A crise da arte é também uma crise de soberania

Uma coisa é arte. Outra coisa é ativismo. São esferas distintas, com propósitos diferentes. O artista pode – e às vezes deve – usar sua arte para expressar sua visão política. Mas só será arte se conseguir fazê-lo com relevância, originalidade, criatividade, domínio técnico, expressividade, consistência conceitual, equilíbrio formal, inovação e a capacidade de capturar o espírito de seu tempo. Se faltar tudo isso, o que resta é apenas um panfleto. E quando esse panfleto ocupa lugar de destaque em galerias, instituições ou museus, não significa que tenha deixado de ser panfleto. Significa apenas que atende aos interesses de uma agenda ideológica hegemônica. Nestes casos, a obra não é aceita por reunir valores artísticos – é aceita por servir de vitrine ideológica. O melhor termômetro para tudo isso é o tempo.

Todo panfleto vira pó. A obra de arte, quando verdadeira, vive por mil anos

O artivista – esse híbrido oportunista entre artista e ativista – geralmente não busca a arte. Busca aceitação. Busca aprovação. Persegue os modismos e as demandas ideológicas de seu tempo, sabendo que este é o único caminho que pode torná-lo um artista celebrado e bem-sucedido. Raros são os que conseguem transgredir essas tendências e impor sua singularidade. Mas eles existem. Suas obras nascem da coragem e da verdade visceral.

Há muitos anos, a arte e a cultura se tornaram um campo de guerra – uma guerra fria, uma guerra cultural – que visa capturar corações e mentes. Um poder suave, mas eficaz, dominou completamente museus, galerias, instituições, bienais e salões – no Brasil e em boa parte do mundo ocidental – por meio do que hoje se chama artivismo.

Esses ocupantes não estão ali para criar, mas para ocupar. Para impedir que floresçam expressões
verdadeiramente livres – expressões capazes de elevar os espíritos, provocar encantamento estético e gerar discernimento fora das pautas preestabelecidas. Esse processo não é acidental: é a manifestação cultural de um fenômeno mais amplo – a dissolução deliberada dos critérios artísticos objetivos em nome de uma liberdade que, no fundo, serve à desorientação simbólica.

Na minha visão, qualquer movimento que deseje a soberania precisa ter uma estratégia clara em relação
à arte e à cultura. Não como instrumentos de propaganda, mas como territórios vitais de liberdade, produção de pensamento crítico, beleza e potência simbólica. A soberania cultural não se conquista por decreto nem por slogan, mas por meio de formas vivas que transmitam um repertório partilhável, inteligível e elaborado com rigor.

Quando tudo é arte, nada é arte. Ou pior: quando o que se entende por arte é definido apenas por validações institucionais comprometidas com agendas externas, o campo cultural se torna vulnerável e desconectado da experiência viva de um povo. É por isso que não valorizo a chamada “arte engajada”. Arte serve para ser arte.

O artista é uma máquina viva de memórias infinitas. Os olhos são as janelas da alma. Aderir a modismos, seguir briefings ou ceder a interesses mesquinhos é renunciar a uma força poderosa da natureza: a própria singularidade. Causa-me repulsa ver a tentativa constante de empurrar o feio como divino ou bananas coladas com silver tape na parede como algo revolucionário. Demonizam quem discorda. Transformam o debate em tribunal.

Artista é aquele que realiza o extraordinário. Sempre foi assim. E continuará sendo. Mas hoje vivemos a tirania dos arautos do ordinário. Fazem barulho, ocupam os espaços, se promovem com politicagens. Abusam das inteligências artificiais e se colocam como gênios por conta de seus prompts. Nesse ambiente, o que se perde não é apenas a arte – é a própria possibilidade de uma sensibilidade coletiva, articulada e educada pela experiência estética.

A linguagem visual, como a literária ou a musical, estrutura a forma como percebemos o mundo. Quando ela se torna opaca, hermética ou arbitrária, rompe-se o elo entre criação e comunidade. Esse jogo tem um objetivo claro: desumanizar a arte. Há tempo demais o Ocidente trabalha para enaltecer o feio, o ordinário, o disruptivo e o repugnante como critério exclusivo para que algo seja chamado de arte. Mas esse castelo de areia irá desmoronar. Será triturado pelo moinho do tempo.

A arte relevante, feita por artistas extraordinários, nasce imortal. Simples assim.

Caminhões de textos e imagens são produzidos por segundo, todos os dias, em torno da irrelevância. Este ruído é a marca cultural do Brasil atual. Felizmente, ruído não é música.

Os curadores, contemporâneos, em sua maioria, me lembram certos peixes que habitam cavernas profundas – cegos, adaptados à escuridão, emitindo sons repetitivos para atrair os seus iguais. Em algum momento, escolheram essa condição. Optaram por sobreviver dentro da política nefasta da arte contemporânea. Não é morte total. É apenas uma forma primitiva de vida.

Uma nação que deseja soberania cultural precisa sair da caverna. Precisa recuperar critérios, práticas e formas que expressem com clareza e força aquilo que não se dobra a slogans. A vida pulsa fora das cavernas. Explode em cores, em formas e em melodias harmônicas.

A arte não pode mais depender de editais viciados, de comissões ideológicas e de conceitos herméticos, identitários e abstratos para encontrar seu lugar ao sol. O Brasil precisa entender que, sem arte e cultura, jamais conseguirá consolidar as bases de sua soberania. E essa soberania só será possível se a arte voltar a ser compreendida como forma exigente, compartilhável, comunicável – não como experimento arbitrário ou peça vazia de propaganda.

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Sergio Mauricio Manon
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