Visão, identidade e cultura popular

Existe um longo debate dentro das esferas dissidentes e conservadoras sobre a posição da cultura popular, desde as estruturas mais características do povo até as festas e a arte produzida longe dos círculos elitistas e burgueses. Com o auxílio da filosofia do também poeta romeno Lucian Blaga, podemos pensar como essa cultura é propriamente fruto de nossa “visão”.

Lucian Blaga é um filósofo pouco conhecido fora da esfera acadêmica romena. Sua poesia, por outro lado, é mais divulgada e possui até traduções para o português, embora também tenha limitada impressão e leitura. Um filósofo entre dois mundos, sob a influência do idealismo e poesia alemãs assim como da própria cultura romena que o circundava, Blaga também dialogava intensamente tanto com a metafísica quanto com a fenomenologia.

No âmbito da epistemologia, foi audacioso em perceber que as categorias kantianas que sustentavam a física moderna eram insuficientes para adequadamente ler a nova física e a consciência do conhecimento como um todo, propondo que no horizonte dos mistérios, não apenas a luz que atenua o mistério produz conhecimento, mas que existe um outro tipo de cognoscência que intensifica e radicaliza o mistério ao seu limite.

Produto de suas reflexões, surge uma teoria inteiramente nova sobre os processos de formação cultural, já que o mesmo compreendia o próprio homem como uma espécie de mutação ontologicamente cultural, sendo a cultura uma resposta imagética ou metafórica do homem para compreender o mistério que está para além do horizonte. O horizonte, para Blaga, é uma espécie de atmosfera axiológica, orientação ou forma, capaz de dar sentido para a criação cultural. A cultura é, assim, uma manifestação ou cristalização antropológica e geosófica dos horizontes espaciais subconscientes.

Por ordem, esse horizonte espacial subconsciente produz no homem uma “visão”, uma capacidade que o torna de fato, Homem. É quando ele contempla o horizonte e pondera sobre sua finitude, que reflete a própria finitude do ser, que a natureza “rompe” com seu imperturbável sono consciente e passa a existir para o mistério e tentá-lo.

Esta visão, claro, é a musa mais fundamental do processo criativo e cultural. A cultura não é, como a modernidade supunha em muitos aspectos, um conjunto de estruturas funcionais produzidas pelo homem para a manutenção de seu bem-estar físico e a garantia da sua propriedade, mas uma condição estilística e linguística que confere sentido ao sujeito, ferramentas para lidar com o mistério.

Na esteira desse processo, cada identidade que se forma é uma matriz estilística e estrutural correspondente a relação entre horizonte espacial (subconsciente), visão e horizonte fenomênico de cada povo, um ser-com histórico. Por isso que ao contrário dos animais a cultura humana possuiria, para Blaga, tantas diferenças organizacionais e dinâmicas. Desse modo, existir só pode realmente possuir um sentido a partir de uma visão específica sob a qual modulamos nossa interação com o mundo. Neste sentido, Blaga dialoga tanto com os estilos civilizacionais de Spengler, o ser de Heidegger e com a cosmologia civilizatória de Dugin. Quase uma amálgama peculiarmente romena de suas filosofias, para ser preciso. Não obstante a romenidade intrínseca às imagens propostas por Blaga, suas categorias propõe uma universalização metafísica, epistemológica e antropológica que pode ser adequada dentro de um outro sistema de linguagem, como o nosso.

Portanto, a cultura popular como criação identitária a partir da visão é um elemento irremediavelmente concreto da relação existencial e cotidiana do homem com aquilo que o torna homem.

Isso nos remete, de algum modo, ao problema da cultura popular x cultura de massa, tanto no que compete à produção artística quanto ao status de nossas festas populares, duramente criticadas por serem bárbaras, imundas, etc.

A crítica à cultura popular é um tema recorrente dos meios conservadores como um sintoma da decadência. De fato, não parecerá estranho a qualquer tradicionalista perceber que conforme uma civilização vai esgotando a vera essência de seu espírito e o anoitecer se aproxima – ou melhor, conforme sua visão fica turva e o horizonte não é mais contemplativo do que uma escuridão metafísica – a própria arte produzida será, de algum modo, afetada.

O problema dessa interpretação e do comportamento subsequente de fetichização do exótico e culturalmente exógeno é um mau entendimento da própria civilização da qual se faz parte. É preciso reconhecer que, no limite de nossa existência, nenhum tipo de criação cultural dialoga com o mistério e com o aspecto revelatório da existência tão bem quanto o nosso próprio. Dugin enfatiza esse aspecto quando aplica ao cosmos a condição de acesso para o infinito, a unidade na multiplicidade, a total imersão no particular como condição para o eterno.

Isso não quer dizer, por exemplo, uma rejeição total ao que é externo, pois as grandes obras também tem o poder de tocar o mistério através de metáforas e expô-las de forma que a comparação seja possível. A filosofia é, também, uma arte tradutória.

Os dois elementos mais preocupantes acabam por se tornar: (1) uma completa alienação do sujeito de sua identidade cultural, ao passo que busca no passado de antigas e extintas culturas, em seu auge e apolínea memória, uma espécie de ode à beleza como forma categórica; (2) uma redução da arte popular contemporânea ao estado decadente do mundo, uma generalização perigosa e potencialmente deletéria.

Mesmo na hora mais escura da noite civilizatória, todo povo ainda possui a sua potência imanente e um movimento na direção do horizonte e da cristalização revelatória. É isso que potencializa a renovação de potência ao eterno que festas populares e a arte de nosso povo produzem, através de nossa matriz estilística, sem ter de recorrer ao gesso esfarelado e descolorido de priscas eras culturais.

Na realidade, todas essas preocupações e excessos advém da mesma ansiedade e falta de cuidado que perpassa quase todo o labor intelectual: saber separar o que é universal e que compete ao processo filosófico, antropológico e metafísico, daquilo que é particular e que reflete um horizonte específico, que não deixa, mesmo no abismo, de tocar e dialogar intimamente com o mistério que nos faz humanos.

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Augusto Fleck

Gaúcho, catecúmeno ortodoxo e bacharelando em Ciências Sociais.

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