As 5 principais variáveis do conflito no Afeganistão

O Afeganistão foi tomado pelo Talibã, pondo fim à fase mais importante da guerra civil no país, mas o conflito não acabou. Ainda há pontos críticos que podem ser usados pelo Ocidente para desestabilizar a região mais ainda. Nesse artigo, o analista geopolítico Andrew Korybko aponta cinco vias de ação para as forças contra-hegemônicas se contraporem a esses pontos críticos.

A fulminante tomada do Afeganistão por parte do Talibã pôs fim à fase mais importante da guerra civil do país, mas não concluiu o conflito por completo.

Ainda restam diversas variáveis que podem continuar desestabilizando o país no futuro próximo. Essas são:

1. Os Estados Unidos e a OTAN prorrogam sua retirada para depois do prazo de 11 de setembro

Os líderes ocidentais estão sendo pressionados pelo seu povo para ainda não se retirarem completamente do Afeganistão até que todos os seus cidadãos, e idealmente também seus aliados locais, sejam evacuados de forma segura, mas ampliar o prazo para depois de 11 de setembro implicaria no risco de provocar retaliação do Talibã.

2. Os Estados Unidos e a OTAN bombardeiam o equipamento militar apreendido pelo Talibã

As forças em retirada estão muito preocupadas com a apropriação de equipamentos militares ocidentais pelo Talibã, incluindo aviões de guerra e blindados, e já estão sendo realizados esforços em alguns países para incentivar seus governantes a bombardear esses ativos após sua retirada do Afeganistão.

3. A “Resistência Panjshir” segue opondo-se militarmente ao Talibã

Ainda que suas perspectivas de êxito a longo prazo sejam praticamente nulas, a contínua oposição militar da chamada “Resistência Panjshir” aos Talibã poderia provocar uma resposta desproporcional do grupo, que, por sua vez, poderia ser aproveitada por alguns membros da comunidade internacional para deslegitimar seu governo.

4. Minorias étnico-religiosas armadas que resistem ao Talibã

Seja por inspiração da “Resistência Panjshir” ou pelo que for, algumas outras minorias étnico-religiosas armadas em outras partes do país também podem continuar fazendo resistência ao Talibã ao longo do tempo, o que pode perpetuar a guerra civil, como também piorar o sofrimento dos afegãos médios.

5. O deterioramento das condições socioeconômicas provoca distúrbios urbanos

O fracasso do Talibã em respeitar os direitos das minorias e das mulheres pode levar à agitação urbana entre a população que já desconfia desse grupo, bem como à deterioração das condições econômicas causada pelas tentativas do Ocidente de isolar o Talibã no caso de não reconhecerem seu governo.

Essas cinco variáveis de conflito podem ser contrapostas das seguintes maneiras:

1. Exercer pressão internacional sobre os EUA e a OTAN para que se retirem antes da data limite

Os sócios internacionais do Talibã, como Rússia e China (que continuam considerando-o um grupo terrorista, apesar de manter com eles relações pragmáticas, políticas e de segurança), deveriam deixar claro que se os governos ocidentais ampliarem o prazo de sua retirada, correrão o risco de provocar outra rodada de guerras e de piorar a situação de segurança regional.

2. Aumentar a consciência mundial das credenciais antiterroristas do Talibã

Rússia e China também deveriam informar à comunidade internacional as verdadeiras credenciais antiterroristas do Talibã como a força mais formidável contra o ISIS-K, o que significa que o grupo precisa do seu equipamento militar ocidental confiscado para garantir a estabilidade regional e assim evitar também outra crise de refugiados.

3. Rússia e China deveriam considerar a possibilidade de mediar o conflito entre o Talibã e a Resistência Panjshir

Rússia e China deveriam considerar a possibilidade de pôr em prática suas habilidades diplomáticas para mediar uma solução política a essa questão extraordinário, apesar de Moscou ter declarado anteriormente não nutre nenhuma intenção de fazer isso, já que a derrota militar da “Resistência Panjshir” ante o Talibã poderia deslegitimar o governo desses últimos.

4. Incorporar as milícias regionais às novas forças de segurança afegãs

O Talibã deve dar prioridade à incorporação das milícias regionais à nova estrutura de segurança do país, assim como à erradicação decisiva da corrupção que condenou as forças de seu predecessor, e à eliminação da tendência ao caudilhismo, para prevenir a possibilidade de revoltas étnico-religiosas.

5. Respeitar as promessas e buscar investimento estrangeiro

O Talibã deve cumprir absolutamente sua promessa de respeitar os direitos das minorias e das mulheres para garantir a estabilidade social, ao mesmo tempo buscando investimentos estrangeiros de seus sócios regionais para melhorar de forma sustentável a situação econômica, posicionando o Afeganistão como a encruzilhada dos processos de conectividade multipolar.

Fonte: geopolitica.RU

Andrew Korybko

Analista político e jornalista do Sputnik, é também autor do livro <em>"Guerras Híbridas"</em>.

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