Introdução: nenhuma “virada”, apenas mudança de técnica
A imagem que a Casa Branca e Tel Aviv tentam projetar é a de uma “virada histórica”: a guerra em Gaza teria acabado, o “acordo Trump” teria posto um ponto final no genocídio, e uma nova arquitetura de segurança, confiada a uma força internacional de estabilização (ISF) e a um “Board of Peace” liderado pelo próprio presidente dos EUA, estaria tomando forma.
No entanto, se seguirmos a evolução do plano, desde os primeiros anúncios de Donald Trump sobre o “plano em 20 pontos” até os últimos desenvolvimentos – as incursões israelenses durante a trégua, o controle de 53% da Faixa, a hipótese de uma base americana em Gaza, o fracasso da Gaza Humanitarian Foundation – surge um quadro diferente: a guerra não acaba, é administrada; o genocídio não cessa, é normalizado.
O mesmo vale para a Ucrânia: o conflito prossegue e a frente permanece em movimento, mas Washington adota uma estratégia de progressivo desengajamento. O chamado “plano de paz” é na verdade a forma política do seu afastamento: a suspensão da ajuda e a pressão sobre Kiev para que aceite um acordo que atenda aos interesses norte-americanos e russos transferem para os europeus e ucranianos todo o custo estratégico do conflito.
A tese que aqui propomos é simples: o que está acontecendo não é uma virada, mas uma mudança de técnica. Em Gaza, a ofensiva não para, torna-se menos visível; na Ucrânia, a guerra não é resolvida, mas abandonada. Em ambos os casos, o “plano Trump” visa reduzir o custo político, econômico e moral da violência para Washington e seus aliados, transformando guerras de alta intensidade em conflitos de baixa visibilidade: trégua no papel, guerra de desgaste permanente no terreno. Trata-se de uma única lógica aplicada em contextos diferentes: o que em Gaza se torna controle armado do território e guerra de desgaste, na Ucrânia se manifesta como redução do comprometimento norte-americano e pressão por uma paz desfavorável. É a mesma técnica: gerenciar o conflito, não resolvê-lo; reduzir a exposição, não encerrar a guerra.
O “plano para Gaza”: pensamento colonial e retorno ao status quo
A primeira peça é o plano de 20 pontos anunciado por Trump ao lado de Benjamin Netanyahu: cessar-fogo, retorno da ajuda da ONU, vago caminho para um “Estado palestino” e, sobretudo, uma reconstrução de Gaza entregue a um comitê liderado pelo próprio Trump e pelo ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair, com os palestinos relegados ao papel de coadjuvantes. Yasmine El-Sabawi, no “Middle East Eye”, definiu essa estrutura como “puro pensamento colonial”: o plano reproduz o status quo anterior a 7 de outubro de 2023, garantindo a continuidade da ocupação e marginalizando qualquer subjetividade palestina.[1]
A Autoridade Nacional Palestina é ainda mais esvaziada, enquanto nenhum mecanismo real limita a anexação da Cisjordânia. O cerne do projeto é a transformação de Gaza em um território gerido por potências estrangeiras, por meio de uma espécie de administração fiduciária internacional (a Gaza International Transitional Authority, GITA) na qual Blair e Trump exercem poderes de supervisão e veto[2].
A reação palestina, no entanto, desmente a ideia de um plano “imposto de cima” e simplesmente aceito: o Hamas, após consultas internas e com mediadores regionais, publica um comunicado complexo. Aceita entrar num caminho de troca de prisioneiros-reféns, declara-se pronto a transferir a administração civil para uma autoridade tecnocrática palestina sustentada por consenso nacional e apoio árabe-islâmico, mas rejeita qualquer hipótese de ocupação militar, deportação ou desarmamento unilateral.
Em outras palavras: abertura tática sobre trégua e administração técnica, recusa estratégica de entregar as armas e de legitimar uma nova forma de protetorado colonial.
Hamas entre aceitação tática e recusa ao desarmamento
A dialética interna do Hamas é decisiva para compreender a fase seguinte do plano. Por um lado, a liderança política – sob pressão egípcia, qatari e turca – aceita os elementos centrais do cessar-fogo: libertação dos reféns israelenses, troca por milhares de prisioneiros palestinos, retirada parcial do IDF (Forças de Defesa de Israel) atrás da chamada “linha amarela”, criação de um governo técnico de transição em Gaza, com figuras como Amjad Shawa à frente de um executivo de emergência.
Por outro lado, a ala militar (as Brigadas al-Qassam) e a liderança externa, de Basem Naim a ‘Izzedin al-Haddad, mantêm uma linha clara sobre o desarmamento: as armas da resistência poderão ser entregues “apenas nas mãos de um Estado palestino” e os combatentes poderão ser integrados num futuro Exército Nacional Palestino, mas não existe qualquer disponibilidade para um desarmamento unilateral sob tutela estrangeira.[3]
A resolução do Conselho de Segurança que aprova o “Plano de Paz para Gaza”, com a previsão de uma ISF encarregada da “deposição permanente de armas por parte de grupos armados não estatais”, é portanto rejeitada pelo Hamas como inaceitável: um dispositivo que transformaria a força internacional em parte do conflito, não em garantidora imparcial.[4]
De fato, o Hamas aceita o plano na sua dimensão humanitária (fim dos bombardeios massivos, troca de prisioneiros, entrada de ajuda, retorno parcial dos deslocados), mas o rejeita na sua dimensão estratégica (desarmamento, exclusão do governo de Gaza, consolidação de um protetorado colonial).
O cessar-fogo como dispositivo: controle de 53% e “modelo libanês”
Assinada a primeira fase do acordo – o texto Implementation Steps for President Trump’s Proposal for a Comprehensive End of Gaza War, publicado integralmente pelo “Middle East Eye” – a guerra é declarada oficialmente “encerrada”. Os obstáculos: o IDF se retira atrás do “mapa X”, as hostilidades cessam formalmente, a ajuda entra na Faixa.
Mas já nesta fase emergem os traços de uma nova arquitetura de controle: fontes israelenses e norte-americanas esclarecem que, mesmo após o cessar-fogo e a libertação dos reféns, o exército israelense manterá o controle de 53% de Gaza, particularmente ao longo dos corredores “estratégicos” e das faixas de segurança internas.
Trata-se de uma ocupação “leve”: menos visível, parcialmente recuada, mas estruturalmente permanente. A direita israelense reage de modo paradoxal: denuncia o acordo como “rendição”, “Oslo 3”, “fracasso total”, convida a “se armar” e pede para retomar os bombardeios após a libertação dos reféns. No entanto, essa mesma direita reconhece como “sucesso” a libertação simultânea dos reféns ainda vivos e ter imposto no acordo a perspectiva do desarmamento total do Hamas.
Em segundo plano, Trump e Netanyahu falam de “vitória histórica para a paz”. Mas no terreno a trégua revela-se desde já uma trégua condicionada, reversível, continuamente violada por Tel Aviv: tiros de artilharia “esporádicos”, incursões nas áreas evacuadas, “reações” desproporcionais a supostas violações palestinas. Em poucos dias, dezenas de civis são mortos, hospitais atingidos, bairros novamente bombardeados.
É aqui que emerge com clareza o que Chiara Cruciati define como “modelo Líbano”: uma trégua armada e ilimitada no tempo, na qual Israel se reserva o direito de atacar a qualquer momento em nome da “segurança”, mantendo vastas porções de território sob controle militar e impedindo qualquer verdadeira reconstrução. Os acordos são papel; a guerra, uma prática cotidiana de baixa intensidade.[5]
Inviabilidade e invisibilidade: do genocídio espetacular ao genocídio administrado
No plano militar, a lógica é clara: a ofensiva israelense não cessa, reestrutura-se. Passa-se do aniquilamento rápido à estratégia da inviabilidade. O cessar-fogo reduz os bombardeios de saturação, mas proliferam ataques “direcionados”, demolições sistemáticas, armadilhas explosivas deixadas entre os escombros para desencorajar o retorno dos deslocados, drones que sobrevoam os bairros disseminando mensagens ameaçadoras, tiros de tanque contra quem tenta ultrapassar a “linha amarela”.
A reportagem de Lina Ghassan Abu Zayed no “il manifesto” descreve a paisagem pós-trégua: robôs-bomba, veículos blindados recheados de explosivos guiados à distância dentro de bairros residenciais, casas transformadas em artefatos de tempo, até mesmo rações de comida preenchidas com explosivo para atingir quem busca se alimentar. O objetivo não é mais apenas destruir a infraestrutura militar do Hamas, mas tornar a própria vida impossível: “inviabilidade” como técnica de guerra e de controle.[6]
Paralelamente, o cerco humanitário continua. A quase duas semanas da trégua, a OMS denuncia que “não entra comida suficiente, a fome não diminui”; os caminhões de ajuda são cerca de 200 por dia contra os 600 previstos pelos acordos, a entrada de materiais para reconstrução está bloqueada, os vales (sobretudo Rafah) permanecem fechados ou abertos de forma intermitente, enquanto milhões de equipamentos térmicos, tendas e cobertores permanecem bloqueados entre Egito, Israel e Jordânia.
A Gaza Humanitarian Foundation (GHF), criatura político-privada desejada por Washington e Tel Aviv para “revolucionar” a gestão da ajuda, revela-se pelo que é: um mecanismo de guerra disfarçado de humanitarismo. Centros de distribuição militarizados, comboios protegidos por contratantes armados, multidões dispersas a tiros de arma de fogo e drones, centenas de mortos nos “massacres da fome”. No final, a fundação é liquidada justamente no momento em que as agências da ONU conseguem retomar – embora com mil obstáculos – uma distribuição minimamente racional da ajuda.[7]
A Anistia Internacional, rompendo a narrativa edulcorada dos governos ocidentais, fala abertamente de “genocídio que continua”: o cessar-fogo cria uma “ilusão de normalidade”, mas a “morte lenta” prossegue através da fome, da falta de cuidados médicos, da destruição deliberada de casas, escolas e infraestruturas, da negação do direito ao retorno.
O genocídio não é mais um espetáculo televisivo de bombardeios em tapete; é um processo administrado, diluído no tempo, menos fotogênico, menos monitorável. Exatamente o que Trump precisa: continuar a apoiar Israel sem o peso político dos massacres a céu aberto, oferecendo cobertura diplomática a um “genocídio silencioso”.[8]
Gaza e Cisjordânia: genocídio lento e limpeza étnica “normalizada”
A “pacificação” de Gaza não pode ser separada do que acontece na Cisjordânia. Enquanto o mundo olha para a trégua na Faixa, na Cisjordânia consome-se um genocídio silencioso: incursões noturnas, prisões em massa, torturas, execuções extrajudiciais, demolições de casas e vilas, expulsão de comunidades inteiras de áreas estratégicas como o Vale do Jordão ou Masafer Yatta.
Shahd Taha, no “Middle East Eye”, fala de “genocídio lento”: crianças forçadas a se ajoelhar diante de soldados, hospitais sem medicamentos, pacientes que morrem porque o tempo para salvá-los é “roubado” nos postos de controle militares. Ao mesmo tempo, organizações como a Yesh Din documentam uma taxa de impunidade quase total para a violência dos colonos: mais de 90% dos casos arquivados, condenações reduzidas a percentuais marginais.[9]
Não se trata de episódios isolados, mas de uma estratégia coerente: o uso coordenado de exército, colonos e aparelho administrativo (autorizações, ordens de demolição, confiscos de terras) para desmantelar qualquer forma de vida palestina. Tratores em cada canto da Palestina – do Naqab a Jerusalém Oriental, de Gaza à Cisjordânia – indicam que o verdadeiro objetivo não é a “segurança”, mas a redefinição étnica do espaço.
Neste contexto, o plano Trump não representa uma ruptura com a lógica colonial; ao contrário, fornece a Israel instrumentos e coberturas para prosseguí-la. A “Gaza International Transitional Authority”, o comitê com Blair, a ISF, a base militar americana projetada na Faixa, a própria GHF: todos esses dispositivos concorrem para construir uma soberania fragmentada e multinível na qual os palestinos permanecem objetos, não sujeitos, do processo.
A crise do projeto israelense: emigração, deslegitimação e “colapso já iniciado”
A ilusão de uma paz “gerenciada” coexiste com uma crise profunda no interior da sociedade israelense. A guerra permanente, a deriva teocrática e colonial, a normalização do genocídio em Gaza produzem uma fuga silenciosa: dezenas de milhares de israelenses judeus deixam o país a cada ano, muitos com alto capital humano, em busca de um futuro fora de um Estado percebido como cada vez mais racista, militarizado e isolado.
O sociólogo Yinon Cohen fala de “tsunami demográfico”; os dados discutidos no Knesset indicam um saldo negativo de cerca de 130.000 pessoas em poucos anos, com mais de um milhão de israelenses vivendo de forma estável no exterior. Não é apenas “emigração econômica”: são professores, acadêmicos, profissionais que não veem espaço para si em um Estado etnocrático.[10]
Ilan Pappé, entrevistado por Michele Giorgio, descreve esse processo como um “colapso já iniciado” do projeto sionista: Israel torna-se um Estado cada vez mais isolado, teocrático, incapaz de viver com os vizinhos, enquanto o sistema de apartheid e limpeza étnica corrói a sua própria legitimidade internacional.[11]
O plano Trump, neste sentido, é uma bóia salva-vidas para Netanyahu: permite ao primeiro-ministro apresentar-se como coautor de uma “paz” enquanto consolida a anexação na Cisjordânia e mantém a ocupação de facto de Gaza. Mas não resolve a crise de fundo: a contradição estrutural entre um Estado que se define como “judeu” e a presença de um povo nativo que reivindica direitos iguais sobre essa mesma terra.
A outra frente: a Ucrânia abandonada e a “paz” a custo europeu
Enquanto Trump investe capital político e simbólico no plano para Gaza, o outro grande conflito do sistema internacional – a guerra na Ucrânia – é gerido segundo uma lógica diferente, mas complementar. Aqui não se trata de sustentar um aliado percebido como “insubstituível” (Israel), mas de reduzir os custos para os Estados Unidos descarregando o peso da guerra e da reconstrução sobre os europeus.
Já nos primeiros meses de seu segundo mandato, Trump assina a Executive Order 14169, ordenando uma pausa de 90 dias em toda a assistência ao desenvolvimento exterior para “realinhar” a ajuda, com exceções apenas para Egito e Israel; o sinal é claro: a era dos “cheques em branco” acabou.
Pouco depois, a Casa Branca suspende por tempo indeterminado a ajuda militar a Kiev, lamentando a falta de “compromisso com a paz” por parte de Zelensky e deixando bloqueados mais de um bilhão de dólares em armas e munições.
Paralelamente, emerge o “plano em 28 pontos” para a Ucrânia: um projeto de cessar-fogo que pede a Kiev que aceite concessões territoriais significativas (particularmente no Donbass), a renúncia à OTAN e limites no tamanho das Forças Armadas, em troca de garantias de segurança ambíguas e reversíveis.[12]
Trump apresenta esse plano como uma forma de “parar a guerra em 24 horas”, mas de fato trata-se de cristalizar no terreno os ganhos russos, descarregando o custo político da rendição sobre os dirigentes ucranianos e o custo econômico da reconstrução sobre a União Europeia. Não é por acaso que Bruxelas acelere no uso dos ativos russos congelados – cerca de 200–300 bilhões de euros – como garantia para novos empréstimos a Kiev, na tentativa de compensar o fim do apoio americano.[13]
Neste quadro, a guerra na Ucrânia não termina: é congelada numa “paz imperfeita” que deixa abertas todas as questões de fundo (fronteiras, segurança, soberania), enquanto Washington se afasta, mantém apenas a alavanca diplomática sobre a “paz” e se concentra em dossiês mais próximos de sua própria agenda (Oriente Próximo, competição com a China, redefinição da OTAN).
O paralelo com Gaza é evidente, mas a direção é oposta: na Palestina, Trump usa sua centralidade para normalizar um genocídio de baixa intensidade; na Ucrânia, usa a arma do desengajamento para forçar uma “paz” que congela o conflito e transfere o custo para a periferia europeia. Em ambos os casos, a prioridade é reduzir o custo para os Estados Unidos, não resolver os conflitos.
A “libanização” da Faixa
Se juntarmos todos estes elementos – o plano colonial para Gaza, a trégua armada e reversível, o genocídio transformado em administração ordinária, o abandono da Ucrânia a um processo negociado imposto de fora e estruturalmente desfavorável a Kiev, a crise interna da sociedade israelense, a estabilização do regime de apartheid na Cisjordânia – vemos emergir uma constante: a normalização da violência como técnica de governo global.
Em Gaza, uma guerra de baixa intensidade não é “menos guerra”: é apenas mais confortável para quem precisa fingir não ver. A “libanização” da Faixa – trégua no papel, bombardeios “direcionados”, cerco humanitário, demolições seletivas, ausência de reconstrução – não é um desvio temporário, mas um modelo. É o modo como Israel e seus aliados imaginam gerir o “problema palestino” no longo prazo: tornando a vida inviável e, ao mesmo tempo, a violência invisível.
Notas
[1] Shahd Taha, Amid Gaza’s nightmare, a slow genocide is unfolding in the West Bank, “Middle East Eye”, 22 ottobre 2025.
[2] Colonial thinking and the pitfalls of Trump’s 20-point Gaza plan, “Middle East Eye”, novembre 2025.
[3] Reuters, Hamas rejects UN Gaza resolution, says international force would become party to conflict, 17 novembre 2025.
[4] The Washington Post, ISF Gaza: Trump-backed international force plan for Gaza stirs controversy, 29 novembre 2025.
[5] Chiara Cruciati, Il limbo di Gaza, invivibile e invisibile, il manifesto, novembre 2025.
[6] Lina Ghassan Abu Zayed, Trappole tra le macerie per impedire il ritorno, il manifesto, 15 ottobre 2025.
[7] Eliana Riva, GHF: dalle stragi di affamati alla liquidazione, il manifesto, novembre 2025.
[8] Israel’s genocide in Gaza continues as Palestinians face “slow death” despite ceasefire, “Middle East Eye”, 2025.
[9] Shahd Taha, Amid Gaza’s nightmare, a quiet genocide has been unfolding in the West Bank, “Middle East Eye”, 22 ottobre 2025.
[10] Chiara Cruciati, La grande emigrazione da Israele, “il manifesto”, 25 novembre 2025.
[11] Michele Giorgio, Questo piano ferma la strage ma sarà al massimo una tregua, non la pace, “il manifesto”, 12 ottobre 2025.
[12] Sarah Shamim, Trump’s 28-point Ukraine plan in full: What it means, could it work?, “Al Jazeera”, 21 novembre 2025.
[13] EU has a plan to use frozen Russian assets to fund Ukraine – how will it work?, “The Guardian”, 23 ottobre 2025.








