Apesar da Noomaquia duginiana ser relativamente recente, é possível encontrar possíveis raízes dessa “ciência noológica” em um texto escrito 30 anos antes, o “Raízes Metafísicas das Ideologias Políticas”.
Os mais atentos estão cansados de saber que o “magnum opus” do filósofo russo Aleksandr Dugin é a série em 25 volumes “Noomaquia” (literalmente “guerra dos intelectos/mentes”), mais de 15 mil páginas dedicadas ao estudo das estruturas noéticas das culturas humanas.
As ferramentas teórico-metodológicas da obra – explicadas nos dois primeiros volumes – podem ser condensadas na descoberta do caráter constitutivo de três elementos, aspectos ou orientações – chamados por Dugin de “logoi” – que operam como paradigmas noéticos que, em suas múltiplas combinações e conflitos moldam a forma pela qual cada cultura ou civilização desenvolve.
Em uma releitura durandiana da dualidade apolíneo-dionisíaca teorizada por Nietzsche, Dugin acrescenta ao Logos de Apolo e ao Logos de Dioniso, o Logos de Cibele.
Superficialmente, podemos caracterizar o Logos de Apolo por seu caráter vertical, exclusivista, hierárquico, transcendente, luminoso, masculino, etc; o Logos de Dioniso por seu caráter medianeiro, dialético, extático, transcendente-imanente, sombrio, andrógino, etc; e o Logos de Cibele por seu caráter horizontal, inclusivo, democrático, imanente, escuro, feminino, etc.
Trata-se aí de três maneiras distintas de lidar com o mundo, e que moldam, por isso, todas as obras humanas.
Mas, apesar, dessa formulação duginiana ser relativamente recente, inadvertidamente é possível encontrar possíveis raízes da “ciência noológica” em um texto escrito 30 anos antes, o “Raízes Metafísicas das Ideologias Políticas”, artigo no qual Dugin pretende oferecer uma “metateologia política” como fundamento último das principais ideologias políticas.
Não se trata, simplesmente, de uma “teologia política” como a feita por Carl Schmitt porque aqui não se trata simplesmente de associar perspectivas religiosas explícitas, como o deísmo, com suas possíveis expressões políticas, como o liberalismo clássico, mas de rastrear as ideologias políticas até os elementos estruturantes que subjazem até mesmo as perspectivas teológicas.
E Dugin identifica três princípios informadores das ideologias políticas, batizados por ele de “Paraíso Polar”, “Criador-Criação” e “Matéria Mágica”.
O princípio paradisíaco-polar é identificado por Dugin como correspondendo ao caráter absoluto e singular da natureza divina, em que tudo é concebido como reflexo dessa própria natureza divina. Não há distância ou intermediação entre o Sagrado e a política, vista como simplesmente uma das clareiras nas quais o Sagrado aparece. Pelo próprio caráter de absolutez concentrada, Dugin identifica nesse princípio uma tendência monárquica e estruturalmente imperial (ou seja, de anseio por integração de amplos territórios sob a tutela do imperador), além de um impulso revolucionário e escatológico.
O princípio criacionista é identificado por Dugin como correspondendo a uma perspectiva dualista-dialética da realidade, na qual sujeito e objeto, homem e mundo estão claramente separados, mesmo que em uma relação permanente marcada pela alteridade. O sujeito está lançado na periferia do mundo, por trás do qual se oculta o Criador, e o Sagrado só emerge pela intermediação do sacerdócio. A forma política do Estado-nação democrático e outras formulações políticas conservadoras estão permeadas dessa perspectiva, e o impulso fundamental é o de estabilização da realidade dada.
O princípio mágico-materialista é identificado por Dugin como correspondendo basicamente a uma espécie de panteísmo. O sujeito inexiste enquanto tal, sendo mero espelho do mundo e um objeto entre outros imerso no mundo. A relação com o mundo é puramente instrumental e é vista como guiada por forças impessoais, de modo que o papel do homem no mundo é interpretado de maneira mecanicista. O mundo, como sistema autônomo identificado com a Razão, conhece como único movimento possível a evolução. E aqui recaem as tendências políticas niveladoras, como o comunismo e a social-democracia.
O princípio paradisíaco-polar e o princípio mágico-materialista podem ser facilmente associados, respectivamente, ao Logos de Apolo e ao Logos de Cibele, mas o princípio criacionista parece um pouco mais distante do Logos de Dioniso. Eles se aproximam na percepção dualista-dialética da realidade, mas parece faltar uma clareza quanto à natureza transcendente-imanente (ou seja, do “Espírito encarnado”) típica da perspectiva dionisíaca. Na verdade, ao criacionismo é atribuído um caráter puramente exotérico, em que o Sagrado aparece sempre como algo distante e mediado, enquanto no dionisíaco o Sagrado está sempre ao alcance da experiência extática do iniciado. É interessante, porém, como em ambos Dugin lê uma vinculação, entre outros, com o idealismo atualista de Giovanni Gentile.
Essa distância entre o artigo do final dos anos 80 e a Noomaquia pode ser explicada pelo fato de que no seu amadurecimento intelectual, a percepção clara das distinções entre Logos de Dioniso e Logos de Cibele aparece apenas na obra “Em Busca do Logos Escuro”, que precede a Noomaquia.
Outro aspecto interessante nesse que é um dos primeiros artigos publicados por Dugin, é que em sua análise daquilo que ele chama de “materialismo mágico” é possível encontrar vislumbres daquilo que eventualmente seria desenvolvido sobre a forma da “ontologia orientada ao objeto”, especialmente em sua descrição do homem como objeto puro imerso em meio a forças impessoais que ditam o desenvolvimento autônomo da racionalidade do mundo.








