“Make Nazism Great Again”

A escalada do neonazismo na Ucrânia e todo o apoio recebido por estes desde o Ocidente não são uma novidade. Historicamente, EUA e Inglaterra sempre foram favoráveis ao uso do poder nazista para satisfazer seus interesses, também não coincidentemente, contra a Rússia. Mas o jogo agora é outro, e as velhas táticas do império moribundo são conhecidas.

Por Pepe Escobar, em 24 de março.

Todos os olhos estão sobre Mariupol. Desde a noite de quarta, mais de 70% das áreas residenciais estavam sob o controle das forças russas e de Donetsk, enquanto fuzileiros russos, o 107º batalhão de Donetsk e os Spetsnaz chechenos, liderados pelo carismático Adam Delimkhanov, entravam no quartel-general do batalhão Azov.

O batalhão recebeu um ultimato: rendição até a meia-noite — ou, sem prisioneiros na estrada para o inferno.

Isso implica numa mudança radical do jogo no campo de batalha ucraniano: Mariupol está diante da desnazificação — como o contingente Azov há muito entrincheirado na cidade e usando civis como escudos humanos foram sua força de combate mais dura.

Enquanto isso, ecos do Império da Mentira quase entregaram o jogo. Não há nenhuma intenção em Washington de facilitar um plano de paz na Ucrânia — e isso explica as constantes táticas de atraso do comediante Zelensky. O alvo supremo é uma mudança de regime em Moscou e para isso está autorizada uma Totalen Krieg contra a Rússia e tudo o que é russo. A Ucrânia é um mero peão — ou pior, bucha de canhão.

Isso também quer dizer que as 14.000 mortes em Donbass ao longo dos últimos oito anos devem ser atribuídas aos excepcionalistas. Quanto aos neonazistas ucranianos de todas as faixas, eles são tão dispensáveis como os “rebeldes moderados” na Síria, sejam eles da Al-Qaeda ou Daesh. Aqueles eventualmente sobreviverem podem sempre se juntar ao Neo-Nazi Ltda., o vulgar remix da Jihad Ltda. dos anos 80 no Afeganistão. Eles serão devidamente “kalibrados”.

Uma rápida recapitulação neonazista

A essa altura, apenas os mentalmente esfarelados do OTANistão — e são hordas — não sabem do Maidan de 2014. Ainda sim, poucos sabem que foi o então Ministro do Interior Ucraniano, Arsen Avakov, antigo governador de Kharkov, que deu luz verde para 12.000 paramilitares se materializarem do Sect 82, hooligans do Dynamo de Kiev. Assim nascia o Batalhão Azov, em maio de 2014, liderados por Andriy Biletsky, conhecido como o Führer Branco, e antigo líder da gangue neonazista, Patriotas da Ucrânia.

Junto com o agente “deixado” pela OTAN, Dmitro Yarosh, Biletsky fundou o Pravy Sektor, financiado pelo padrinho da máfia ucraniana e judeu bilionário, Ihor Kolooysky (que mais tarde financiaria a meta-conversão de Zelensky, de um comediante medíocre para presidente medíocre).

Os Pravy Sektor acabavam por ser raivosamente anti-UE — avisem Ursula von der Lugen — e politicamente obcecados por conectar a Europa Central e os Bálcãs num novo e vulgar Intermário. O Pravy Sektor e outras gangues nazistas foram diligentemente treinados por instrutores da OTAN.

Biletsky e Yarosh são, é claro, discípulo do notório colaborador nazista da 2GM, Stepan Bandera, para quem ucranianos puros eram proto-germânicos ou escandinavos, já que eslavos são untermenschen.

Azov acabou absorvendo quase todos os grupos neonazistas na Ucrânia e foram destacados para lutar em Donbass — com seus acólitos ganhando mais que um soldado regular. Biletsky e outro líder neonazista, Oleh Petrenko, foram eleitos para a Rada. O Führer Branco ficou na sua, Petrenko decidiu apoiar Poroshenko. Logo, o batalhão Azov foi incorporado à Guarda Nacional Ucraniana como Regimento Azov.

Eles iniciaram uma viagem de recrutamento de mercenários estrangeiros — com pessoas vindas da Europa Ocidental, Escandinávia e até mesmo da América do Sul.

Isso havia sido estritamente proibido pelos Acordos de Minsk garantidos pela França e Alemanha (agora defuntos de facto). Azov estabeleceu campos de treinamento para adolescentes e logo atingiu 10.000 membros. Erik “Blackwater” Prince, em 2020, chegou a um acordo com os militares ucranianos para que seu renomado grupo, Academi, supervisionasse o regimento.

Não foi ninguém mais nem menos que o sinistro distribuidor de biscoitos Maidan, Vicky “F***-se a UE” Nuland que sugeriu a Zelensky — ambos judeus ucranianos, por sinal — o apontamento do nazista Yarosh como conselheiro para o Comandante das Forças Armadas Ucranianas, o Gen. Valerii Zaluzhnyi. O alvo: organizar uma blitzkrieg em Donbass e na Criméia — a mesma blitzkrieg que o Serviço de Inteligência Estrangeiro da Rússia investigou que seria lançada em 22 de fevereiro, assim provocando o início da Operação Z.

Tudo que foi dito, uma rápida recapitulação, mostra que na Ucrânia não há qualquer diferença entre os brancos neonazistas e marrons da Al-Qaeda/ISIS/Daesh, os neonazistas são tão cristãos quanto jihadistas salafistas são muçulmanos.

Quando Putin denunciou o “bando de neonazistas” no poder da Ucrânia, o comediante respondeu que era impossível, porque ele era judeu. Idiotice. Zelensky e seu patrão Kolomoysky, para todos os fins, são sio-nazistas.

Mesmo quando os ramos do governo dos Estados Unidos admitiram os neonazistas entrincheirados nas estruturas de Kiev, a máquina excepcionalista fez desaparecer os bombardeios diários sobre o Donbass durante OITO anos. Estes milhares de vítimas civis nunca existiram.

A grande mídia norte-americana até mesmo se aventurou a fazer uma reportagem sobre os neonazistas Azov e Aidar. Mas então uma narrativa neo-orwelliana foi colocada em prática: não há nazistas na Ucrânia. A CIA começou até a apagar registros sobre o treinamento de membros da Aidar. Recentemente, uma porcaria de rede de notícias promoveu devidamente um vídeo de um comandante Azov treinado e armado pela OTAN — completo com iconografia nazista.

Por que a “desnazificação” faz sentido

A ideologia do Banderistão retoma um período em que essa parte da Ucrânia era, de fato, controlada pelo império austro-húngaro, o russo e a Polônia. Estepan Bandera nasceu na Austro-Hungria de 1909, perto de Ivano-Frankovsk, o então autônomo reino da Galícia.

A primeira grande guerra desmembrou os impérios europeus em pequenas entidades não raramente inviáveis. No oeste ucraniano — uma intersecção imperial — isso inevitavelmente causou a proliferação de ideologias extremamente intolerantes.

Ideólogos do Banderistão lucraram com a chegada nazista em 1941 e tentaram declarar independência territorial. Mas Berlim não só bloqueou isso, como também os enviou para campos de concentração. Em 1944 os nazistas mudaram de tática: eles liberaram os Banderanistas e manipularam sua russofobia, criando uma força de desestabilização na Ucrânia soviética.

Então, o Nazismo não se equivale aos fanáticos do Banderistão: São, de fato, ideologias conflitantes. O que aconteceu desde o Maidan é uma intensificação da russofobia por parte da CIA, instrumentalizando qualquer grupo marginal que possa. Então a Ucrânia não é um caso de simples “nacionalismo branco” — para ser gentil — mas de um nacionalismo ucraniano russofóbico, que por motivos práticos manifestos, utiliza saudações e símbolos nazistas.

Então, quando Putin e as lideranças russas se referem ao nazismo ucraniano, isso pode não ser conceitualmente 100% correto, mas é algo que ressoa entre os russos.

Os russos visceralmente rejeitam o nazismo — considerando que virtualmente todo russo teve ao menos um membro morto durante a Grande Guerra Patriótica. Da perspectiva de uma psicologia dos tempos de guerra, falar em “Ucro-nazismo” fazz todo o sentido, ou, indo direto ao ponto, uma campanha de “desnazificação”.

Os anglos amam os nazistas

O governo ianque torcer abertamente pelos neonazistas na Ucrânia não chega a ser novidade, considerando como apoiaram Hitler junto da Inglaterra em 1933, pela balança dos poderes.

Em 1933, Roosevelt emprestou um bilhão de dólares dourados para Hitler enquanto a Inglaterra emprestou dois. Multipliquemos isso por 200 para fazer uma equivalência atual. Os anglos queriam construir uma Alemanha como baluarte contra a Rússia. Em 1941, Roosevelt escreveu para Hitler que se ele invadisse a Rússia, os EUA se alinhariam com a Alemanha, e disse para Stalin que se a URSS invadisse a Alemanha, se alinhariam com a Alemanha. Nada é mais Mackinderiano que isso.

Os britânicos tinham ficado muito preocupados com a ascensão do poder russo sob o domínio de Stálin, enquanto observavam que a Alemanha estava de joelhos com 50% de desemprego em 1933, se contarmos os alemães itinerantes não registados.

Até mesmo Lloyd George tinha dúvidas sobre o Tratado de Versalhes, enfraquecendo insuportavelmente a Alemanha após sua rendição na Primeira Guerra Mundial. O objetivo da Primeira Guerra Mundial, na visão de mundo do Lloyd George, era destruir simultaneamente a Rússia e a Alemanha. A Alemanha estava ameaçando a Inglaterra com o Kaiser construindo uma frota para tomar conta dos oceanos, enquanto o Czar estava mais perto da Índia do que era confortável. Por um tempo a Britânia venceu — e continuou a governar as ondas.

Fortalecer a Alemanha para lutar com a Rússia se tornou uma prioridade — completa com a reescrita da história. A união de alemães austríacos e sudetas com a Alemanha, por exemplo, foi aprovada pelos britânicos.

Então veio o problema polonês. Quando a Alemanha invadiu a Polônia, França e Inglaterra ficaram na beira do campo. Isso colocava a Alemanha na fronteira com a Rússia, e eles dividiriam a Polônia. Isso é exatamente o que eles queriam. Inglaterra e França prometeram à Polônia que invadiriam a Alemanha do oeste enquanto eles se defendiam no leste.

No fim, os poloneses foram traídos. Churchill elogiou a invasão russa. Hitler foi aconselhado pelo MI6 que a Inglaterra e França não invadiriam a Polônia — já que o plano era uma guerra entre Alemanha e Rússia. Hitler era financeiramente apoiado desde os anos 20 pelo MI6 por suas palavras favoráveis à Inglaterra no Mein Kampf. De fato, o MI6 encorajou a invasão à Polônia.

Voltando para 2022, e lá vamos nós de novo — uma farça, anglos “encorajando” a Alemanha sob o fraco Scholz a se reforçar militarmente com 100 bilhões de euros (que os alemães não têm) e criando em tese uma força européia renovada para mais tarde entrar em guerra contra a Rússia.

Então entra a histeria russofóbica na mídia anglo sobre uma aliança estratégica russo-chinesa. O medo mortal dos anglos é uma união sinistra entre Mackinder/Mahan/Spykman/Kissinger/Brzezinski: Rússia e China como colegas competidores tomam conta da Eurásia — Nova Rota da Seda encontra Grande Eurásia — e dominam o planeta, com os EUA relegados ao inconsequente status de ilha, tanto quanto a antiga “Rule Britannia”.

Inglaterra, França e EUA depois, preveniram isso quando os alemães tentaram, controlando a Eurásia de ambos os lados com Japão, do canal inglês até o Pacífico. Agora, o jogo é bem diferente.

Portanto, a Ucrânia, com suas patéticas gangues neonazistas, é apenas um peão — dispensável — no desespero de parar algo que está além do anátema, da perspectiva de Washington: uma Nova Rota da Seda totalmente pacífica entre Alemanha, Rússia e China.

A russofobia, impressa maciçamente no DNA do Ocidente, nunca desapareceu realmente. Cultivada pelos britânicos desde Catarina, a Grande — e depois com O Grande Jogo. Pelos franceses desde Napoleão. Pelos alemães, porque o Exército Vermelho libertou Berlim. Pelos ianques porque Stalin forçou a eles o mapeamento da Europa — e depois durante toda a Guerra Fria.

Estamos apenas nos estágios iniciais do impulso final do império moribundo para tentar deter o fluxo da História. Eles estão sendo enganados, já estão sendo superados pelo poderio militar mais alto do mundo, e serão controlados. Existencialmente, eles não estão equipados para matar o Urso – e isso dói. Cosmicamente.

Fonte: Strategic Culture
Tradução: Augusto Fleck

Pepe Escobar

Analista geopolítico independente, colunista para o The Cradle e editor do Asia Times.

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