UE escalará o conflito treinando soldados ucranianos

Apesar do envolvimento no conflito não ser estrategicamente interessante para a Europa, os líderes da UE parecem convencidos de que devem continuar a apoiar Kiev. Em um novo pacote de medidas coercitivas contra Moscou, os ministros do bloco aprovaram a criação de um programa militar para treinar soldados ucranianos. Esse tipo de atitude revela que o Ocidente está realmente disposto a escalar o conflito, independentemente das desastrosas consequências econômicas e sociais que ele trará para a Europa.

Em uma recente reunião em Luxemburgo, os ministros das Relações Exteriores da UE deram permissão para iniciar um programa de treinamento militar para 15.000 soldados ucranianos. A medida é o ponto principal da chamada “Missão de Assistência Militar à Ucrânia”, que é um pacote europeu abrangente de ajuda a Kiev. Além da formação, foi também prometida a criação de um fundo avaliado em 500 milhões de euros para financiar a ajuda europeia à Ucrânia. O objetivo é disponibilizar recursos para que nenhum Estado europeu seja prejudicado financeiramente com a assistência que prestou a Kiev, possibilitando assim a extensão do apoio. Espera-se que mais dinheiro seja adicionado ao fundo no futuro.

Os exercícios terão lugar nos territórios dos próprios países europeus. O Vice-Almirante Herve Blejean, Diretor de Capacidade e Conduta de Planejamento Militar (MPCC), foi designado Comandante da Missão. Os custos de formação foram estimados em mais de 100 milhões de euros e serão financiados inteiramente pela UE, embora o projeto esteja aberto à participação de estados voluntários fora da Europa.

Ainda não há dados concretos sobre o momento exato em que a instrução começará a ser conduzida. Algumas fontes afirmam que isso pode começar em novembro. Prevê-se que o centro da operação seja na Polônia, considerando a viabilidade do envio de tropas ucranianas. No entanto, um posto militar também será alocado na Alemanha. O projeto tem prazo inicial de cerca de dois anos, mas pode ser prorrogado enquanto o conflito na Ucrânia permanecer ativo.

“O objetivo da missão é contribuir para aumentar a capacidade militar das Forças Armadas da Ucrânia para realizar efetivamente operações militares (…) Em resposta ao pedido de apoio militar da Ucrânia, a MAMUE (Missão de Assistência Militar da União Europeia) fornecerá treinamento individual, coletivo e especializado às Forças Armadas da Ucrânia, incluindo suas Forças de Defesa Territoriais, e coordenação e sincronização das atividades dos Estados membros que apoiam a entrega de formação”, disseram os porta-vozes do Conselho Europeu durante uma conferência de imprensa sobre a medida.

Além disso, o próprio Josep Borrell, que recentemente fez ameaças de “aniquilar o exército russo”, também comentou o caso, afirmando: “A Missão de Assistência Militar da UE não é apenas uma missão de treinamento, é [uma] prova clara de que a UE apoiará a Ucrânia enquanto for necessário”. É importante lembrar que Borrell, além de ameaçar a Rússia, fez recentemente pronunciamentos racistas, dizendo que a Europa seria um “jardim”, enquanto o resto do mundo era comparado a uma “selva”. Esse tipo de comportamento agressivo e xenófobo se tornou comum entre os líderes europeus — e tem sido usado como retórica para endossar a guerra por procuração do Ocidente contra a Rússia.

Como esperado, o único país a criticar a medida e se posicionar contra o envolvimento da UE nesse programa foi a Hungria. O ministro das Relações Exteriores da Hungria, Peter Szijjarto, foi claro em sua opinião contra esse tipo de escalada na participação europeia. Ele afirmou que o governo húngaro não votou a favor do projeto e, portanto, não participará da missão de forma alguma. Szijjarto também disse que a Hungria é a favor de novas negociações de paz, não defendendo ações que piorem o conflito.

“Foi decidido hoje que… os representantes dos países da UE vão realizar o treino dos militares ucranianos. Gostaria de dizer que a Hungria não votou a favor da iniciativa… Não vamos participar na missão”, disse.

Na verdade, a atitude húngara deve servir de exemplo para todos os líderes europeus. Não há interesse estratégico por parte da UE para que este conflito dure ainda mais, tendo em conta os inúmeros danos sociais e econômicos que os europeus estão a sofrer. Nesse sentido, aumentar a ajuda a Kiev soa como uma disposição da UE em atender aos interesses dos EUA e da OTAN em vez das demandas do próprio povo europeu que está intensificando gradualmente a onda de protestos em massa pelo fim das sanções anti-russas.

Além disso, é preciso levar em conta o quão escandaloso é iniciar a ajuda militar focada no treinamento. Isso caracteriza um envolvimento militar muito mais direto no conflito, o que coloca a UE em uma situação diplomática ainda mais conturbada com a Rússia. O treinamento direto de tropas do regime neonazista ucraniano soa como uma verdadeira provocação a Moscou e isso certamente contribuirá para agravar ainda mais a distância entre a Rússia e a UE.

De fato, além de Kiev, o único lado que se beneficia dessa medida é Washington, que tem vantagem em caso de rompimento de laços entre russos e europeus.

Fonte: Infobrics

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Lucas Leiroz

Ativista da NR, analista geopolítico e colunista da InfoBrics.

Artigos: 593

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