A demagogia ambiental imperialista

Enquanto o governo americano e seus fantoches insistem na necessidade do mundo ‘dar as mãos’ e abordar a questão climática, reduzindo emissões e gastos com as indústrias, apontando dedos e fazendo alarde, Leonid Savin mostra que, de forma previsível, é o esforço imperialista anglófilo que realmente está na vanguarda quando o assunto é matar o planeta. O que será que Greta Thunberg pensa sobre isso?

Por Leonid Savin

Não é preciso ser um ambientalista profissional para enxergar como Washington e o G7 aplicam demagogia sobre proteção ambiental. Somos constantemente avisados sobre iniciativas “verdes” sob os acordes de Paris e a necessidade de reduzir emissões de dióxido de carbono. Fala-se inclusive na necessidade de introduzir cotas estatais. É lógico presumir que se os EUA se comprometeram com as restrições, o fariam na prática.

Até o Departamento de Defesa está focado nas questões ambientais. No último dia 7 de Outubro, o Pentágono lançou seu Plano de Adaptação Climática.

Em resposta ao documento, a mídia especializada americana notou que “os militares americanos precisarão entender e antecipar como o stress climático afetará a estabilidade global, em áreas do planeta onde opera e onde poderá operar no futuro. Suas ideias sobre esse desafio serão publicadas na Avaliação de Risco Climático. Ademais, eles terão a responsabilidade de reduzir emissões, aumentar a eficiência energética e energia renovável, assim como integrar veículos elétrico. Como resposta, publicarão um Relatório de Sustentabilidade e Plano de Implementação até o fim do ano, após a divulgação da antecipada Ordem Executiva de Sustentabilidade.”

Também deve ser notado que as outras linhas do Departamento de Defesa americano incluem:

  • Garantir acesso a dados confiáveis sobre clima e meio-ameinete, assim como criação de processos decisórios que incluam essas informações, reduzindo custos e riscos operacionais;
  • Treinar tropas para que suportem condições extremas, garantindo equipamentos funiconais em altíssimas e baixíssimas temperaturas;
  • Redução no risco de inundações, queimadas e outros desastres naturais em instalações militares ao continuamente abordar riscos em bases e outras instalações.
  • Aumentar a cooperação com nações parceiras e outras agências do governo que possam ampliar o conhecimento sobre mudanças climáticas, ajudar a construir resiliência e redução dos custos.

No entanto, de acordo com o orçamento fiscal de 2023, não haverá espaço para gastos com programas climáticos, porque boa parte dos recursos já estão alocados para “correntes de investimento existentes”, como projetos de construção militar e a aquisição de equipamento financeiramente eficiente.

De modo geral, o plano do Pentágono é baseado em um abordagem razoavelmente racional. Em contraste com a retórica política do Ocidente, não há apelo emocional para introdução imediata de “energia verde” ou vãs ameaças sobre o uso de energia nuclear e combustíveis tradicionais. Também não há menção de proteção ambiental. Os militares americanos encaram as mudanças climáticas como um desafio para o qual devem estar preparados.

Já foi notado, também, que o “Departamento de Defesa dos EUA começou a reconhecer que atores privados e nações hostis não são os únicos ou ainda as mais complexas ameaças que existem, conforme bases militares e estruturas de apoio estão sujeitas à severidade climática ao redor do planeta. Isso ficou evidente quando o furacão de Categoria 5, Michael, bombardeou a Base Aérea Tyndall na Flórida, em Setembro, danificando seriamente 95% das instalações, com um custo de $ 5 bilhões em reparos de aeronaves. Diversas iniciativas estão sendo abordadas, incluindo muros marítimos ao redor de bases vulneráveis, assim como novas políticas para doenças vinculadas ao calor, incluindo prevenção e protocolos de tratamentos para temperaturas altas, avaliações do Departamento de Defesa, tais como o Relatório sobre Efeitos das Mudanças Climáticas de 2019 e o Guia de Resiliência Climática do Exército de 2020, representam alguns dos esforços sendo implementados pelo colossal establishment de segurança dos EUA para lidar com os sintomas climáticas… Enquanto o exército americano toma passos inicias para abordar mudanças, seus esforços migratórios e de adaptação ainda estão bem atrás, assim como as mudanças de mentalidade estratégica sobre a integração de considerações climáticas em decisões militares.”

Em 2019, a Universidade de Guerra do Exército dos EUA divulgou um relatório em que sugeria a mudança climática como um fator determinante para os interesses militares. Por um lado, furacões e outros desastres naturais podem causar danos consideráveis para a infraestrutura militar do Pentágono; por outro, a adaptação das forças armadas de outros países às mudanças climáticas poderiam dar vantagens competitivas aos potenciais adversários de Washington. Em primeiro lugar, referem-se à Rússia e o Ártico.

Enquanto isso, think tanks desenvolvem todo o tipo de iniciativas como uma cortina de fumaça democrática. Por exemplo, o Centro para Clima e Segurança, cujo conselho consultivo inclui diversos generais e almirantes aposentados, tenta se envolver diretamente em questões ambientais e controle da poluição.

Ainda sim, passada a eleição de Joe Biden, especialistas americanos ainda se questionavam se haveria alguma mudança nas políticas militares de modo geral, como um resultado da política climática levantada pelos democratas durante a campanha.

Curiosamente, o relatório do Pentágono de 7 de Outubro foi divulgado na véspera da 26ª Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP26), marcada para o período entre 31 de Outubro e 12 de Novembro, em Glasgow (Escócia).

Então, o que aconteceu? Qual o papel dos militares americanos nas questões climáticas? A realidade contrasta com a narrativa política dos EUA.

Em 2019 o Instituto Waston para Questões Públicas e Internacionais divulgou um paper sobre o impacto dos militares americanos no meio ambiente que contém informações detalhadas e interessantes sobre a poluição causada pelos mesmos.

Citando múltiplas fontes, o trabalho afirma que, entre 1975 e 2018, as emissões de CO2 do Pentágono equivalem a 1.267 milhões de toneladas métricas. A emissão anual do Pentágono excede por longa margem as da indústria do ferro e a emissão total de países como a Suécia, Dinamarca e Portugal.

Entre 2001 e 2018, as emissões em operações no exterior totalizaram 440 milhões de toneladas métricas.

Instalações de apoio às operações dos EUA e projeções de capacidade energética incluem mais de 560.000 estruturas com mais de 275.000 edificações em 800 bases situadas em aproximadamente 27 milhões de acres nos EUA e ao redor do planeta. No ano fiscal de 2017, o Departamento de Defesa gastou $ 3,5 bilhões em aquecimento, refrigeração e provisões elétricas para suas instalações; em 2016, $ 3,7 bilhões. Cada instalação é capaz de produzir emissões com efeito estufa. O Pentágono em si, localizado em Arlington, Virgínia, emitiu 24.620.55 toneladas métricas de CO2 em 2013.

O exército, aeronáutica e marinha americanas consomem medidas equivalentes de energia.

Dados detalhados do ano de 2014 mostram como e para quê cada comando utilizou energia.

Os cientistas também calcularam o efeito combinado de atividades e intervenções militares dos EUA, incluindo:

  • Emissões de gás com efeito estufa de bases militares e operações não-belicosas;
  • Emissões de guerra no exterior;
  • Emissões da indústria militar – produção de armas e munição, por exemplo;
  • Emissões causadas pelo foco no petróleo, notavelmente a queima deliberada de poços e refinarias;
  • Fontes de emissão por outros beligerantes;
  • Energia consumida durante a reconstrução de infraestruturas danificadas ou destruídas;
  • Emissões de outras fontes, como supressão de incêndios, extinção de químicos, incluindo Halon, efeito estufa e explosões e incêndios causados pela destruição de alvos não ligados ao petróleo em zonas de guerra.

O paper também aborda estatísticas detalhadas sobre aeronaves militares – consumo individual de modelos e suas emissões de CO2.

Nele, afirma-se que “Os militares americanos tem a oportunidade de reduzir os riscos associados à mudança climática […] ao reduzir seu papel na formação do efeito estufa. Conquanto ocorram aumentos nos níveis do mar e extinções em massa […] as consequências mais graves para o clima e suas ameaças e consequências para a segurança nacional não estão inclusas no sistema. Há tempo para agir e diminuir emissões, e urge fazê-lo. Se os militares fossem capazes de diminuir significativamente suas emissões, isso diminuiria o medo e as previsões de ameaças à segurança nacional, proporcionadas pela mudança climática.”

O paper também afirma que: “Reduções no uso de combustíveis fósseis também seriam benéficos de quatro maneiras. Primeiro, os EUA reduziriam sua emissão para o efeito estufa. Isso mitigaria a mudança climática e as ameaças associadas; Segundo, a redução no consumo de combustível fóssil traria benefícios políticos e de segurança importantes, incluindo a redução na dependência de tropas em campos de petróleo, o que os militares reconhecem como uma vulnerabilidade. Se os militares conseguissem reduzir significativamente sua dependência do petróleo, diminuiriam os recursos necessários para defender o acesso ao mesmo, particularmente no Golfo Pérsico, onde concentra os esforços; Terceiro, ao diminuir a dependência americana dos estados ricos em petróleo, o país poderia reavaliar a dimensão de sua presença militar no Golfo e reavaliar seu relacionamento com a Arábia Saudita e outros aliados da região. Por fim, ao gastar menos dinheiro com combustível e operações visando acesso seguro ao petróleo, os EUA poderiam diminuir seus gastos militares e reorientar a economia para atividades economicamente mais produtivas.”

São sugestões razoáveis, mas os EUA são capazes de segui-las? O paper já está disponível há dois anos, e a abordagem militar não só permaneceu a mesma, mas segue limitada por uma retórica pomposa. O plano do Pentágono está focado em soluções pragmáticas, não no desenvolvimento de mecanismos antipoluentes. Afinal, os EUA precisariam reduzir sua presena militar no exterior, primariamente no Japão, Coréia do Sul e Alemanha.

Fazendo companhia ao Pentágono como um dos líderes na emissão de poluentes estão os militares do Reino Unido. O primeiro cálculo independente descobriu que os setores militar e industrial do RU emitem mais gases de efeito estufa do que 60 países individuais, como Uganda, com uma população de 45 milhões.

O setor militar do RU emitiu 6,5 bilhões de toneladas de equivalentes ao CO2 na atmosfera entre 2017 e 2018. Destes, o relatório estima que o Ministério da Defesa do RU emitiu cerca de 3,03 milhões de toneladas, entre 2017 e 2018.

Este valor é mais de três vezes maior que os 0,94 milhões de emissõs de carbono divulgados no relatório anual do ministério, e é comparável com a emissão do setor automativo da indústria do RU.

O novo relatório pelo Dr. Stuart Parkinson, para o Cientistas pela Responsabilidade Global, afirma que o Ministério da Defesa britânico está “enganando” a opinião pública sobre suas emissões de carbono.

A análise também utiliza diferentes métodos para calcular as emissões militares dos britânicos – baseada em gastos de defesa anuais –, mostrando que a “pegada do carbono” total dos militares atinge 11 milhões de equivalentes do CO2. Isso é 11 vezes mais alto do que os dados mostrados no relatório oficial do Ministério.

Enquanto os EUA simplesmente se calam para não redimensionar a questão dos efeitos ambientais de seus militares, o RU apela para o já consagrado método de perversão dos dados.

Não importa quanto o alto escalão de Washington e Londres falem sobre a proteção ambiental, não há duvida de que os EUA e o RU são, de fato, a maior ameaça para o ambiente.

Fonte: Oriental Review
Tradutor: Augusto Fleck

Leonid Savin

Leonid Savin é escritor e analista geopolítico, sendo editor-chefe do Geopolitica.ru, editor-chefe do Journal of Eurasian Affairs, diretor administrativo do Movimento Eurasiano e membro da sociedade científico-militar do Ministério da Defesa da Rússia.

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