocês alguns perigos certos; houve outros, infelizmente, dos quais não pude poupá-los”.








