O logos chinês e o “tempo constante”

A camarada Catarina Leiroz reflete sobre o logos chinês e como ele é imprescindível para uma leitura dos últimos acontecimentos e do imperturbável temperamento político chinês diante da inquietação ansiogênica do observador ocidental.

Muitas vezes, na investigação dos logoi, as aparências enganam. 

Um bom exemplo disso é o Logos chinês, já estabelecido por Alexandr Dugin.

Os chineses são extremamente disciplinados e hierárquicos. Terra de vários impérios verticais etc.

Claramente, Logos de Apolo. Sim? 

Mas o Logos que predomina não está necessariamente no comportamento social de um povo, pelo menos não no todo. Ele se manifesta no Nous. É o discurso a nível noético — o que dita toda a percepção do olho espiritual de um povo.

Para quem já conhece o esquema da Noomaquia, é relativamente fácil conjecturar sobre o porquê de Dugin ter afirmado que o Logos Chinês é dionisíaco: basta comparar a mentalidade chinesa com a indo-europeia e cristã.

Segundo Marcel Granet, não há, na filosofia chinesa, um conceito claro e homogêneo de tempo. Na verdade, o tempo quase nunca foi ou precisou ser colocado em questão, como nas sociedades indo-europeias.

Obviamente, os chineses usam o calendário e o relógio, mas, não é bem essa a questão, apesar de pesquisadores concordarem que isso não altera a percepção diferente de tempo dos chineses.

Por exemplo, na gramática chinesa, não há tempo verbal como há em todas as línguas de matriz europeia – isso já nos distancia, e muito, da percepção de tempo dos chineses. 

E, por sua vez, não há a palavra Ser, o que é reflexo de toda a tradição filosófica/espiritual chinesa, a qual jamais versou sobre o Ser ou sobre a essência dos entes – algo impensável para a filosofia ocidental.

Em vez de tempos verbais, na gramática, usa-se alguns marcadores temporais, para que a pessoa consiga saber se uma situação diz respeito ao que já ocorreu, ao que está ocorrendo ou ao que ainda ocorrerá. De todo modo, não há a ideia de oposição temporal e, no “falar”, nada disso é buscado como uma grande necessidade.

Outro fato interessante da espiritualidade e da filosofia chinesas predominantes – refletidas em todo o modo de pensar, agir, falar e escrever chineses – é, simplesmente, o desconhecimento de oposição entre tempo e eternidade (ou o “fora do tempo”). 

Esse “desconhecimento” se deve ao fato de que o chinês, de maneira generalizada, não concebe o mundo como criação – pelo menos não no sentido em que conhecemos -, mas como “processo auto-regulado”, um “mecanismo” de compensação entre duas forças opostas e complementares (yin, feminino; e yang, masculino) – o que lhe permite um não-cessar “infinito” no reino da humanidade, pois há “sempre” essa “auto-regulação” das duas forças citadas.

Não há, portanto, o “começo” do tempo, o que faz com que não haja, consequentemente, o fim. Tampouco há a eternidade. Eles não estão na eternidade, mas em um “processo” constante no tempo. 

“Não separando o temporal do atemporal, a China não concebeu o eterno mas o constante” (Maria Trigoso).

E esse estado só pode ser constante por conta do equilíbrio entre o feminino e o masculino, os quais sempre se auto-regulam. 

Quando surge sinal de desequilíbrio, tanto para um aumento exagerado do patriarcado quanto do matriarcado, as forças yin e yang tentam se harmonizar imediatamente, compensando o lado prejudicado. 

E isso é refletido nas ações dos próprios chineses. Não foi à toa que Xi Jinping decretou aulas de masculinidade nas escolas chinesas bem como implementou outras medidas patriarcais. 

Nesse sentido, portanto, o Logos chinês é Dionísio puro, sem voltar o seu olhar para cima ou para baixo. É o que está no meio. Exatamente no meio.

A falta de escatologia, impensável para a mentalidade indo-europeia e cristã (mesmo os tempos altamente cíclicos têm escatologia), explica, também, a falta de pressa do chinês para concluir um plano (o tempo de um planejamento estatal, por ex., é sempre pra mais de meio século); a paciência e pacificidade do povo chinês mesmo em meio a ameaças externas ou a disputas graves de poder ou território; a capacidade de incorporar elementos em sua cultura sem desgastá-la (como a tecnologia); e também a completa falta de medo ou curiosidade sobre o amanhã.

Ora, se é inconcebível a um chinês a ideia de um “fim do mundo”, é inconcebível o paradigma do “ser ou não ser” – isto é, “faça alguma coisa agora ou desapareça amanhã”, ou ainda, a máxima de São Serafim de Platina sobre a busca pela salvação: “É mais tarde do que você pensa”.

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Catarina Leiroz

Cristã Ortodoxa, graduanda em Pedagogia e vice-diretora da NR-RJ.

Artigos: 577

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