Escalada na Ucrânia: Morre a esperança de paz com os anúncios mútuos de guerra?

Os EUA estão beirando uma guerra mundial com a Rússia e a China. A situação parece irreversível, com uma escalada cada vez maior de tensões e reavivamento de velhos conflitos estacionados. Mas será que ainda há a possibilidade de vermos uma desescalada nas tensões? Alexander Markovics analisa a situação, dando uma visão geral do envolvimento de cada ator político nesse conflito de proporções escatológicas.

Henry Kissinger adverte: Os Estados Unidos estão à beira de uma guerra mundial com a Rússia e a China, guerra essa que também pode assumir proporções nucleares. Quem conhece o currículo desse belicista americano talvez se surpreenda que tal mensagem venha dele. Kissinger critica regularmente e publicamente as elites americanas atualmente. Esta circunstância deve-se ao fato de os EUA terem calculado mal ao exagerar sua belicosidade contra a Rússia. A luta pelo “tabuleiro de xadrez euro-asiático” (Brzezinski) está no fio da navalha para Washington. Justamente por isso, as palavras desse homem de 99 anos, que está muito acima da elite americana em termos de habilidades políticas e a critica regularmente, são instigantes. Mas como se pode desescalar a situação diante do perigo de uma conflagração global em torno desse conflito? A desescalada só é possível se analisarmos e classificarmos concretamente as diferentes partes e o seu envolvimento neste conflito que se desenrola desde 2014. Comecemos pelos EUA, que provavelmente desempenham o papel mais inglório neste conflito.

EUA: O maior belicista na questão ucraniana, mas será que veremos uma virada em sua política externa com as eleições legislativas?

Neste momento, os Estados Unidos são os maiores apoiadores da Ucrânia. Com um total de 25 bilhões de euros em ajuda militar (Alemanha: 1,2 bilhão) e mais de 10 bilhões de euros em apoio financeiro (Alemanha: cerca de 1 bilhão) para a Ucrânia. Os EUA são de longe os maiores apoiadores do regime de Zelensky. Os Estados Unidos não apenas fornecem à Ucrânia defesas aéreas Stinger, peças de artilharia, granadas e complexos antitanques Javelin – conforme relatado pelo Deutsche Stimme – mas também apoiam maciçamente os militares ucranianos treinando soldados e fornecendo dados de seu próprio sistema de reconhecimento por satélite. Além disso, “ex” soldados dos EUA apareceram na Ucrânia através da empresa mercenária Academi, bem como por meio de equipes operacionais e unidades especiais.

Além disso, funcionários da CIA no terreno de Kiev coordenam ataques terroristas do serviço secreto ucraniano ucraniano (SBU) contra alvos civis na Rússia, como jornalistas – por exemplo, Daria Dugina, de acordo com informações da Deutsche Stimme – e infraestruturas civis, como o ataque à ponte de Kerch. Volodymyr Zelensky agora é chamado de “Osama Bin Laden europeu”: o louco de Kiev está até mesmo pedindo um ataque nuclear preventivo contra Moscou. Mas nenhuma operação é realizada sem a bênção de Washington. Até agora, vimos a evolução sinistra do apoio dos EUA à Ucrânia. Mas a frente da Guerra Fria começa a desmoronar: Elon Musk, que até agora tem apoiado a Ucrânia com seus satélites Starlink, defendeu um plano de paz combinado com referendos nos territórios que reverteram para a Rússia. Da mesma forma, alguns republicanos proeminentes estão fazendo campanha para questionar o apoio à Ucrânia antes das próximas eleições de meio de mandato. Isso se justifica, dentre outros motivos, pelas muitas crises em seu próprio país, desde o declínio da infraestrutura até enormes problemas econômicos e sociais, como a inflação e a crise energética. O fim do apoio dos Estados Unidos a Kiev significaria o fim da “guerra até o último ucraniano” e um novo começo para uma solução diplomática.

A União Europeia: vassala dos EUA.

Quanto à UE, seu financiamento institucional é um dos recursos mais importantes para a Ucrânia, depois dos Estados Unidos. Mas embora a UE invista relativamente pouco dinheiro (2,5 bilhões de euros) nas forças armadas ucranianas, um décimo da contribuição dos EUA, seu apoio financeiro para manter o Estado ucraniano funcionando é ainda maior que o de Washington, totalizando 12,3 bilhões de euros. O potencial de escalada da União Europeia reside principalmente em alguns de seus Estados membros: o governo alemão, por exemplo, está considerando enviar para a Ucrânia não apenas tanques e obuses Gepard, mas também o “tanque animal” alemão (Baerbock) Leopard II. O problema com isso é que a Alemanha teria que enviar oficiais junto com os tanques, mas ao fazer isso estariam enviando oficialmente soldados para a guerra, o que, por sua vez, tornaria oficialmente a Alemanha uma parte do conflito, e isso significaria, portanto, a participação da OTAN. A França também fornece armas César para a Ucrânia e quer conceder empréstimos para que compre armas francesas, mas o presidente Macron não quer aceitar o envolvimento direto do Estado, tradicionalmente muito mais pró-russo. Afinal, a Polônia em particular tem potencial para escalar o conflito: já em fevereiro, a Polônia estava pressionando pelo envio de suas próprias “tropas de manutenção da paz” para a Ucrânia, e também se discutiu uma concessão de aeronaves ocidentais para a Polônia em troca do envio de aviões polacos para a ucrânia. Mas Varsóvia se arrependeu com a ideia de um maior envolvimento militar. Isso é o que acontece com o Ocidente, mas que potencial de escalada a Rússia e seus aliados têm?

Rússia: da operação antiterrorista ao ataque nuclear tático

Aos olhos da mídia ocidental, a Rússia está “à beira do colapso” desde o primeiro dia da operação militar. Mas até agora Moscou dá a impressão de que, apesar dos contratempos em Kharkov, sequer cogita rendição, muito pelo contrário. Com a mobilização parcial das forças armadas russas, outros 300.000 homens vão participar dos combates na Ucrânia, o que colocará em perspectiva a parcialmente grande inferioridade numérica das forças russas até agora. Ademais, o novo comandante em chefe russo, o general Surovikin, indica que o caráter da operação está mudando. A transformação em uma operação antiterrorista está em marcha, o que inclui ataques diretos ao governo ucraniano e à infraestrutura civil a partir de 10 de outubro. Uma nova escalada da operação até a guerra e o uso de armas nucleares táticas é concebível em vista das provocações ocidentais. No campo de batalha, a aliada Minsk em particular poderia assegurar uma expansão das hostilidades.

Belarus: Até 500.000 soldados à Ucrânia

O governante Lukashenko quer enviar até 500.000 soldados para a Ucrânia em caso de agressão ocidental. Desde a escalada do conflito, um punhado de bielorrussos da oposição tem lutado na Ucrânia, e Minsk teme que o conflito transborde. Por conta disso, Minsk formou um grupo de combate em conjunto com a Rússia. Isso não apenas ata as forças ucranianas, como também pode avançar rumo a Kiev pelo norte.

Coreia do Norte: 100.000 soldados para Putin?

O país asiático ilhado também é visto como um partidário da operação russa na Ucrânia, segundo os propagandistas ocidentais. Os Estados Unidos afirmaram em agosto que a Coreia do Norte havia enviado munição de artilharia e rifles de assalto de fabricação soviética para apoiar o esforço bélico russo na Ucrânia. Também foi dito que 100.000 soldados seriam providenciados a Moscou por Pyongyang. A própria Pyongyang negou as acusações dos EUA. Até agora, não há provas da presença de norte-coreanos na Ucrânia. Ademais, o apoio da Coreia do Norte à Rússia não teria sentido, já que a produção de armas de Moscou não demonstrou até agora nenhum sinal de debilidade. O cenário mais provável seria que os trabalhadores norte-coreanos ajudassem a reconstruir Donbass.

Irã: drones kamikaze para Moscou?

Outro aliado de Moscou que é considerado um estado pária aos olhos do Ocidente é o Irã. Já na Síria, soldados iranianos da Guarda Revolucionária lutaram lado a lado com pilotos russos. Como resultado dessa cooperação na Síria, puderam livrar 95% do país das mãos dos terroristas. Enquanto a Rússia ainda estava fraca no início da operação militar, não passa um só dia sequer sem que os drones kamikaze russos detonem posições ucranianas. Enquanto Kiev fala sobre drones iranianos, Teerã nega tê-los fornecido à Rússia. É provável que os drones Geran-2 usados ​​por Moscou sejam uma réplica do Shahed-13 iraniano, agora produzidos na Rússia. Além de poder eliminar alvos nas profundezas da linha de frente com esses drones, sua própria artilharia pode ser ainda mais precisa por meio de reconhecimento. Como o Irã se recusa a fornecer armas para qualquer um dos lados do conflito, a longo prazo só aumentará o compartilhamento de tecnologia com a Rússia. Finalmente, há sinais de um acordo sobre o programa nuclear, que está sendo impulsionado massivamente por Moscou.

China: uma intermediária honesta para a Ucrânia?

Diante do envolvimento direto de tantas potências, não são muitos os Estados que se oferecem como mediadores. Pequim, que também apoia o plano de paz de Elon Musk, pode desempenhar um papel crível nesse sentido. Dessa forma, o dragão poderia levar a águia e o urso para a mesa. Claro, nesse momento tudo parece caminhar rumo a uma decisão no campo de batalha, mas a esperança de paz só morre no final.

Fonte: Geopolitika.ru

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Alexander Markovics

Bacharel em História pela Universidade de Viena, Secretário-Geral do Instituto Suvorov, cofundador do Movimento Identitário Austríaco.

Artigos: 593

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