O legado de Darcy Ribeiro

Darcy Ribeiro não só pode ser colocado no rol dos maiores brasileiros de todos os tempos, como é responsável pelas fundações do que há de mais belo e profético quanto ao espírito brasileiro e a encarnação de seu grande destino. Hoje honramos sua vida, seu repouso e seu inestimável legado.

Há 99 anos, no dia 26 de outubro de 1922, nascia um dos maiores brasileiros de todos os tempos. Brasileiro pois, para além das mil faces de sua figura, seja como antropólogo, historiador, político ou militante, Darcy Ribeiro foi um dos maiores, se não o maior, e mais pungentes amantes do Brasil. Amor que se manifestou não apenas na sensibilidade e genialidade como intérprete de nossa história, mas também na paixão, na energia com que lutou pelos mais triviais e essenciais projetos e, acima de tudo, pela grandiosidade possível de nosso futuro.

E para compreender minimamente essa figura ímpar, é necessário desmistificar a ideia do intelectual isolado, no silêncio do repouso em sua torre de marfim, e tomar conhecimento de um homem que nunca renunciou perante a tarefa revolucionária de transformar o Brasil. E mesmo diante das polêmicas de uma personagem vulcânica – em constante erupção –, e em boa parte de sua vida estando em uma posição delicada enquanto figura pública e política, Darcy Ribeiro sempre deixou clara a sua posição irremediável de luta. Como disse o próprio:

“Nunca gostei de ser político, no fundo, o sou por razões éticas. Um poeta inglês, pode ser só poeta. Mas num país com o intestino à mostra como o Brasil, o intelectual tem a obrigação de tomar posição. Essa é uma briga séria, e eu estou na briga”

E justamente essa posição de “homem de fé e de partido […] movido por razões éticas e por um fundo patriotismo” que Darcy Ribeiro sempre foi visto com desconfiança pelo establishment acadêmico. Desconfiança que hoje vemos não apenas com bons olhos, mas que também nos orgulhamos e tomamos como exemplo. Afinal, de que valeriam as mais complexas teorias se essas não forem acompanhadas por um desejo de transformação? E ao apreciarmos a trajetória de Darcy Ribeiro damos ainda um passo atrás nessa questão, afinal, ele foi um dos mais admiráveis intelectuais que percebeu a necessidade imediata e primeira de uma teoria que desse conta da singularidade brasileira. E tal percepção só foi possível a partir de sua trajetória política, em especial ao lado de Jango e Brizola, momentos antes do exílio forçado pelo golpe de 1964:

“Eu vinha de uma posição de muito poder no Brasil, estava tentando passar o Brasil a limpo, e nos derrubaram. Minha sensação de exilado era de que tinham me cortado as mãos e os pés, e eu me dizia ‘por que o Brasil não dá certo? Estava tão próximo de fazer transformações fundamentais, e por que fracassamos?’ Isso pra mim era uma perplexidade.”

Porém, essa perplexidade e o distanciamento forçado do Brasil, longe de se tornar em um melancólico abatimento, alimentam seu impulso e obsessão de compreender o Brasil. Consciente da complexidade e necessidade de uma teoria genuinamente brasileira, que desse conta de nossa singular formação enquanto povo – bem como das nossas possibilidades futuras –, Darcy Ribeiro interpretou de maneira revolucionária nossa história, nossa formação, e sobretudo nossas potencialidades enquanto civilização.

“No momento em que desabrochar as nossas tantas potencialidades, em que resolvermos problemas elementares, que todo mundo coma todo dia, que toda criança tenha uma escola, que se façam as reformas urbanas e rurais, pra que a terra seja acessível para quem trabalha, para que as cidades sejam as moradas dos homens. É nesse dia que irá florescer no mundo uma civilização diferente, que nunca ninguém viu […]”

E nesse breve texto, de maneira modesta, renunciando conscientemente em dissecar as milhares e valiosas contribuições políticas e intelectuais de Darcy Ribeiro, enfatizamos e reivindicamos sua mais bela e profética visão e desejo para o Brasil:

“Na verdade das coisas, o que somos é a Nova Roma. Uma Roma tardia e tropical. O Brasil é já a maior das nações neolatinas, pela magnitude populacional, e começa a sê-lo também por sua criatividade artística e cultural. Precisa agora sê-lo no domínio da tecnologia da futura civilização, para se fazer uma potência econômica, de progresso autossustentado. Estamos nos construindo na luta para florescer amanhã como uma nova civilização, mestiça e tropical, orgulhosa de si mesma. Mais alegre, porque mais sofrida. Melhor, porque incorpora em si mais humanidades. Mais generosa, porque aberta à convivência com todas as raças e todas as culturas e porque assentada na mais bela e luminosa província da Terra.”

Portanto, cabe a nós, dissidentes, quarto-teóricos, revolucionários, e, acima de tudo, brasileiros profundamente apaixonados por nossa pátria, honrar o legado e perseguir corajosamente os anseios que Darcy Ribeiro nutria para essa civilização que, apesar de todo o sofrimento de sua história e constituição, de seu presente perverso, carrega a potência de ser a mais bela, a mais grandiosa, a mais prodigiosa pátria já vista.
LIBERDADE, JUSTIÇA, REVOLUÇÃO!

Gabriel Zonta

Gabriel Zonta é professor de história e militante da NR-PR.

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