Jaime Nogueira Pinto: “é uma ideia absurda pensar que o mercado carrega a democracia”

Entrevista com Jaime Nogueira Pinto (Oporto, 1946). Licenciado em Direito pela Universidade Clássica de Lisboa e doutor em Ciências Políticas pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade Técnica de Lisboa. Uma referência da dissidência política e cultural portuguesa, fala sobre seu novo livro, a política europeia e o “fim da história”.

Por Álvaro Peñas

Alvaro Peñas: Antes de falar de seu novo livro, queria perguntar sobre a polêmica ocorrida em Portugal por um mapa publicado pelo VOX (partido político espanhol) no dia 12 de Outubro em que se representavam os domínios espanhóis nos tempos de Felipe II, incluindo Portugal e seus territórios. Partidos políticos e meios de comunicação estão atacando o Chega (partido político português) pela sua amizade com o VOX. O que você opina sobre esse assunto?

Jaime Nogueira Pinto: Acredito que é importante que se fale deles porque, para nós, os portugueses que são nacionalistas, é um tema delicado. Esse mapa, contemplando tudo que era o império espanhol e o português, está mal visto por aqui porque, nesse período, o da união real, quem detinha o domínio eram os espanhóis. Existe um episódio, que meu grande amigo Juan Velarde Fuentes me contou, ocorrido pouco antes de começar a Guerra Civil Espanhola, quando Antônio Salazar estava apoiando Francisco Franco. Um grupo de jovens falangistas de Valladolid publicou em uma revista um mapa da Espanha e Portugal sem fronteiras, e o governo de Salazar se queixou por meio do representante em Burgos, Teotónio Pereira.

Franco quase mandou fuzilá-los porque não podia se permitir perder o apoio de Portugal por algo assim. O que quero dizer é que temos de ter cuidado com estas coisas, e mais quando estamos insistindo na identidade, unidade e independência de nossas pátrias. Há que se dar importância porque é muito negativo para a imagem de uns e outros.

AP: Não obstante, o mapa se refere ao conjunto da Hispanidade e não a uma união política.

JNP: A Hispanidade não nos concerne a nós, portugueses. E há que sinalizar que toda a questão da União Ibérica é algo próprio da esquerda republicana e maçônica que queria uma confederação ibérica. A direita nacional portuguesa sempre considerou essencial que a Península Ibérica tivesse dois estados independentes.

Este período no qual a Espanha é uma grande influência na Europa e possui uma enorme projeção, e Portugal têm seu domínio do Brasil e o comércio da costa africana do Índico, é muito importante, mas requer a explicação de que se trata de uma união em uma etapa imperial, e é melhor não publicar algo se tem que dar explicações a respeito?

Eu não sou do Chega, mas acredito que eles desempenham um papel positivo como um equilíbrio pela direita frente a um sistema político que está muito à esquerda. Por isso penso que sua existência seja positiva. Entendo que Chega tenha pedido explicações e isso tem sentido.

AP: Mas quem mais gritou foram os partidos que mais tarde tiveram o prazer de entregar a soberania portuguesa à UE.

JNP: Sim, claro. Na minha opinião, esse assunto só há que se esclarecer à opinião pública que tem uma intenção honesta e patriótica, os outros não me preocupam muito. O grande problema de Portugal é que com a revolução dos cravos houve uma deriva à esquerda do sistema político e sobretudo, dos valores políticos. Nos anos 1974 e 1975, as tentativas de fazer partidos de direita foram liquidadas pelos militares. Os partidos como o Partido do Progresso que vinha da direita universitária foram proibidos e seus dirigentes acabaram na prisão ou no exílio. E todas as pessoas da direita, como no meu caso, fomos preventivamente objeto de ordem de prisão e tivemos que deixar o país durante vários anos. A direita admitida no sistema foi a direita da esquerda. Este é um conceito muito importante para entender o sistema político português. Um sistema que o Chega quebrou e esse é seu mérito.

AP: Na Espanha acontecia o mesmo até a aparição do VOX?

JNP: Claro. E como na Espanha está em questão a unidade nacional, as pessoas se mobilizam muito mais depressa. Em outros países era uma questão de identidade nacional com os problemas da imigração. Em Portugal não temos nada disso, o que temos, todavia, é o resultado de uma revolução de esquerdas que anularam qualquer resposta intelectual ou de valores.

AP: Vamos falar sobre seu livro, “Hegemonia”.

JNP: Sim, na terça, 19 de outubro, no El Corte Inglés, o apresentei em Lisboa. Há uma bela sala para apresentações e fui acompanhado em um debate por dois especialistas em investimentos chineses em Portugal, porque a última parte do livro trata do conflito recente entre Estados Unidos e China. Os Estados Unidos como a potência dominante e a China como a potência ascendente.

AP: O conflito que está por vir.

JNP: Graham Allison escreveu no “Armadilha de Tucídides” que sempre que há um poder dominante e aparece um poder ascendente, o choque, a guerra, é praticamente inevitável. No livro de Allison, é curioso que um dos exemplos que se dá de guerra evitada é o caso da Espanha e Portugal no final do século XV. Com o Tratado de Tordesilhas, fizeram uma distribuição preliminar de conquistas e navegações e assim evitaram um choque, algo que ajudou a expansão de ambos. Isso é interessante, mas estavam falando de coisas que ainda estavam para chegar. É sempre mais fácil consertar as coisas mais cedo do que quando elas já existem.

Meu foco não é esse, ainda que também faça parte de Tucídides. Quando Tucídides fala dos motores da ação humana: o medo, a honra e a ganância. O medo é um motor, os povos e os políticos têm medo. O medo de Esparta do poder em ascensão de Atenas desencadeou a Guerra do Peloponeso. A honra, o desejo de glória, algo que se vê muito na guerra dos grandes conquistadores como Alexandre, César, Napoleão, e até Hitler. E por último a ganância representada pelos grandes interesses econômicos, uma forma mais racional para explicar um conflito. O que fiz foi tentar explicar como esses três elementos influenciaram em sete grandes conflitos, que chamei de duelos: a Guerra do Peloponeso, as Guerras Púnicas, as guerras de Carlos V contra os franceses, protestantes e turcos, as guerras franco-inglesas no século XVIII, as guerras alemãs, a Guerra Fria e agora este conflito que está começando agora.

AP: José Javier Esparza, um dos nossos melhores autores, acredita que no confronto entre Espanha e Inglaterra nos séculos XVI e XVII, a Espanha é Roma e a Inglaterra é Cartago. Eles são dois modelos antagônicos de império.

JNP: Não o conheço pessoalmente, mas sei muito bem quem ele é e o aprecio. E sim, podia-se dizer assim. Não obstante, há duas semanas escrevi uma crônica sobre Lepanto para o Diário Observador. Vendo as fontes literárias da batalha, e claro Cervantes, encontrei uma grande influência também na Inglaterra. Em Otelo, de Shakespeare, ele está voltando de uma grande vitória dos cristãos contra os turcos que acho que poderia ser Lepanto. Jaime I da Inglaterra publicou também um poema quando era príncipe intitulado “O Lepanto” no qual ele celebra a batalha como uma grande vitória da Cristandade. E creio que isto, a Cristandade, está por cima dessa rivalidade. A revolução oligárquica que se deu na Inglaterra em meados do século XVII fez com que os interesses comerciais e financeiros tivessem um peso muito maior sobre o Estado que os que tiveram nas nossas monarquias. E esse ethos distinto é interessante.

Há sempre uma mescla de muitos fatores nos conflitos e esse é o estudo do meu livro. O que há de racionalidade econômica, o que há de honra ou desejo de glória e o que há de medo nos chefes e nos povos. Todas as ideologias que pretendem reduzir os motores da ação humana a uma só razão são muito perigosas. O marxismo, por exemplo, com sua redução à questão econômica e à divisão de classes. Claro que as classes e o conflito social existem, é algo muito importante para estudar a história, mas não é uma explicação única. Não podemos cair aí.

AP: Neste futuro conflito entre os EUA e a China, o que você acha que aguarda a Europa?

JNP: A Europa, a UE, sempre quis obter o melhor de ambos os lados, negócios com a China e proteção militar dos EUA. Isso não vai ser possível e os EUA vão pedir à UE que decida. O pilar natural de defesa da Europa era a Rússia, um país cristão ortodoxo, mas, por questões ideológicas, foi rejeitado. Ademais, a Rússia conseguiu, com uma economia que é a 17ª ou 18ª do mundo, ser uma potência importante, graças aos fatores militares e energéticos. E algo muito importante, é um país que salva seus aliados. Putin salvou Bashar al-Assad na Síria, era seu aliado e o manteve no pior momento. O desprezo à Rússia por parte do restante da Europa e de Biden é um grave erro político.

AP: Rússia optou pela China.

JNP: Sim, mas historicamente não havia muitas razões. São vizinhos, têm culturas completamente distintas e, no passado, se enfrentaram militarmente. Durante a Guerra Fria, os chineses ajudaram os EUA a ilhar a URSS. Portanto, não havia uma base para um bom entendimento, mas toda essa ideologia politicamente correta deixou a Rússia nos braços da China.

Uma ideologia muito bonita, mas logo não lhes importa que os talibãs, que não são muito respeitosos com os direitos, as mulheres, os homossexuais, se apoderem do Afeganistão. Agora, há uma espécie de campanha para mostrar o “Talibã do bem”, dizendo que mudaram muito, mas se vê que não mudaram nada. Está é uma desgraça do nosso mundo, essa retórica maniqueísta de “nós somos os bons, somos os puros, os defensores dos direitos humanos”. E agora já não são somente os direitos humanos, são também os dos animais e logo teremos os direitos dos vegetais e os das pedras. O pior é que se tomam decisões políticas tomando em consideração toda essa loucura.

AP: Uma figura contrária a tudo isto e que tem um peso político crescente é o Primeiro-Ministro húngaro, Viktor Orbán.

JNP: Sim, precisamente o entrevistei em Porto para o semanário “Expresso”. O conheci faz alguns anos e é uma figura que está centralizando sua resistência a tudo isso, combinando bem os valores populares, nacionais, conservadores e religiosos e a liberdade econômica. Acho que ele o está fazendo bem e cuidando do aspecto da batalha cultural, que é algo que grande parte da direita deprecia continuamente.

Orbán está tocando nos grandes temas, como a decadência demográfica da Europa que está combatendo com políticas para favorecer a natalidade. Sobretudo, tem uma qualidade, não tem medo de dizer as coisas, o preto é preto e o branco é branco. Isso marca a diferença e o coloca em um ponto de vista correto, estratégico e ideológico. Nas forças nacionais ou de direitas emergentes há dois tipos de famílias: uma mais populista, muito dinamizada pela decadência econômica da Europa, o deslocamento de indústrias e as perdas econômicas das classes médias e trabalhadoras por culpa do globalismo; e outra mais tradicional, mais enraizada nos valores cristãos da família e mais conservadora. Orbán faz um bom centro geométrico de ambas as correntes, do que podemos chamar as direitas nacionais da Europa e do mundo ocidental.

AP: O que ficou claro é que Fukuyama estava errado, não é o fim da história.

JNP: Assim é. Encontrei o Fukuyama várias vezes em conferências e ele esteve mesmo aqui em Portugal e já nessa altura discuti com ele, a história não acabou. Eu acho que foi um comentário para Hegel. É necessário cuidado com esses filósofos alemães porque são muito sedutores, se entusiasmam com a cavalgada da história e se vão, como Dom Quixote contra os moinhos, mas há que se ter o senso de Sancho, no sentido comum. Fukuyama estava convencido pelo fim da Guerra Fria, estava entusiasmado com o mercado porque todo mundo ia ganhar muito dinheiro e era uma teoria de fácil compreensão. E as pessoas gostam quando alguém lhes dá a chave para entender o mundo. “Olhe você, o mundo agora funciona porque vai ser tudo democracia e mercado”, ou quando te dizem que algo não funciona por uma razão ideológica redutora ou uma teoria da conspiração. Em relação à China, qual foi o diagnóstico? Começa a ter homens ricos e uma classe média, pois vai ser uma democracia. Isso foi dito porque eles nem mesmo viram que há uma série de regimes autocráticos e mesmo autoritários em que havia uma economia de mercado e um único partido. É uma ideia absurda pensar que o mercado traz democracia.

AP: Lembra o Marxismo.

JNP: Claro. O grande capitalismo americano e seus valores é uma forma paralela ao marxismo de pensamento único. A mentalidade dos grandes milionários é muito parecida à dos marxistas, uma regra mundialista com uma ou duas normas essenciais e um desprezo total à identidade nacional, familiar e aos valores religiosos. Não interessa nada, o mercado vai solucionar e liquidar tudo.

AP: É por isso que o globalismo assume todas as teses da esquerda moderna.

JNP: Sim, existe uma aliança objetiva. Ademais, Marx era um grande admirador e entusiasta do poder de destruição do capitalismo e dizia que esse ia destruir a si mesmo. Nesse sentido, acho que pensamos que o mundo é melhor e mais livre com Estados nacionais, com famílias independentes do Estado, com valores religiosos, com liberdade até para dizer besteira e piadas, temos que lutar por isso.

Fonte: El Correo de España

Jaime Nogueira Pinto

Escritor e cientista político português, autor de "Hegemonia".

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