Qual o preço que OTAN deverá pagar para continuar com sua expansão?

No presente artigo, o analista geopolítico Leonid Savin analisa o estudo sobre a expansão da OTAN e sua incessante busca por aliados para a difamação da Rússia enquanto “possível ameaça para os países atlantistas”.

Por Leonid Savin

No dia oito de setembro o Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais, um dos principais programas think thanks de política externa Americana, publicou um estudo sobre a expansão da OTAN (https://www.csis.org/analysis/future-nato-enlargement-force-requirements-and-budget-costs).

O estudo enfatizou principalmente nos requisitos dos custos envolvidos nas forças armadas da OTAN. A própria publicação deste estudo é bastante problemática. Enquanto as discussões dos pontos anteriores focavam na possibilidade de admissão ou adiamento de novos membros, e os representantes EUA e do Reino Unido estão constantemente buscando por cooptar por novos estados, o que faz parte da retórica política, uma análise racional dos prós e contras sugere uma rotina sistemática com cálculos detalhados baseados em experiências anteriores.

O autor do estudo inicialmente mantêm que o projeto floresceu por consequência do sucesso da OTAN e de um ambiente de segurança no cenário europeu devido a “uma Rússia hostil e militarmente fortalecida”. Eles também frisam que o valor da OTAN em-si ou a expansão passada não entram em questão. “Em vez disso, o propósito dessa discussão é aumentar a segurança dos EUA e OTAN juntamente com seus aliados, além de apoiar a estabilidade em toda a Europa. A divisão de cargos de futuros comprometimentos seria um problema político e militar importante.”

De fato, o tamanho da contribuição de cada país tem sido sujeito de densos debates entre membros da aliança durante os últimos dez anos. Obviamente os autores estão levantando o problema deliberadamente para que os carrascos tenham tempo o suficiente para desenvolver as opções e mecanismos necessários.

O estudo focou em cinco países: Geórgia, Ucrânia, Bósnia e Herzegovina, Finlândia e Suécia. Três desses países – Geórgia, Ucrânia, e Bósnia e Herzegovina – estão constantemente buscando por filiações. Finlândia e Suécia não buscam por filiações e permanecem comprometidas com o não-alinhamento.” Ainda assim, o desejo da Bósnia e Herzegovina é um ponto de debate por conta posição inflexível anti-OTAN de uma de suas entidades; República Sérvia, e o status específico da federação em-si com limites de soberania. No entanto, a experiência de Montenegro e da Macedônia vêm mostrando que pequenos países bálticos podem ser absorvidos pela OTAN de maneira rápida caso as condições estejam de acordo, isto é, seus agentes de influência têm sido colocados em órgãos chave que ordenam o país.

O autor também apontou um dilema surpreendente relacionado aos estados europeus. “Os países da OTAN, com exceção dos EUA, possuem boa capacidade de resposta para crises, contingências reduzidas e segurança corporativa, conduzindo muitas missões do tipo desde o fim da Guerra Fria. Para operações em larga escala, os recursos são severamente limitados. Comparado com a Rússia,… a força gasta com países da OTAN, com exceção dos EUA, são muito maiores. No entanto, a OTAN tem tido dificuldade até mesmo em implantar forças menores. A OTAN, a qual distribuiu 40 divisões (aproximadamente 360 batalhões de combate) no norte da Europa durante a Guerra Fria, esforçou-se para manter quatro batalhões de força-tarefa nos estados Bálticos.

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O presidente dos EUA, Joe Biden (esquerda) e o secretário-geral da OTAN Jens Stoltenberg (direita) em uma reunião da OTAN na sede de Bruxelas em 14 de junho de 2021. – A aliança de 30 nações esperam reafirmar sua unidade e discutir cada vez mais suas tensas relações com China e Rússia, enquanto a organização retira suas tropas do Afeganistão após 18 anos.

Em outras palavras, países membros da OTAN, com exceção dos EUA, estão razoavelmente prontos para o combate. A questão é quem eles veem como ameaça e contra quem eles pretendem usar seu poder bélico. Claramente, se um capítulo inteiro do estudo é dedicado à Rússia, segue-se que o país não está sendo meramente indicado como uma possível ameaça para o qual uma estratégia coletiva de defesa é necessária; está sendo apresentado como uma ameaça em-si. Portanto, as opiniões entre países da OTAN, com exceção dos EUA, sobre as intenções ambiciosas e “agressivas” de Moscou precisam ser mantidas em prol de formar uma opinião pública concordante e obter o apoio necessário dos governos. Enquanto isso, tem sido mostrado que são as próprias forças armadas e as capacidades econômicas desses países que são, significativamente, interessantes para a OTAN. Uma vez que eles podem pagar despesas relativamente altas, eles são uma aquisição valiosa para acrescentar às capacidades da OTAN, acima de tudo.

A Suécia, por exemplo, corretamente avalia que a OTAN possui inúmeras fraquezas, como dependência diante da estratégia geral americana; responsabilidades sobrepostas entre os comandantes da OTAN, tropas voluntárias e países anfitriões que complicam a possibilidade de fortalecimento e expansão; a relativa fraqueza dos membros do Oriente; a falta de infraestrutura na Europa que complicam o envio e implantação de tropas; e a falta de equipamento necessário em alguns países.

O autor também nota um problema com a lentidão na tomada de decisão. É óbvio que a expansão de aliança somente complicará o processo. Além disso, sempre houve dificuldades na escolha de estratégias políticas e militares em momentos de conflito. “Em consideração ao conceito de defesa, os planejadores da OTAN enfrentam uma escolha difícil há muito tempo: mantendo um campo de defesa avançado capaz de conter o território, mas que é potencialmente frágil, ou realizando uma defesa ativa que inicialmente ceda o território para que posteriormente seja possível uma contra-ataque. Defesa móvel possui muitas características atrativas e figuras proeminentes em discussões sobre a guerra de manobra. Entretanto, a política é complexa. Nações relutam em ceder qualquer território para um adversário, mesmo temporariamente, mesmo através de uma retirada estratégica que faça algum sentido, militarmente. Além disso, contra-ataques, inevitavelmente expandem o escopo geográfico de operações e, por vezes, o escopo político também. Essas expansões elevam a escala de conflito que poderia induzir ao uso de armamento nuclear.”

Discussões anteriores relacionadas a este mesmo problema, revelaram um certo concenso dentro da OTAN que deveria haver uma vantagem de três para um, ou até maior. Também deveria haver um nível mais elevado de especialização no treino das tropas para atividades de movimento e uma preparação para baixas de civis e perdas de propriedade. Não há evidência disso em meio aos membros da OTAN, como foi demonstrado em exercícios nos últimos anos e na “efetividade” da OTAN no Afeganistão.

Em relação a possíveis candidatos para membros da OTAN, seus potenciais e importância geopolítica são traçados a seguir:

A OTAN tem promovido exercícios anuais com a Geórgia desde 2016 e mantêm um gabinete fixo no país para “facilitar o diálogo político/militar em cooperação prática”, entre Tbilissi e Bruxelas.

O exército georgiano é militarmente inferior ao exército russo nos Cáucasos por uma escala de dois para um. Até mesmo com o envolvimento da OTAN, há ao menos duas condições que precisam ser cumpridas para que a Geórgia tenha sucesso em uma operação militar contra a Rússia. 1) A habilidade de movimentar forças militares de maneira rápida usando transportes aéreos. 2) O envolvimento da Turquia no conflito, incluindo a implantação de forças militares no solo turco e seus subsequentes movimentos em direção à Geórgia por terra e mar.

A OTAN também está contando com superioridade aérea em tal conflito.

Esta discussão proposta requereria medidas severas: a implantação de divisões da OTAN, uma divisão norte-americana, hardware e componentes para equipamentos pesados; a presença permanente dos EUA em defesa das forças aéreas.

Infraestrutura, desenvolvimento e rotação de tropas, exercícios militares que custariam 7 bilhões de dólares por ano. Metade disso viria dos EUA e a outra metade dos membros europeus da OTAN.

A Ucrânia é mais complicada. O relatório foi assinado antes do acordo entre Bielorrússia e Rússia no dia 9 de setembro que também envolve integração militar, sendo assim, não leva em consideração o envolvimento de Bielorrússia em um possível conflito ao lado da Rússia. Caso contrário, as estimativas seriam diferentes.

Mais uma vez, os autores fantasiam sobre ataques da Rússia e citam um cenário imaginário em que tropas russas dominam a parte oriental da Ucrânia. Cercando os militares Ucranianos que tentarão defender Kharkiv e algumas outras cidades no leste. Embora o cenário tenha as forças aéreas da OTAN punindo as tropas russas, eles são incapazes de cessar seu avanço. A OTAN precisaria de três meses para criar condições necessárias para um contra-ataque, mas, ainda assim, a Rússia retaliaria com equipamento nuclear.

Fortalecer a segurança Ucraniana requereria a implantação permanente de três brigadas (uma norte-americana e duas da OTAN); a aquisição e implantação de equipamento; a implantação de uma brigada de defesa aérea; e a presença de instrutores norte-americanos e uma divisão particular de aproximadamente 250 pessoas, dois esquadrões aéreos norte-americanos e um pertencente a OTAN. Tudo isso custaria 27 bilhões de dólares.

O fator Donbass com a população de ucranianos falantes de russo também é considerado. A supressão de uma revolta é esperada como sendo algo caro. Cinco anos do “manutenção do tratado de paz” custaria 98 bilhões de dólares, com mais 130 bilhões para cinco anos de atividades contrainsurgentes. A experiência no Afeganistão e Iraque foram levadas em considerações ao trabalharem as estimativas (muito provavelmente com elemento de corrupção benéfico aos subcontratados norte-americanos).

O principal problema com Bósnia e Herzegovina é a população Sérvia e a posição da Sérvia em-si. É esperado que haja resistência na incursão ao custo de 24.6 bilhões de dólares. No caso da Bósnia e Herzegovina, o relatório fala como se o país já estivesse como membro integrante da OTAN, e que as tropas terão de ser enviadas para lá com o objetivo de manter a lei e a ordem.

No caso da Suécia, mais uma vez, os autores deixam sua imaginação correr livremente. “Por exemplo, num conflito entre OTAN e Rússia, durante uma incursão russa nos Estados Bálticos, a Suécia estaria diretamente envolvida. Porque a Finlândia atua como um amortecedor contra a Rússia, ataques terrestres são extremamente improváveis. A Suécia teria três desafios defensivos: proteger-se de mísseis e ataques aéreos russos, proteger seu vagos território contra infiltrações russas, defender a ilha de Gotland e outras infraestruturas chaves para que as divisões militares da OTAN possam utilizá-las para proteger o fluxo de forças para os Estados Bálticos, dentre outros lugares.” Isso requereria a implementação antecipada de aeronaves e defesas aéreas para defender Gotland e uma série de posições na Suécia, com o valor de 3,2 bilhões de dólares, com a OTAN precisando adicionar mais 6,6 bilhões de dólares.

É notado que “além dos puros desafios militares, a Suécia encara um desafio político-militar ao juntar-se a OTAN: os membros da OTAN não somente garantem à Suécia território contra ataques estrangeiros – também exige que a Suécia envolva-se em outros confrontos externos, algo que não ocorria desde o século dezoito.” Isso impedirá Estocolmo de tomar tal decisão.

A Finlândia coopera ativamente com países do ocidente, incluindo participação em manobras com a OTAN e os EUA. Acredita-se que os finlandeses não possuem o interesse em convidar tropas estrangeiras para o seu solo por medo de provocar a Rússia. Com o propósito de alguma maneira justificar um conflito entre Rússia e Finlândia, os autores sugerem um cenário envolvendo a ocupação das Ilhas Aland, o qual forçaria Helsinque a retalhar. Mas a Finlândia não tem a classe aérea militar necessária ou o sistema de defesa aérea necessário para enfrentar a Rússia. Caso a OTAN interesse-se em ir ao resgate, gastaria muito tempo, pois há uma grande distância geográfica. A ínfima discussão custaria um pouco mais de um bilhão de dólares, enquanto um fortalecimento mais qualitativo custaria 5,3 bilhões de dólares.

Mas, assim como a Suécia, a Finlândia terá de estar de acordo com esta nova regra.
Ainda que a solução política e os problemas técnicos referentes aos novos membros ainda sejam hipotéticos, o relatório mostra claramente a intenção norte-americana não apenas de apresentar a Rússia como uma futura ameaça e inimiga da Europa, mas também para aparentá-la desesperançosa e com poucas alternativas, seja para os membros da OTAN, seja para os Estados relativamente neutros.

Fonte: Geopolitica.RU

Leonid Savin

Leonid Savin é escritor e analista geopolítico, sendo editor-chefe do Geopolitica.ru, editor-chefe do Journal of Eurasian Affairs, diretor administrativo do Movimento Eurasiano e membro da sociedade científico-militar do Ministério da Defesa da Rússia.

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