Quem é Alexander Dugin? Anatomia de um Pensamento Radical e Complexo

O pensamento de Dugin tem cada vez mais atenção midiática e acadêmica. É sempre, portanto, necessário revisar noções básicas sobre Dugin, seu pensamento e a ideia da restauração imperial da Rússia.

Descobri Alexander Dugin em maio de 2009, por acaso, durante uma discussão com dois amigos que estavam me hospedando em São Petersburgo. A discussão era sobre Houellebecq e eu mencionei sua biografia de Lovecraft publicada em 1988. Houellebecq contou como Lovecraft, em seus melhores textos, transcreveu o horror invisível que dobra o universo visível. Um de meus interlocutores então respondeu que na Rússia, onde Lovecraft é popular, um filósofo chamado Aleksandr Dugin desenvolveu este ponto de vista em uma conferência de 1998. Citei então uma passagem da biografia escrita por Houellebecq: “O valor de um ser humano hoje é medido por sua eficiência econômica e seu potencial erótico: isto é, exatamente as duas coisas que Lovecraft mais odiava”.

Também Dugin, certamente ainda mais, acrescentou meu interlocutor.

Então Dugin é um crítico literário? Este certamente não é o aspecto mais conhecido deste intelectual transversal e poliglota cujos eixos principais que estruturam seu pensamento podem ser encontrados em outros lugares.

Uma geopolítica “eurasiática”

Inspirado por Halford J. Mackinder (1861-1947), um dos pais da geopolítica, Dugin concebe a história como um confronto eterno entre a “Terra” e o “Mar”. Para Mackinder, a geografia, apesar dos avanços tecnológicos, continua sendo um elemento fundamental de qualquer ordem mundial desde a Guerra do Peloponeso, que viu o confronto de uma grande frota (Atenas) e de um grande exército (Esparta). Para Dugin, o Heartland é o espaço eurasiático, em conflito com o poder marítimo, primeiro britânico, depois americano.

Seu pensamento se insere na tradição do hermetismo: são as forças espirituais que sempre guiaram o mundo. Ao invocar a Tradição, no sentido de Julius Evola ou René Guénon, Dugin procura contrariar as tentativas de infiltração ocidental que pesam sobre a imaginação russa desde o colapso do comunismo. Deste ponto de vista, ele se coloca na esteira da Revolução Conservadora alemã dos anos 1920 e 1930. Não é infeliz que a primeira fonte de inspiração para os conservadores revolucionários tenha sido a obra de Dostoievski, traduzida pelo líder da Revolução Conservadora, Arthur Moeller van den Bruck. Na política, Dugin defende uma “convergência de extremos”, entre Estados ou entre formações políticas. Esta estratégia visa combater o perigo de reconstituir um cordão sanitário em torno da Rússia, mas também evitar qualquer risco de enfraquecer os opositores do liberalismo, criando antagonismos artificiais com base em disputas históricas do passado.

Publicado em 1997, seu livro Fundamentos da Geopolítica é antes de tudo uma síntese de várias de suas palestras (proferidas entre 1991 e 1996), de seus intercâmbios internacionais (notadamente seus encontros com a Nova Direita francesa e italiana), mas também de suas palestras proferidas na Academia do Estado-Maior das Forças Armadas da Federação Russa. O principal desafio dos Fundamentos da Geopolítica é apresentar em detalhes os contornos do plano “atlantista” (isto é, estadunidense) e suas extensões políticas (membros da OTAN) para conter a Rússia através de sucessivos círculos de novos Estados independentes, com o objetivo de eventualmente impor a democracia liberal. Diante disso, a estratégia proposta por Dugin é simples: reconstruir um espaço eurasiático autônomo e, com base numa diplomacia “realista”, concluir parcerias estratégicas com o Japão, o Irã e a Alemanha. É isto que faz Dugin dizer que “a Rússia não deve criar um império russo, mas um império eurasiático”.

Fundamentos da Geopolítica é um manual prático de política externa, juntamente com um ensaio teórico, que pode ser lido como uma oferta de serviço ao Kremlin. A oferta foi desatendida na Rússia do final dos anos 90, dominada por Ieltsin e pela intelligentsia liberal, quando o FMI ditava o conteúdo do orçamento russo. Falar do poder russo, numa época em que o PIB russo era menor que o da Holanda, poderia parecer rebuscado. Na época, Dugin frequentava os círculos nacionalistas que haviam se agregado após o golpe fracassado de agosto de 1991. Junto com o escritor Eduard Limonov, ele liderou o movimento nacional-bolchevique até 1998, que mais tarde descreveu como um “projeto de arte política”.

A Grande Assembleia da Terra Russa

Já em 1997, Dugin adotou um postulado que ele desenvolveria nos anos seguintes: a verdadeira política acontece por trás de um véu de intriga, segundo regras não oficiais, com elites oligárquicas pertencentes a grupos sociais e políticos altamente organizados, que mantêm laços entre si que lhes permitem controlar o poder. Até que Putin chegou ao poder, o que mudou completamente a situação. A Rússia então se recuperou geopoliticamente e se tornou economicamente autônoma.

Durante os anos 2000, Dugin colaborou com Vladislav Surkov na arquitetura do atual sistema político russo, frequentemente referido como “democracia soberana”. Este sistema pode ser resumido da seguinte forma: há eleições em intervalos regulares, mas os resultados são conhecidos antecipadamente; o judiciário funciona, mas toma decisões que favorecem as autoridades; a imprensa é formalmente plural, mas, com muito poucas exceções, depende do governo. Em paralelo, Dugin participou do lançamento de vários movimentos de rua (Nashi, Movimento Eurasianista) com o apoio do Kremlin. Em sua maioria, esses movimentos não duraram e aqueles que conseguiram foram vítimas da repressão dos movimentos nacionalistas nos anos de 2009-2010.

Por baixo desta mistura às vezes confusa de estruturas fabricadas está a questão de até que ponto a liderança russa via o nacionalismo como um projeto político sério, ou se o via como uma carta estratégica para jogar contra possíveis “revoluções coloridas”, ao mesmo tempo em que fornecia um meio de “ocupar a rua”. Nos anos 2000, Dugin não se fez esta pergunta: ele aceitou este compromisso. Hoje, ele vê isso como uma forma de imobilismo, que impede de responder à única pergunta que lhe interessa: que futuro para a Rússia?

Esta é a questão central: como reapropriar-se da Rússia? É por isso que ele desenvolveu suas próprias ferramentas, suas próprias redes e seus próprios modos de intervenção: em particular websites (geopolitica.ru, paideuma.tv, katehon), hospedando vídeos curtos sobre assuntos atuais (“Direktiva Dugina”) e outros mais longos sobre temas filosóficos e literários (“Ekspertiza Dugina”). Nestes vídeos, o cenário é profissional; a aparência, formal; o discurso, estruturado; e a audição ou visualização, o mais agradável.

Atenção às Fabricações Imperiais

Foi em um desses vídeos que Dugin propôs organizar todo o povo em uma Assembleia da Terra Russa (Zemski Sobor) para dar origem a um autêntico modelo russo, que faria uma ruptura completa, não só com a democracia liberal, mas também com a “democracia soberana” adotada por Putin. De fato, o projeto de Dugin se depara com uma grande limitação: a quase impossibilidade para o povo russo de se reapropriar do mundo dos Romanov. Nos últimos trinta anos, a Rússia tem gerado uma cultura de massa que parodia o estilo imperial do passado. Um dos escritores mais prolíficos da Rússia, Boris Akunin, escreve romances policiais ambientados no período de Alexandre III e Nicolau II, com Erastus Fandorin como seu herói, que tem os traços cumulativos de Chatsky, o escriturário ocidentalizado na peça de Alexander Griboedov (um dos monumentos do repertório russo, O Azar de ser Esperto Demais, escrito no início dos anos 1820) e do Príncipe Bolkonsky, o grande senhor de Guerra e Paz (1865-1869), com um toque de James Bond. Além disso, a literatura russa tem frequentemente tendido para o fantástico, o grotesco e o utópico, o que inclui não apenas Gogol e Bulgakov, mas também Zamiatin, Leskov e os irmãos Strugatsky. O que é novo é este coquetel de realidades alternativas, onde os mundos imperial, comunista e pós-soviético se fundem em uma única continuidade. Em A Metralhadora de Argila (1996), de Viktor Pelevin, a Cheka, o atentado à Casa Branca de 1993 e a máfia russa se fundem em uma única fantasmagoria.

Dugin considera que a paródia pós-moderna impede a tradução de princípios metafísicos em uma nova realidade política. Não sem razão ele aponta que a ausência de uma escolha explícita por um modelo autenticamente russo de sociedade equivalerá, a longo prazo, ao desaparecimento da Rússia como entidade autônoma e ao fim do povo russo como um ethnos distinto, pois embora exista, em teoria, uma alternativa ocidental à “democracia soberana” de Putin (a democracia liberal), ainda não existe uma alternativa especificamente russa.

O caminho da mão esquerda

A natureza às vezes hermética do filósofo às vezes deixa uma dúvida na mente de seus interlocutores: ele acredita no que ele diz? Charles Clover, jornalista do Financial Times que encontrou Dugin para seu livro Vento Negro, Neve Branca: A Ascensão do Novo Nacionalismo da Rússia, um olhar parcial mas honesto sobre o nacionalismo russo, faz a pergunta, antes de responder que isso é basicamente irrelevante.

Para entender o raciocínio de Dugin, é necessário se familiarizar com suas ferramentas teóricas. Por exemplo, ele disse uma vez que “o comunismo é uma via da mão esquerda”. A expressão, retirada de Evola, significa que uma força aparentemente antitradicional pode agir na direção da Tradição. Isso não deve ser entendido como uma validação ou condenação do comunismo pelo filósofo. Só está claro para ele que a Rússia não pode sobreviver baseando sua memória coletiva em uma culpa que se repete infinitamente. Consequentemente, a história da URSS só pode ser parte da continuidade da narrativa nacional russa. Um povo assim unido em torno de uma memória comum é, por natureza, menos sensível às divisões internas causadas por possíveis inimigos externos.

Outro exemplo é a recente aproximação entre a Rússia e a Turquia, que pode parecer incoerente à luz de sua rivalidade milenar. No mundo de hoje, que tende para o “Império e os Cinco Reis”, do qual Dugin afirma ser um proponente, esta aliança russo-turca traz uma mensagem dupla: não deve haver hesitação em usar a força onde ela é necessária (ver o acordo “antiquado” da guerra de Nagorno-Karabakh no final de 2020), nem qualquer medo de assumir a crescente realidade de um mundo multipolar – ambos os quais Dugin defende em sua abordagem “realista” das relações internacionais. Segundo a The Economist, os círculos internos do Erdoğan incluem um grupo de “eurasianistas” abertos à cooperação com a Rússia e a China e hostis à Europa e à OTAN. Dugin tem desempenhado um papel na construção desta aliança e tem visitado a Turquia frequentemente desde 2010 como representante especial da Rússia. Seu principal objetivo é acelerar a emergência de um mundo multipolar, de modo a neutralizar o liberalismo cuja força reside em sua relação simbiótica com o poder americano.

Noomaquia, a “Guerra das Mentes”

Como Dugin se define acima de tudo como um filósofo, a política se situa abaixo da cultura, e a cultura abaixo da filosofia. Consequentemente, a multipolaridade não é apenas um conceito geopolítico, mas um conceito civilizacional e filosófico. Quando era chefe do departamento de sociologia da Universidade de Moscou, Dugin defendeu a ideia de que as políticas tradicionalistas não poderiam ser aplicadas no âmbito de um projeto político eurasiático sem antes desenvolver o que ele chamou de “sistema preliminar de coordenadas”, um sistema que permitiria a revisão das concepções científicas e sociológicas da epistemologia liberal e marxista. Este sistema preliminar de coordenadas, elaborado na Universidade de Moscou, agora se manifesta no projeto “Noomaquia”. Noomaquia, do grego “guerra das mentes”, é um projeto de entendimento e reapropriação dos diferentes Logoi civilizacionais através de uma proposta para uma interpretação comum. A este respeito, tudo é dito em seu livreto Evola e Rússia (Ars Magna, 2006): “Não acredito que as coisas físicas e materiais que sempre foram importantes sejam mais importantes hoje do que antes. Acredito que isto seja uma ilusão. Na realidade, por trás de toda luta social está a ideologia representada pelo sistema de imagens ou realidades psíquicas. Portanto, acredito que o materialismo não existe e que ele é apenas a forma de uma ideologia espiritual particular. É por isso que, alquimicamente, sempre se pode expressar a mais sublime ideia metafísica em uma linguagem social concreta e vice-versa, que se pode trazer todos os fenômenos da vida cotidiana e mesmo do mundo moderno de volta aos arquétipos metafísicos”.

Para um tradicionalista como Dugin, que rejeita resolutamente a política anglo-americana, o tempo é uma queda – ou, mais precisamente, uma degradação na qual as sociedades ocidentais estão presas. Assim, o ponto de vista contemporâneo é apenas o momento da ilusão por excelência. Aqui, o tradicionalismo não deve ser entendido como mais uma denúncia, embora robusta, da sociedade de consumo e do reino da quantidade; é também um poderoso método de descentralização do olhar. A partir de então, o que se chama modernidade não é mais um período de uma história linear que é precedida pela pré-modernidade e seguida pela pós-modernidade, mas uma visão de tempo que coexiste com outras visões.

Uma vez estabelecido isto, a Noomaquia torna-se o meio para compreender esta multipolaridade civilizacional. A chave para este entendimento está nos três Logoi identificados por Dugin. Eles podem ser descritos como eixos entre o “aqui” e o “ali”, céu e terra, causa e efeito, o dado e sua arqueologia. Cada Logos constrói seu próprio mundo. Os três Logoi são os de Apolo, Dioniso e Cibele, ou colocados de forma diferente: o diurno, o crepúsculo e o noturno.

O diurno corresponde a Apolo. Neste Logos prevalecem a divisão, a distinção, a clara delimitação de fronteiras, a contemplação, a hierarquia vertical, as leis lógicas rigorosas, a indivisibilidade do sujeito. O sujeito apolíneo se opõe ao tempo e à morte. O apolíneo é solar e masculino (o que não significa necessariamente homem), bem como heroico.

O noturno refere-se a Cibele. Para fazer isso, ele interpreta o mundo como matéria. É um mundo de compromisso, conformismo, desejo de paz, feminino nisso, baseado na crença de que o bem vem de si mesmo.

O crepúsculo está associado a Dioniso. Ele se caracteriza pelo ritmo e pelo movimento. Seu símbolo é o andrógino, o casal de amantes, o círculo, a dança, a repetição e o ciclo.

Assim declinados, estes Logoi são como estações filosóficas. A estação apolínea é vertical e sem história. Aqui reina a eternidade, assim como a arquitetura heroica da vida e da consciência. A estação dionisíaca é marcada por um equilíbrio entre eternidade e tempo, pontuada por uma sucessão de celebrações e mistérios, seguindo um dualismo de alegria e luto. A estação de Cibele é maciça e monótona: é um momento de paz e tédio, de longo desdobramento do tempo.

Quem é o mestre do tabuleiro de xadrez?

Com base nessa concepção, Dugin escreveu uma série de 24 livros nos quais analisa os Logoi dos principais povos e áreas civilizacionais como uma combinação-oposição desses três Logoi em diferentes graus. Os Logoi Civilizacionais não atravessam fronteiras nacionais passadas ou presentes, eles se manifestam como fractais. Tomemos, por exemplo, o Logos católico da Ordem Teutônica, por um lado, e o Logos dos príncipes russos na época da conquista mongol e da Horda Dourada, por outro: bem, ambos são apolíneos. Isto não os impediu de se chocar, geopoliticamente falando. As nuances não estão apenas entre os três Logoi identificados por Dugin, mas dentro deles.

Qual é o objetivo de um projeto desse tipo? Dugin vê a Tradição como uma forma de hermetismo que confere um significado superior aos fatos históricos, culturais e geográficos. A Noomaquia começa restaurando a multipolaridade dos modos de pensar. A partir desta multipolaridade civilizacional, segue-se a multipolaridade geopolítica. Esta é a carta que a Rússia deve jogar se quiser sobreviver à fase de transição pela qual estamos passando. A chave para analisar os três Logoi permite a compreensão mútua e o diálogo, e até mesmo alianças. Isto pode ser visto na relação atual com a Turquia ou na recente aproximação com a China (que Dugin outrora desaprovou). Neste esquema, a Europa tem um lugar cada vez menos importante, o torpor no qual os povos europeus vivem não sendo estranho a este apagamento.

O itinerário intelectual de Dugin é muito estimulante. Suas ideias passaram das margens para uma semirrealidade política. É sua radicalidade que faz de Dugin um filósofo que conta. Tudo nele aspira a sair do interlúdio atual e a conseguir uma restauração. Para ele, as grandes mudanças são mais eficazes do que o gradualismo. Ele não diz isso explicitamente quando pergunta: “Por que precisamos de eleições?” Esta não é uma questão retórica. Para restaurar, você tem que romper completamente. Dugin venceu? Não completamente. A restauração na Rússia não aconteceu, mas é mais provável na Rússia de 2021 do que na Rússia de 1997. As peças do tabuleiro de xadrez se moveram de tal maneira que é mais fácil para um Dugin ganhar o jogo.

Fonte: Revue Éléments

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Charles Castet

Escritor e jornalista francês.

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