Precisamos falar sobre a Operação Alsos Soviética e a Operação Osoaviakhim

Os americanos e os os soviéticos não eram nazistas por capturar cientistas e técnicos alemães. Eram potências interessadas em se apropriar do know-how alemão para conseguir vantagens sobre seu rival na Guerra Fria que se iniciava.

Eu não consigo aguentar o analfabetismo funcional e histórico do usuário médio de internet, especialmente do esquerdeiro.

Toda vez que se fala no programa espacial estadunidense, se fala na Operação Paperclip e no Werner von Braun. O objetivo aí é trabalhar com “culpa por associação” (o artifício dos burros) para traçar uma conexão entre nazismo e EUA.
“hehehe os americanos salvaram os nazistas e levaram pros EUA hehekkkk tá vendo?”

Está na hora de começarmos a falar na Operação Alsos Soviética e na Operação Osoaviakhim.

O objetivo era transferir equipamento, recursos e pessoal de instalações nucleares e militares das partes da Alemanha conquistadas pela URSS, com o objetivo de contribuir para o avanço do programa nuclear soviético.

Membros do Laboratório 2, sob orientação de Beria, acompanhavam o avanço do Exército Vermelho nos calcanhares das tropas. Os cientistas soviéticos tinham pressa porque cientistas americanos também seguiam o avanço do Exército Americano. O prêmio principal que os soviéticos queriam em Berlim era o Instituto Kaiser Wilhelm, mas ele havia sido transferido para a Floresta Negra, que acabou se tornando parte da zona de ocupação francesa.

Não obstante, em 1945 mesmo, ainda antes do fim da guerra, Manfred von Ardenne, grande eletrofísico, Gustav Herz, diretor de pesquisa da Siemens, Peter Thiessen, diretor do Instituto Kaiser Wilhelm de Química e Eletroquímica (e membro de carteirinha do NSDAP) e Max Volmer, diretor do Instituto de Físico-Química da Escola Superior Técnica de Berlim, se ofereceram para ir trabalhar de livre e espontânea vontade para a URSS e foram recebidos de braços abertos pelo governo soviético.

No mesmo período foram levados para a URSS também Nikolaus Riehl e Karl Zimmer, para trabalhar com pesquisa e produção de urânio. Além desses vários outros cientistas e técnicos alemães foram levados para a URSS na Operação Alsos Soviética. No total, em 1946 havia 300 “nazistas” trabalhando no projeto nuclear soviético.

Ainda maior foi a Operação Osoaviakhim, que levou mais de 2 mil cientistas e técnicos “nazistas”, com suas famílias, para a URSS, para trabalharem tanto no programa nuclear, como no programa de foguetes (precursor do programa espacial soviético), e outros campos de pesquisa. Todos conhecem Werner von Braun, fundamental para o programa espacial americano, mas as pessoas se esquecem de Helmut Gröttrup, cientista do projeto alemão V-2, colaborador de Werner von Braun, e pai do programa espacial soviético, sendo o chefe dos cientistas que trabalhavam no programa.

O Vostok 1, de Gagarin, por exemplo, foi todo baseado em um projeto dos cientistas alemães.
Além de Gröttrup, foram levados para a URSS também Friedrich Asinger (químico), Erich Apel (engenheiro de foguetes), Brunolf Baade (engenheiro aeronáutico), Ferdinand Brandner (designer aeroespacial e oficial da SS), e outros pioneiros e gênios do setor aeronáutico e aeroespacial, muitos deles ligados à Luftwaffe.

Os americanos não eram nazistas por capturar cientistas e técnicos alemães, tal como os soviéticos não eram nazistas. Eram potências interessadas em se apropriar do know-how alemão para conseguir vantagens sobre seu rival na Guerra Fria que se iniciava. Salvem esse texto para jogar na cara, na próxima vez que um doente tentar “moralizar” o programa espacial americano pelo uso de cientistas alemães.

Raphael Machado

Advogado, ativista, tradutor, membro fundador e coordenador-geral Nova Resistência, é um dos principais divulgadores do pensamento e obra de Aleksandr Dugin e de temas relacionados a Quarta Teoria Política no Brasil.

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