A guerra híbrida ocidental contra a Polônia

Rivais históricos, Polônia e Rússia se encontram, curiosamente, na mesma posição diante do Ocidente, depois que Varsóvia passou a estar sob constante pressão híbrida ocidental por seus valores conservadores e nacionalistas, um elemento similar na campanha de difamação ocidental contra a Rússia.

A agressão ideológica ocidental

Hoje em dia, Polônia e Rússia só são incluídas na mesma frase quando alguém discute sobre sua rivalidade histórica recentemente reavivada, particularmente sobre suas fronteiras compartilhadas entre Ucrânia e Belarus, mas eles se encontram também na mesma posição vis-a-vis o Ocidente. A pressão sobre a Polônia foi intensificada por uma campanha co-liderada por EUA e Aleamanha descrita apenas como uma guerra híbrida depois que os “aliados” alemães passaram a interferir nos assuntos domésticos poloneses, por causa dos valores conservadores e nacionalistas do Partido Lei e Justiça (PiS). A visão do partido e de seus compatriotas contrasta com os valores liberais e globalistas que Alemanha e EUA querem impor sobre as sociedades europeias, especialmente aqueles estados como a Polônia que continuam a abraçar valores opostos.

A surpresa do PiS

Esse desenvolvimento não é nada menos que um choque para o PiS, que ingenuamente pensava ser poupado dos nada convencionais atos de agressão, por seu papel de contenção aos avanços russos. Eu falei um pouco a respeito disso na minha recente análise sobre a “A intensificação da guerra híbrida dos EUA-Alemanha contra a Polônia”, onde chamo atenção para o repentino atraso do gasoduto báltico pelos aliados citados, o editoral sem precedentes do Washington Post em lobby contra os esforços do PiS de retomar controle de um órgão de comunicação antigovernamental controlado pelos EUA, e a confirmação oficial que Washington e Berlim assinaram um acordo com Moscou sobre o Nord Stream II que o governo em Varsóvia considera contrário aos seus interesses nacionais.

“O grande tabuleiro do poder”

Meu insight foi construído sobre análises anteriores mencionadas no artigo citado. Para resumir de forma concisa a situação geoestratégica que se desenvolve rapidamente, a administração de Biden surpreendentemente abraçou a política pragmática de Trump de encarar a Rússia sob a premissa de regular sua competição entre Grandes Potências na Eurásia (especificamente na Europa Central e Oriental) para eventualmente redirecionar boa parte de seu foco em “conter” a China, que as burocracias militares, diplomáticas e de inteligência (deep state) tratam como uma ameaça maior aos seus interesses estratégicos que a Rússia. Os interesses nacionais da Polônia como são compreendidos pelo PiS foram vendidos pelos alemães e ianques para perseguir seus interesses mais amplos no grande tabuleiro do poder.

Tusk pode superar Kaczynski?

Já é ruim o bastante para a Polônia que a visão de liderança energética regional imaginada esteja em perigo por conta do acordo trilateral entre EUA-Alemanha-Rússia sobre o Nord Stream II, que Varsóvia suspeita poder ter implicações estratégicas a longo prazo, relacionadas com sua potencialmente crescente dependência da energia fornecida pela Rússia através da Alemanha, o fato de os EUA e a Alemanha estarem apoiando conjuntamente os planos de mudança de regime da oposição contra o PiS torna tudo pior. O retorno de Donald Tusk para liderar a Plataforma Cívica (PO) na Polônia marca um avanço sem precedentes na Guerra Híbrida e que não provém de considerações geopolíticas, já que o a PO e o PiS compartilham o apoio à aliança militar anti-Rússia com os EUA, mas de considerações ideológicas, sobre os elementos nacionalistas e conservadores do partido do governo.

Substituindo o PiS

Talvez existissem suspeitas polonesas sobre a venda dos interesses energéticos de seus aliados para a Rússia, mas é duvidoso que pensassem na união deles para derrubar seu governo através de uma Revolução Colorida. O PiS certamente jamais se preparou para este cenário pois estava convencido da segurança contra seus esquemas, em virtude da sua posição de baluarte militar contra a Rússia. O que Kaczynski não calculou, é que o PiS pode ser facilmente substituído pela PO em relação à questão militar. De fato, a PO é provavelmente ainda mais atrativa aos EUA e a Alemanha nesse momento, já que as duas potências compartilham da visão globalista e liberal de Tusk, que eles também querem impor sobre o resto dos poloneses, atualmente bastante divididos ideologicamente.

A facada dupla

O PiS não deu a devida atenção à Guerra Híbrida ianque-germânica, apesar dos óbvios sinais de alerta desde o momento que Biden assumiu o gabinete, e ainda se recusa a reconhecer a realidade “politicamente incorreta” de seus aliados, traindo o principal aliado militar contra a Rússia, por razões ideológicas. A negação de Kaczynski a esse estado objetivo de relações estratégicas está acelerando a erosão dos interesses sociopolíticos do partido diante das eleições em 2023, que poderão marcar a derrocada do partido se as tendências não forem revertidas. A queda do PiS concluiria o domínio da Alemanha sobre a ECO (Europa Central e Oriental) ao derrubar a força mais influente da região por conta de seus ideais conservadores e nacionalistas, garantindo a hegemonia da visão liberal e globalista sobre as últimas sociedades tradicionais da Europa.

Explorando a russofobia de Kaczynski

O ódio pessoal de Kaczysnki pela Rússia (que ele acredita ser secretamente responsável pelo acidente aéreo de Smolensk, em 2010, que matou seu irmão, presidente momentâneo na ocasião, assim como dezenas de oficiais poloneses) foi sabiamente manipulado pelos EUA e a Alemanha para distraí-lo de sua cruzada ideologicamente incipiente contra o PiS. Kaczynski foi ludibriado por achar que seus “aliados” também compartilhavam da sua desconfiança pelos russos por questões geopolíticas, quando a realidade pode muito bem ser muito mais ideológica, conforme argumentei em análise de 2020, chamada “Um novo muro para uma nova Guerra Fria?”. O trauma histórico polonês sobre a Rússia, especialmente o trauma particular de Kaczynski, foi explorado para convencer a Polônia de que estavam todos do mesmo lado, contra os russos.

A Polônia é o principal inimigo ideológico do Ocidente, não a Rússia

Na realidade, sabemos que o “deep state” ianque (que só esteve distante do apoio ideológico liberal e globalista durante o governo Trump) e a Alemanha estiveram secretamente unidos em sua oposição ao PiS, que eles enxergam ideologicamente na mesma posição que a Rússia, apesar das diferenças histórico-culturais implicadas. Não obstante, aos olhos ianques e alemães, o PiS é tão problemático quanto a “Rússia de Putin”, se não mais, já que faz parte da União Europeia e pode, desse modo, atrasar a cruzada ideológica da Alemanha sobre o resto dos países europeus que ainda não se submeteram ao seu padrão.

A conquista planejada da ECO pela Alemanha

A Polônia é o líder ideológico, demográfico e econômico do espaço geoestratégico da ECO, e enquanto o PiS estiver no poder, a concentração ideológica deverá permanecer forte através do recentemente estabelecido Collegium Intermarium. Sobre essa iniciativa educacional, ela visa promover os valores nacionais e consevadores ao longo da região através da Iniciativa dos Três Mares (3SI) liderada pela Polônia. Isso provavelmente representa a maior ameaça ideológica do século para as ambições ianques e alemãs sobre a ECO, já que eles temem, com razão, que a Polônia tenha tido sucesso em adentrar o zeitgeist regional e possa em breve moldar a situação de tal modo que o controle sociopolítico ocidental na região será perdido. Por essa razão, o PiS deve ser deposto e a 3SI sequestrada pela Alemanha, para demovê-la de sua dimensão ideológica e transformá-la numa plataforma de domínio econômico alemão.

Soluções geopolíticas e econômicas propostas

Eu previamente propus uma solução geopolítica e geoeconômica em duas partes para aliviar a pressão Ocidental sobre a Polônia, permitindo-lhes empurrar as ameaças híbridas ocidentais de forma mais confiante. Em duas peças recentes, propus um pacto de não-agressão entre Rússia e Polônia sobre Belarus e Ucrânia, e que a Polônia usasse a China como forma de balancear as relações com os EUA. Elas deviam ser lidas pelos patriotas poloneses que sinceramente aspiram a ajudar sua terra natal no combate imposto pelos seus “aliados” nominais. Reduzir a tensão geopolítica com a Rússia em Belarus e na Ucrânia permitiria aos estrategistas poloneses uma maior concentração nas questões internas urgentes, ao mesmo tempo que uma aliança econômica com a China mostraria ao Ocidente quão seriamente a Polônia lida com o balanço dos poderes mundiais.

A necessidade urgente de “Soberania Cultural”

Há um terceiro componente que não discuti previamente mas que pode ser a parte mais importante de qualquer solução compreensível para o impasse polonês. É a necessidade de considerar seriamente a promulgação de uma política oficial sobre “soberania cultural”, modelada na política recentemente promovida na Rússia em sua nova Estratégia de Segurança Nacional. Afinal, o raiz do problema é que EUA e Alemanha manipularam com sucesso a mente de milhões de poloneses ao longo dos anos, através de campanhas de informação e ONGs, tomando vantagem das obrigações do país para com a UE. A história polonesa foi manipulada para reduzir o orgulho nacional, o que tornou o povo mais suscetível às sugestões perniciosas de transformação radical.

“Homo Europaeus”

O propósito implicado nesta guerra híbrida silenciosa é o de gradualmente cultivar o chamado Homo Europaeus modelado no predecessor Homo Sovieticus, que facilitaria a substituição do conservadorismo nacional pelo liberalismo global através de processos “democráticos”, depois de garantida a maioria do eleitorado. O fim aqui é apagar da Europa a ideia de identidade nacional, especificamente manifesta na cultura e na história, para produzir uma massa amorfa de homo europeaus idênticos, submetidos à autoridade transnacional ilegítima de Bruxelas. Esse cenário é um meio ideológico para o fim geopolítico de hegemonia alemã sobre a Europa, que o “deep state” ianque apoia com seu estratagema de liderança atrás das cortinas, delegando responsabilidades de liderança regional para aliados-chave, como Berlim.

Kaczynski passou dos limites na sua política russofóbica?

A Polônia acerta ao se considerar o aliado ianque para conter militarmente a Rússia na ECO, mas o PiS erraram ao considerarem-se insubstituíveis por causa da russofobia infame de seu líder in facto. Esse foi seu erro, já que agora é aparente o quanto os EUA quer substituí-lo por Tusk, apoiado pela Alemanha, semelhante em suas políticas geopolíticas e mais “moderado” dadas as circunstâncias que evoluem na “Nova Detente” EUA-Alemanha-Rússia, ativamente negociada entre seus líderes através de concessões mútuas ao longo do tabuleiro eurasiano. Em retrospecto, o PiS era muito anti-russo para seu próprio bem, já que não se preparou para mudanças geoestratégicas que tornariam suas políticas contraproducentes para os alemães e ianques.

A Guerra Híbrida na Polônia vem sendo armada há muitos anos

Entretanto, se o PiS fosse um partido liberal e globalista, ninguém pensaria em substituí-lo com uma revolução colorida. O partida poderia simplesmente ser pressionado a mudar suas políticas “moderadas” no avanço dos interesses regionais dos aliados com a Rússia e isso seria tudo, mas seus valores conservadores são agora a maior ameaça aos EUA e Alemanha sobre o controle da ECO. É por isso que o PiS deve ser derrubado, o que foi preparado anos atrás com uma fase silenciosa da guerra híbrida em organizar uma guerra de informação e ONGs para gradualmente manipular a mente do eleitorado polonês em seu longo esquema de transformação ideológica dos poloneses em homo europeaus. Faltou à Polônia um entendimento sério do que a Rússia agora considera oficialmente como “soberania cultural”, o que inadvertidamente facilitou todo o processo que levou à crise atual.

A última chance da Polônia

Por mais que a liderança do PiS odeie a Rússia, ambos tem muito em comum sobre a pressão que sofrem do Ocidente por razões ideológicas similares, no que tange sua proteção de valores conservadores que desafiam o liberalismo ianque-alemão. Esse conflito estratégico mútuo devia, no mínimo, ser utilizado para alimentar uma reaproximação em suas fronteiras bielorrussas e ucranianas, para que possam se concentrar mais ativamente nas ameaças ideológicas internas à sua liderança. Em paralelo, a Polônia deve abraçar a China economicamente para mostrar ao Ocidente que possui alternativas viáveis a longo prazo enquanto consideram seriamente promulgar uma decisiva política de “soberania cultural” modelada a partir da russa. Não há outra maneira dos poloneses sobreviverem a essa investida de guerra híbrida, assim como prevenir a formação do homo europeaus.

Será o “Cristo das Nações” crucificado outra vez?

Dito isto, preciso ser muito claro dizendo que não há nada de errado em princípio com a união militar entre a Polônia e os EUA, aliança econômica com a Alemanha, e com a ajuda europeia, já que tudo isso contribui com os interesses nacionais conforme sua liderança os compreende. O problema é que eles não devem se aliar cultural e ideologicamente, onde eles cederiam a própria identidade de seu povo e perderiam a própria identidade polonesa, erradicada da consciência europeia. Isso seria muito pior que o desaparecimento geopolítico como no passado, porque a única razão para a volta do “Cristo das Nações” dos mortos foi sua constante lembrança do que é ser polonês e nunca deixar ninguém tirar isso deles. A tragédia atual é que, enquanto a Polônia continuar existindo geopoliticamente, a ideia de uma identidade polonesa desaparece na própria Polônia.

A Polônia é, mais uma vez, o pivô da história ocidental

A contínua existência geopolítica da Polônia sob essas circunstâncias seria simplesmente como uma unidade administrativa temporária controlada por Bruxelas (liderada por Berlim) antes de seu desmantelamento inevitável como todas as nações europeias em diferentes regiões, para facilitar o processo de dividir e conquistar alemão no continente, a chamada “federação de regiões”. A única coisa no caminho deste futuro sombrio é a Polônia, que pode ser objetivamente descrita nesse contexto estratégico sob o conceito bíblico de “katechon”, que acorrenta as forças do caos. A queda do PiS diante da guerra híbrida ianque e alemã seria o fim do nacionalismo conservador europeu, e baluarte da conquista continental dos alemães. Dramático como possa parecer, a Polônia é, mais uma vez, pivô da história europeia como em 1939, mas dessa vez ela pode se proteger apropriadamente.

Fonte: One World
Tradução: Augusto Fleck

Andrew Korybko

Analista político e jornalista do Sputnik, é também autor do livro <em>"Guerras Híbridas"</em>.

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