A Brasilidade e o macro-nacionalismo

O que define a brasilidade histórica não pode ser uma compreensão homogeneizante e moderna do que é “Brasil”, mas um resgate de um espírito dialógico que produz unidade na sua pluralidade étnico-cultural. O nacionalismo não pode — e frequentemente é — se render aos princípios da modernidade.

Um dos grandes méritos e funções do Brasil, símbolo de sua essência imperial, é ser o guardião das identidades das etnias e comunidades que habitam nosso território, seja dos grupos pré-colombianos, das etnias regionais e autóctones e das comunidades migrantes assimiladas.

Nisso, ainda que o Brasil seja igual às outras politeias imperiais, podemos considerá-lo uma versão mais digna e elevada, precisamente por um grau maior de universalidade, na medida em que o Brasil foi capaz de reunir, assimilar e preservar todas as raças, etnias e comunidades do planeta, sem perder ou prejudicar sua Brasilidade.

Essa é uma característica fundamental do Brasil e que está, inclusive, na contramão do conceito moderno de Estado-nação. Ademais, considerando que um dos objetivos centrais do globalismo é a homogeneização e nivelação de todas as identidades étnicas do planeta, essa é uma das características que contrapõe essencialmente o Brasil ao globalismo. Em adendo, esse objetivo do globalismo explica a razão pela qual Fukuyama declarou ser fundamental que os liberais virassem nacionalistas no sentido modernista: como há muito mais etnias do que países no mundo, a obra de desenraizamento das identidades empreendida pelos Estados-nações modernos, por meio da construção de identidades artificiais niveladas, é um passo fundamental no gradual caminho de construção do McMundo.

Tudo isso é importante para entendermos que a função do Estado não é só encher barriga do pobre, mas também garantir a possibilidade de desenvolvimento pessoal e comunitário das etnias nacionais, tal como entendidas e interpretadas por Darcy Ribeiro e Gilberto Freyre.

Essa percepção é indissociável da Quarta Teoria Política. Veja-se que o que legitimou o separatismo do Donbass (que, na prática, virou um irredentismo), foi o fato do Estado-nação ucraniano começar a perseguir os russos, que com toda razão queriam falar e ler em russo, seguir a religiosidade russa, etc., dentro da Ucrânia. A lógica nacionalista moderna na Ucrânia é clara e óbvia: na perspectiva burguesa e iluminista do Estado-nação, toda comunidade étnica que reivindica uma identidade própria é uma ameaça automática e essa ameaça deve ser combatida seja pela guerra cultural ou pela guerra física: ou os grupos étnicos abandonam a cultura de seus antepassados ou devem ser varridos do espaço nacional.

Uma compreensão de todos esses elementos é fundamental em uma era em que se tenta fomentar, artificialmente, narrativas de guerra racial, já que a tentação de negar a diversidade brasileira (em prol de uma Brasilidade monolítica e sem matizes) é forte.

Mas aqui devemos recordar que a “estratégia de tesouras” do globalismo não opera apenas agindo por esquerda/direita, mas também tanto na crítica cosmopolita ao nacionalismo como à defesa de tipos liberais e ultramodernistas de nacionalismo.

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Raphael Machado

Advogado, ativista, tradutor, membro fundador e presidente da Nova Resistência. Um dos principais divulgadores do pensamento e obra de Alexander Dugin e de temas relacionados a Quarta Teoria Política no Brasil.

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