Não existe Partido Militar

Existe ‘partido militar’ ou existem ‘partidos’, incluindo aqueles generais que pensam que o Exército não deve ter partido nenhum?

Sempre que cito possíveis cálculos políticos ou estratégias do grupo de generais que aderiu ao governo Bolsonaro, surge alguém com o queixo caído por não encontrar nas minhas postagens nenhuma menção ao tal ‘partido militar’, tal como pensado por muitos militantes e supostos analistas da esquerda.

Segundo essa perspectiva, o [des]governo é um ‘regime militar’ disfarçado. Os generais palacianos não representam uma ala dentro do Exército: eles seriam a prova de que todo o Alto Comando, e talvez todo o alto oficialato, é bozólouco, entreguista e trabalha para a CIA.

É uma opinião que está no nível da crença na Fada do Dente. Mas é desse modo que boa parte da esquerda pinta a cúpula das Forças Armadas: como um bloco monolítico motivado por questões de classe [e por isso representante das altas burguesias] e que obedecem a um elo de comando cujo ápice está em Washington. Esse bloco não teria qualquer divergência interna relevante. Todos estão unidos na mesma posição político-ideológica, estratégia e práxis.

Boa parte da esquerda, com péssima formação em História e Ciências Humanas, enxerga dessa mesma maneira o regime civil-militar estabelecido em 1964. Primeiro, seria uma obra principalmente de militares, que se impuseram a uma sociedade civil e política francamente democrática. Segundo, obra da totalidade dos generais, todos eles pró-americanos e liberais.

Todas essas opiniões fantasiosas não resistem ao mínimo estudo. É verdade que, como corporação, as Forças Armadas, e especificamente o Exército, têm seus próprios valores, perspectivas e métodos de interação com o restante da sociedade. Mas nunca houve qualquer unidade ideológica ou política no seio delas. Nem mesmo se recortarmos o oficialato superior. Todas as ”aventuras” dos militares no poder implicaram em ”quedas de braço” internas, rachas e, depois, retaliação dos derrotados. Até mesmo as eleições no Clube Militar, nos anos 1950, tinham por consequência expurgos.

Não vou me alongar, porque toda pessoa razoavelmente bem informada sabe que o golpe de 1964 foi a vitória de uma ala de generais sobre outras posições dentro da Força. E que levou a perseguições dentro da corporação militar. E que mesmo no decorrer do regime ocorreram rachas sobre temas bastante fundamentais. A abertura política [que alguns gostam de chamar de ”liberalização do regime”] foi obra de uma corrente específica, que no momento era dominante mas que sofreu intensa resistência.

Saber disso é bê-a-bá pra entender a atuação política dos militares no Brasil.

Algo similar ocorre no governo Bolsonaro. Em determinado momento, uma ala de generais, com forte peso do grupo que participara da ocupação do Haiti, decidiu usar Bolsonaro para fazer com que as politicas públicas voltassem a ser pautadas por uma determinada ótica militar [com uma mistura de desenvolvimentismo, segurança nacional, anticomunismo etc.]. Esse grupo não representa as FAs como um todo e participou do governo como generais da reserva. Houve racha dentro desse conjunto de ‘aventureiros’, alguns dos quais se arrependeram publicamente da participação no [des]governo: Está aí o general Santos Cruz que não me deixa mentir. Outro sinal de racha é o asco que o general Ramos tomou de Pazuzu.

Houve também distanciamento entre esse grupo de generais da reserva e outros da ativa, que sempre olharam com ceticismo essa aproximação com Bolsonaro. Não é por outra razão, por exemplo, que Bolsonaro tirou Pujol do Comando do Exército, já que ele era uma pedra em seu caminho. Pra quê mudar os Comandantes, gerando crise com os militares, se todo o generalato é bozólouco e doido pra cumprir as ordens do Planalto, como no delírio esquerdeiro? A resposta passa pela aceitação do óbvio: a existência de divergências fundamentais no interior das Forças Armadas.
‘Partido militar’ só faz referência a uma realidade bem mais restrita do que alguns pretendem abarcar com o conceito: a existência de correntes, de alas, dentro da própria corporação. Não existe ‘partido militar’, e sim ‘partidos’, incluindo aqueles generais que pensam que o Exército não deve ter partido nenhum.

Alguns políticos percebem isso muito bem, e não por outra coisa Ciro Gomes faz a distinção entre um ‘Exército de Caxias’ e a turma abobada que caiu no conto do vigário bozólouco, que agora não sabe como sair da enrascada em que se meteu.

Porque é óbvio que eles se desiludiram em algum grau e em algum nível, percebendo que não conseguiriam tutelar o [des]governo. Evidente que eles sabem que o Reino fez água e que correm o risco de morrerem afogados na medida em que a popularidade de Bolsonaro desce a ladeira e surgem escândalos de corrupção que envolvem oficiais que participam dos Ministérios e Secretarias. Claro que toda essa situação acentua ainda mais a própria divergência interna, com generais apontando para colegas e lançando um severo, ”eu te disse!”

Eis aí o momento do grupo de generais de pijama que achou que podia ‘pautar’ o governo Bolsonaro e o Brasil.

André Luiz dos Reis

Historiador, mestrando em História pela UFRJ, cristão ortodoxo e membro da NR-RJ.

 

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