A democracia não precisa de partidos políticos

Dentre os delírios da democracia liberal, o partidarismo é tratado como um dos pilares para a construção da pluralidade e representatividade, para na verdade ser um dos principais mecanismos de alienação e dominação política. Para além disso, Alexander Dugin nos convida a pensar que o espírito do povo também se impõe sobre esses mecanismos, e a necessidade de repensar e reestruturar a forma como elegemos e identificamos nossos líderes.

O problema de celebrar eleições democráticas na Rússia onde a ideia de democracia representativa e, especialmente, a democracia representativa baseada em partidos políticos, é que ela é completamente alheia à cultura e à tradição política russa. Por outro lado, a democracia direta do zemstvo¹, ou seja, a eleição dos chefes das aldeias e, antes do cisma, dos párocos, têm uma longa trajetória na Rússia. Durante os períodos mais conturbados – como no final da Época da Instabilidade² – foi o povo quem elegeu o tzar e fundou uma nova dinastia. E antes disso, o povo havia tomado a decisão de criar milícias populares, especialmente com a formação do segundo exército popular, o qual salvou o país. Não obstante, os russos jamais criaram partidos políticos e só elegeram pessoas que consideravam como amigos nas quais confiavam. Então, eles elegiam pessoas em particular e não grupos. A tradição russa baseava-se nas relações pessoais, e são esses personagens que fazem política. O povo deseja compreender, conhecer e confiar em pessoas particulares, ainda que seja para odiá-las, depreciá-las e castigá-las. De todos os modos, sempre se trata de seres humanos particulares, já que nossa concepção de mundo é profundamente humana. O mesmo acontece com a política.

Os russos não entendem o que é um partido político, já que estes lhes soam alheios, impessoais e abstratos. Portanto, os consideram falsos, corruptos e maus e, por isso, pensam que seria melhor que não existissem.

Até mesmo a palavra “partido” (партий – partiy) possui pouco significado para os russos, pois, um partido é uma “parte” do todo e os russos aspiram sempre à totalidade. Eleger entre vários partidos é dividir a sociedade e essa é a razão pela qual os russos consideram que tal coisa é uma prática maníaca que destrói a sociedade, o povo e o país. Os mesmos partidos seguem essa dinâmica, pois, normalmente desmoronam, dividem e lutam em seu interior a fim de obter um líder. Os partidos políticos são corruptos tanto política como esteticamente. E nada poderá nos fazer mudar de ideia.

As coisas mudam quando se trata de um partido único, uma ideia que nos atrai mais que precisar eleger entre muitos: essa é a verdadeira alternativa para a Rússia, pois os russos elegeram de uma vez e para sempre sua fé, sua pátria e seu cônjuge. Esta eleição é definitiva: uma eleição para escolher apenas uma coisa. Essa é nossa ética, já que somente vale a pena ser fiel ao belo. O resto das coisas são simplesmente tentações e falsidades. E é por isso que não deveria haver partidos políticos na Rússia – existe o Estado, a Igreja, o povo e o zemstvo – ou existir somente um. Um partido único já não é um fragmento, mas um conjunto, um povo ou o mesmo Estado. Este modelo é duradouro e tem futuro, o outro não.

O governo do partido comunista, durante o período soviético, não só era imposto de cima, como também era exigido desde baixo. O povo e a sociedade desejavam a unidade e a plenitude. Os eslavófilos – sobretudo Jomiakov³ – sustentavam que a totalidade por excelência é o ideal do povo russo. Tanto o partido como o Estado são dominados por uma única pessoa: o líder-pai que todos conheciam e sabiam diferenciar seu rosto, sua voz e gestos.

Na democracia moderna participam muitos partidos e tal coisa é desprezível porque muitas pessoas nem sabem onde e porque se fazem as coisas. É algo bastante desagradável e quando tudo dá errado, a única coisa que fazem é obrigar todos a usarem máscaras de hospital. Os russos têm a intuição de que gente assim não fará outra coisa que não seja arruinar o país por sua improdutividade.

Só existem dois partidos que podem ser levados a sério na Rússia: Rússia Unida e o Partido Comunista da Federação Russa. Em ambos podemos ver as características do partido único que as pessoas anseiam inconscientemente.

No PCFR é tudo bem claro, já que ele é o fantasma do antigo Partido Comunista da União Soviética. O povo enxerga no PCFR a unidade do Estado, os povos, a sociedade e as classes que existiam durante a época soviética, ainda que não seja mais que o simulacro ou um artefato de museu que já não tem vigência. E, ainda assim, desperta simpatia: se permitido, a nostalgia que desperta o PCFR o levaria a conseguir muito, só há que ver o grande peso que tinha o PCFR nos anos 1990 quando tinha a maior parte dos acentos da Duma Estatal. Mas isso mudou porque agora há outro partido que disputa essa posição e é o Rússia Unida. Caso fosse simplesmente por nome, não teria interesse nesse partido. Mas o Rússia Unida é diferente, porque é o partido único do Estado e tem o rosto que encarna no líder-pai Vladimir Putin. Não importa o que se pense do Rússia Unida, pois é atualmente o partido do Estado por excelência. E Putin é o pai da Rússia e isso significa que ele é o pai de todos.

O Rússia Unida atuou de um modo muito aberto durante as eleições, especialmente porque a maioria de seus candidatos representam os melhores aspectos do poder estatal russo moderno: o exército, a diplomacia e os médicos. Em suas fileiras não encontramos empresários, banqueiros, monopolistas, oligarcas ou atletas. Ou, melhor dizendo, estão lá, mas em posições subordinadas, ou seja, pelas sombras. A troika do Rússia Unida fez um chamado ao povo: não votem pelo partido ou pelos partidos políticos, se não pelo Estado e pela Estatalidade. Não queremos seguir tentando ou subornando as pessoas, queremos um governo bom representados pelos melhores aspectos do mesmo: o exército (Shoigu), uma política exterior soberana (Lavrov) e a medicina que salva a vida do povo (Protsenko). E sobre todos eles governa o pai russo. Portanto, o Estado vai às urnas ou, ao menos, seu aspecto mais positivo. Seu lado negativo é obscurecido por esses três aspectos luminosos, enquanto no topo da pirâmide está Putin. E é aqui onde encontramos o significado real desse partido: Rússia Unida é o único partido de uma única Rússia. Esse deve ser precisamente nosso objetivo.
Os críticos, sem dúvida, gritaram cheios de horror dizendo que tudo é um engano e um truque eleitoral. E então, o que faremos com os “ladrões e golpistas”? O que acontecerá com os funcionários corruptos e a oligarquia que agora faz parte do governo? O que acontecerá com essa vida que nós não gostamos, com o cinismo e ódio da elite? Este polo negativo segue existindo, não obstante, o Estado é um todo e por isso projeta uma sombra. Claro, podemos comparar quão larga e escura é a sombra que um indivíduo projeta, mas isso não se aplica ao Estado e muito menos ao pai de todos os russos. O pecado de Cam na arca foi denunciar as falhas e erros do seu pai, especialmente quando Noé estava bêbado e tropeçou caindo no chão. Cam fez algo muito pior: tratou de separar a família. Por que Cam chamou seus irmãos para verem o estado lamentável de seu pai? Porque queria criar um partido. Todo partido nasce da separação. Noé foi quem construiu a arca e Sem e Jafé fizeram o correto: tomaram partido pelo seu pai, não por seu irmão. Elegeram a arca e não a ideia de desmontá-la para logo vender a madeira. Elegeram fielmente ao Estado e não ao partido. A terra daqueles que estão condenados à maldade leva o nome de Cam: “Canaã”.

A democracia pluripartidarista na Rússia sempre será uma falsidade e isso não se deve a que “o governo autoritário sempre tente controlar tudo”, mas sim que nenhum partido político tem ou pode ser considerado legítimo na Rússia. Todos ou quase todos os partidos políticos sempre serão completamente falsos na Rússia. Exceto um: o Estado. Aparentemente, a Rússia vai colocar a democracia parlamentar de lado e tentar criar uma democracia direta – a democracia do zemstvo – sem partidos políticos onde haverá eleições reais, significativas, responsáveis, com respeito pelas capacidades particulares (quem seja eleito será julgado diretamente pelos próprios votantes, como acontecia com os chefes de aldeias) e baseadas na abertura e honestidade. Selecionar os mais qualificados para a política não tem nada a ver com a democracia representativa liberal ocidental, que nada mais é do que um obstáculo. A renovação das elites é muito mais complexa, dinâmica e melhor estruturada no sistema monopartidarista chinês e isso que lá não existe nenhum parlamento, pois o partido é o Estado em si, dominado por Xi Jinping. Este sistema tem seus problemas, mas antes de criticá-lo é melhor avaliar e corrigir nossos erros. Pelo menos é o que pensam os verdadeiros comunistas e democratas chineses, quase seguindo os passos de Confúcio.

¹ O zemstvo (земство) foi uma forma de governo local instituída durante as grandes reformas realizadas no Império Russo pelo tzar Alexandre II da Rússia. A ideia para este sistema foi desenvolvida por Nikolai Miliutin. As primeiras leis sobre os zemstvos foram promulgadas em 1864. Após a Revolução de outubro de 1917, o sistema zemstvo foi abolido e substituído pelo dos sovietes ou conselhos provinciais de trabalhadores. O sistema de autogoverno do Império Russo foi formado em seu nível mais baixo pelo mir e pelos vólosts, e em um nível imediatamente superior pelos 34 Gubérniyas da velha Rússia, os distritos eleitorais e as assembleias provinciais. Esses órgãos, um para cada distrito e um para cada província ou governadoria, foram criados por Alexandre II em 1864. Eles consistiam em um conselho representativo (zémskoye sobránye) e um conselho executivo (zémskaya uprava) nomeado pelo conselho. O conselho era composto por cinco classes de membros:

Grandes proprietários de terras (proprietários de 590 hectares ou mais), que participaram pessoalmente.
Delegados de pequenos proprietários de terras, inclusive clérigos como proprietários.
Representantes da classe rica.
Representantes das classes urbanas menos abastadas.
Representantes dos camponeses, eleitos pelos Vólosts.

² O Período Tumultuoso ou Idade da Instabilidade, também chamado de Idade das Revoltas, Idade das Desordens ou Tempos Conturbados (foi um período na história da Rússia que inclui o interregno entre a morte do Tzar russo Teodoro I Ivannovich do Dinastia Rurikid em 1598 e o estabelecimento da dinastia Romanov em 1613. É um dos períodos mais sombrios da história da Rússia, mas ao mesmo tempo um dos mais importantes.

³ Alekséi Stepanovich Jomiakov foi um filósofo, teólogo e escritor ortodoxo russo. Junto com os irmãos Ivan e Piotr Kiréievsky, fundou o movimento eslavófilo, considerado um de seus maiores intelectuais e que defendia a ortodoxia e as tradições eslavas contra a cultura e religião ocidentais. Jomiakov escreveu numerosas poesias e escritos teológicos contra o catolicismo e o protestantismo.

Fonte: Geopolitica.ru

Aleksandr Dugin

Filósofo e cientista político, ex-docente da Universidade Estatal de Moscou, formulador das chamadas Quarta Teoria Política e Teoria do Mundo Multipolar, é um dos principais nomes da escola moderna de geopolítica russa, bem como um dos mais importantes pensadores de nosso tempo.

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