Nada será como antes… 50 anos do Clube da Esquina

Muitos discos representam nossa plural cultura de maneira magistral, mas poucos o fazem tão bem quanto Clube da Esquina, uma das muitas obras primas produzidas e encabeçadas por Milton Nascimento. 50 anos depois de sua chegada, ele continua a deslumbrar pelo talento empreendido na sua execução, pela genialidade harmônica da sua “miscelânea” e a profunda brasilidade que contém e expande.

Meia década atrás, os meninos Cacau e Tonho, de Nova Friburgo, não sabiam, mas a foto para a qual “posavam” inadvertidamente seria estampada na capa de um álbum que modificaria toda a música brasileira, além de permanecer décadas depois como uma das mais impressionantes e relevantes produções musicais de nosso país.

Encabeçado pelos gênios de Milton Nascimento e Lô Borges, o “Clube da Esquina”, nome dado aos jovens e muitas vezes visionários músicos que se reuniam no bairro Santa Tereza, em Belo Horizonte, emerge como um dos pontos de inflexão da brasilidade musical, não só por explorar os múltiplos ritmos que formam a matriz estilística de um Brasil miscigenado, mas por conseguir reunir com perfeição elementos que variavam desde música erudita ao jazz, do rock ao folclórico. Poucas vezes na história uma “miscelânea” de sons alcançou tanto sentido e harmonia.

Surgido, segundo Milton, depois de um bar e uma batida de limão, o álbum conta com a pesadíssima participação de grandes nomes como Beto Guedes, Márcio Borges, Tavito, Toninho Horta, Wagner Tiso, Robertinho Silva e até uma participação especial do imortal Gonzaguinha, na faixa “Estrelas”.

Um álbum pouco compreendido na sua época por suas pesadas metáforas, advindas de uma poética profundamente enraizada, além de ser alvo de uma pesada censura contextual, Clube da Esquina é um marco não só pela qualidade, mas pelo diálogo que propõe. Seu ritmo e sua magia interpelam não somente os Brasis, mas toda a América Latina que é tocada por sua espontaneidade e carisma.

De forma até profética, mesmo que não consciente, a própria composição “Nada será como antes”, posteriormente imortalizada na MPB pela voz de Elis Regina, já avisava, já mentalizava para os compositores e para Brasil que depois deste álbum, nada permaneceria do mesmo modo. Mergulhar no Clube da Esquina é mergulhar com alegria e devoção na alma que nos faz todos, de algum modo, brasileiros.

Eu já estou com o pé nessa estrada
Qualquer dia a gente se vê
Sei que nada será como antes amanhã

Que notícias me dão dos amigos?
Que notícias me dão de você?
Alvoroço em meu coração
Amanhã ou depois de amanhã
Resistindo na boca da noite um gosto de sol

Num domingo qualquer, qualquer hora
Ventania em qualquer direção
Sei que nada será como antes, amanhã

Que notícias me dão dos amigos?
Que notícias me dão de você?
Sei que nada será como está, amanhã ou depois de amanhã
Resistindo na boca da noite um gosto de sol

Num domingo qualquer, qualquer hora
Ventania em qualquer direção
Sei que nada será como antes, amanhã

Que notícias me dão dos amigos?
Que notícias me dão de você?
Sei que nada será como está, amanhã ou depois de amanhã
Resistindo na boca da noite um gosto de sol

“Nada será como antes”, por Milton Nascimento e Ronaldo Bastos

Augusto Fleck

Gaúcho, catecúmeno ortodoxo e bacharelando em Ciências Sociais.

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