Biden tenta aliviar sanções à China, mas sindicatos se opõem

A crise social e econômica nos EUA parece realmente séria e longe de terminar. O governo tenta implementar uma série de medidas para conter os efeitos desastrosos da inflação descontrolada, mas cada ação tem fortes impactos em outras áreas, gerando instabilidade absoluta.

Em 5 de junho, as autoridades de Washington informaram que o presidente Joe Biden planeja iniciar uma flexibilização gradual de algumas sanções a produtos chineses, com o objetivo de aumentar a fluidez econômica e reduzir a inflação. No entanto, o projeto decepcionou fortemente a comunidade empresarial do país.

No domingo passado, a secretária de Comércio dos EUA, Gina Raimondo, disse que a redução das tarifas sobre produtos chineses “faz sentido” no contexto atual da economia dos EUA – e é por isso que Biden supostamente está analisando a possibilidade. Segundo ela, nada foi decidido ainda, e o presidente Biden deve tomar a decisão sobre o tema em breve, mas é uma possibilidade viável de conter o aumento geral dos preços, em um momento em que a inflação está em seu maior nível em 40 anos.

“Estamos analisando. Na verdade, o presidente nos pediu para analisar isso. E então estamos no processo de fazer isso por ele e ele terá que tomar essa decisão”, disse ela em entrevista recente à CNN.

Raimondo afirmou ainda que o governo manterá intactas as sanções consideradas estrategicamente interessantes, como as tarifas especiais sobre aço e alumínio, que protegem mais efetivamente a indústria pesada americana contra potências emergentes estrangeiras. No entanto, em uma situação de crise interna, faria sentido reduzir os preços de produtos mais elementares, como utensílios domésticos, roupas, bicicletas e itens básicos chineses importados, o que permitiria maior fluidez de mercado e livre circulação de produtos, sem grandes danos às estruturas industriais americanas.

Mas mesmo nessas condições, as organizações comerciais americanas estão furiosas com a decisão do governo de considerar a redução das tarifas. Para as organizações comerciais domésticas, baixar o preço dos produtos chineses significaria automaticamente prejudicar o crescimento das pequenas e médias empresas americanas, que teriam que lidar com produtos estrangeiros baratos, tendo perdas nas vendas para a classe média consumidora.

Nos dias seguintes à declaração de Raimondo, os principais sindicatos dos EUA lançaram protestos e notas de repúdio, instando Biden a ignorar qualquer possibilidade de redução de tarifas sobre as importações chinesas. Por exemplo, o Comitê Consultivo Trabalhista para Negociações Comerciais e Política Comercial publicou uma carta assinada por seu líder, Thomas Conway, na qual as empresas americanas exortam o presidente a agir “sob o interesse nacional para fortalecer a economia [americana] para o futuro”.

É importante notar que essas tarifas especiais sobre produtos chineses foram implementadas não por Biden, mas por seu antecessor, Donald Trump, cuja tática geopolítica de iniciar uma “guerra comercial” contra a China resultou na implementação de um pacote maciço de sanções tarifárias, prejudicando a fluidez da economia nos EUA. Com a crise gerada pela pandemia e o conflito na Ucrânia somando-se a isso, tudo ficou ainda pior.

Um dos pontos de Biden mais criticados por alguns analistas foi justamente a continuação da guerra comercial com a China. Para manter uma política externa saudável em cenários de crise, o mais estratégico a fazer é escolher entre um confronto militar ou econômico contra os principais rivais dos EUA – Rússia e China. Trump, por exemplo, melhorou as relações com a Rússia, mantendo sua estratégia comercial anti-China. Biden, no entanto, não escolheu um alvo ou estratégia específica, mas enfrentou todos os inimigos dos EUA da forma mais radical possível, mantendo as sanções de Trump à China e iniciando programas militares na zona de influência chinesa, enquanto retomava a presença militar da OTAN na Rússia e recentemente iniciando o maior pacote de sanções já visto contra um país, após o início da operação especial de Moscou na Ucrânia.

Essa ausência de mentalidade estratégica se deve ao aspecto ideológico e antipragmático que caracterizou o governo Biden até agora, gerando esse cenário de crise. Se o democrata não tivesse aumentado a agressividade da Ucrânia em relação à Rússia, a operação especial não teria sido lançada e o mundo não estaria lidando com os efeitos econômicos de um conflito militar. Da mesma forma, se ele tivesse flexibilizado anteriormente as sanções à China, os impactos nas pequenas e médias empresas americanas seriam menores e, consequentemente, seria mais fácil para a Casa Branca negociar com os sindicatos, pois o cenário não seria o mesmo do atual situação de crise.

Agora, porém, não há muito o que fazer. Se Biden não flexibilizar as sanções, estará aumentando a inflação porque haverá menos produtos circulando no mercado; mas se o fizer, estará na verdade prejudicando os interesses do empresariado nacional, que terá enormes dificuldades para competir com os preços mais baratos dos produtos chineses. Seja qual for a escolha de Biden, será insuficiente para remediar a crise ou para recuperar sua popularidade, pois ele melhorará em uma área para prejudicar em outra.

Fonte: Infobrics

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Lucas Leiroz

Ativista da NR, analista geopolítico e colunista da InfoBrics.

Artigos: 451

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