Global Trends 2040: O Relatório da Inteligência Americana para o Futuro

Os órgãos de inteligência dos EUA prepararam um relatório estratégico chamado “Global Trends 2040” (Tendências Globais 2040). O objetivo é mapear cenários geopolíticos possíveis dos próximos 20 anos e sugerir planos e medidas para que os EUA reajam de acordo e preservam os seus interesses globais. Estudar esse documento é fundamental porque ele constitui um rascunho dos projetos geopolíticos estadunidenses para o futuro e lança luz sobre os seus objetivos.

A cada quatro anos, os analistas da comunidade de inteligência dos EUA tentam prever o que vai acontecer nos próximos 20 anos. Embora ocorram regularmente eventos que mostram como é difícil fazer previsões mesmo para os próximos cinco anos (estou falando de previsões, não de planos), a comunidade de inteligência dos EUA continua elaborando estes relatórios usando um modelo fixo.

No resumo do relatório divulgado em março, ela observa que a demografia será o principal fator que influenciará os processos geopolíticos em todo o mundo. Ele afirma: “As tendências mais certas durante os próximos 20 anos serão as grandes mudanças demográficas à medida que o crescimento da população global diminuir e o mundo envelhecer rapidamente. Algumas economias desenvolvidas e emergentes, inclusive na Europa e no Leste Asiático, envelhecerão mais rapidamente e enfrentarão populações em contração, pesando no crescimento econômico. Em contraste, alguns países em desenvolvimento da América Latina, Sul da Ásia, Oriente Médio e Norte da África se beneficiam de maiores populações em idade de trabalhar, oferecendo oportunidades para um dividendo demográfico se aliado a melhorias na infraestrutura e nas habilidades. O desenvolvimento humano, incluindo saúde, educação e prosperidade doméstica, tem feito melhorias históricas em todas as regiões durante as últimas décadas. Muitos países lutarão para construir e até mesmo sustentar esses sucessos. As melhorias passadas concentraram-se nos princípios básicos de saúde, educação e redução da pobreza, mas os próximos níveis de desenvolvimento são mais difíceis e enfrentam ventos de proa da pandemia COVID-19, um crescimento econômico global potencialmente mais lento, o envelhecimento da população e os efeitos dos conflitos e do clima. Estes fatores desafiarão os governos que procuram fornecer a educação e a infraestrutura necessárias para melhorar a produtividade de sua crescente classe média urbana em uma economia do século 21. À medida que alguns países enfrentarem esses desafios e outros ficarem aquém das expectativas, a mudança das tendências demográficas globais quase certamente agravará as disparidades nas oportunidades econômicas dentro e entre países durante as próximas duas décadas, além de criar mais pressão e disputas sobre a migração”.

A pandemia do coronavírus é considerada separadamente e recebe sua própria seção. De acordo com os autores, ela criou novas incertezas sobre economia, governo e tecnologia, e suas consequências continuarão a ser sentidas nos próximos anos.

O resumo também aponta que os relatórios anteriores da comunidade de inteligência previam o potencial para novas doenças e cenários pandêmicos, mas não forneceram um quadro completo do que a propagação da COVID-19 poderia causar e sua influência na sociedade.

De modo geral, a pandemia tem levado às seguintes tendências:

  • a catálise das tendências econômicas devido aos lockdowns e fechamentos de fronteiras;
  • um aumento do nacionalismo e da polarização;
  • um aprofundamento da desigualdade;
  • um declínio na confiança nos governos;
  • a exposição de fraquezas e inabilidades em organizações internacionais como a ONU e a OMS; e
  • um aumento do número de atores não estatais.

Como resultado, afirma que “[neste mundo mais contestado, as comunidades estão cada vez mais fracturadas à medida que as pessoas buscam segurança com grupos semelhantes baseados em identidades estabelecidas e recentemente proeminentes; Estados de todos os tipos e em todas as regiões estão lutando para atender às necessidades e expectativas de populações mais conectadas, mais urbanas e mais capacitadas; e o sistema internacional é mais competitivo – moldado em parte pelos desafios de uma China em ascensão – e com maior risco de conflito à medida que estados e atores não-estatais exploram novas fontes de poder e corroem normas e instituições de longa data que têm proporcionado alguma estabilidade nas últimas décadas. Estas dinâmicas não são fixadas perpetuamente, no entanto, e vislumbramos uma variedade de cenários plausíveis para o mundo de 2040 – desde um renascimento democrático até uma transformação na cooperação global estimulada pela tragédia compartilhada – dependendo de como estas dinâmicas interagem e de escolhas humanas ao longo do caminho”.

Os autores conseguem reduzir seus cenários futuros a cinco temas. Os desafios globais, desde as mudanças climáticas e doenças até crises financeiras e perturbações tecnológicas, acontecerão com mais freqüência e intensidade em todas as regiões e países do mundo. O aumento contínuo da migração, que aumentou em 100 milhões em 2020 em comparação com 2000, terá um impacto tanto nos países de origem quanto nos países de destino. Os sistemas de segurança nacional dos países serão forçados a se adaptar a essas mudanças.

A crescente fragmentação afetará as comunidades, os Estados e o sistema internacional. Apesar de o mundo estar mais conectado através do uso da tecnologia de comunicação, as pessoas serão divididas ao longo de diferentes linhas. O principal critério será uma comunhão de pontos de vista e crenças, e uma compreensão compartilhada da verdade.

Isto levará a um desequilíbrio. O sistema internacional não terá o poder para responder a estes desafios. Haverá uma divisão crescente dentro dos Estados entre as demandas do povo e as capacidades dos governos e das corporações. As pessoas tomarão as ruas do mundo inteiro – de Beirute a Bruxelas e Bogotá.

As disputas dentro das comunidades se intensificarão, levando ao aumento das tensões. A política dentro dos estados se tornará mais polêmica. Na política mundial, a China desafiará os EUA e o sistema internacional liderado pelo Ocidente.

A adaptação será um imperativo e uma fonte chave de vantagem para todos os atores do mundo. Da tecnologia às políticas demográficas, tudo será usado como estratégias para melhorar a eficiência econômica, e os países mais bem-sucedidos serão aqueles que conseguiram construir o consenso e a confiança da sociedade.

Portanto, os autores sugerem prestar atenção aos desenvolvimentos demográficos, ambientais, econômicos e tecnológicos, já que estes determinarão os contornos de nosso mundo futuro. A urbanização continuará e, até 2040, dois terços da população mundial viverá em cidades. O número de cidades com uma população de mais de um milhão de habitantes também aumentará. A urbanização não significará uma melhor qualidade de vida. A África Subsaariana e o Sul da Ásia serão responsáveis por cerca de metade e um terço, respectivamente, do aumento da população urbana pobre.

Em geral, as questões de pobreza que a ONU prometeu resolver há 20 anos (com seus Objetivos de Desenvolvimento do Milênio e seus Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, por exemplo) não só permanecerão como também se agravarão. Haverá um acesso reduzido à educação, saúde, moradia, etc., e as necessidades básicas aumentarão.

Na seção sobre a dinâmica do sistema internacional, é dada especial atenção à rivalidade entre a China e os EUA, os dois países que terão maior influência e ocuparão lados opostos da futura ordem mundial. Sua rivalidade não será a mesma que existiu no mundo bipolar da URSS e dos EUA, no entanto, porque agora há um número maior de atores capazes de defender seus próprios interesses, especialmente em suas próprias regiões. Os países listados como mais propensos a colher benefícios geopolíticos e econômicos são a UE, Índia, Japão, Rússia e Reino Unido, enquanto a Coréia do Norte e o Irã são referidos como “sabotadores” que, ao defenderem seus interesses, trarão maior incerteza e volatilidade. Também observa: “A China e a Rússia provavelmente tentarão continuar visando o público interno nos Estados Unidos e na Europa, promovendo narrativas sobre o declínio e o alcance excessivo do Ocidente. É provável que elas também se expandam em outras regiões, por exemplo, na África, onde ambas já estiveram ativas”.

Curiosamente, Richard Haass, presidente do Conselho de Relações Exteriores (CFR), e seu colega professor Charles Kupchan publicaram recentemente um artigo que falava da necessidade de estabelecer um novo concerto de poderes que incluiria os EUA, a UE, o Japão, a Rússia e o Reino Unido. Eles até reconheceram abertamente o início da multipolaridade, que precisa ser gerenciada no interesse de todo o mundo.

Esta posição está alinhada com a da comunidade de inteligência dos EUA? Bem, sim, já que é de lá que o CFR recebe seus funcionários e também desempenha um papel ativo na formação da agenda política e científica nos EUA.

O relatório enumera a Austrália, Brasil, Indonésia, Irã, Nigéria, Arábia Saudita, Turquia e Emirados Árabes Unidos como as potências regionais que tentarão obter vantagens e assumir papéis onde possam influenciar a estabilidade regional.

Além dos Estados, ONGs, grupos religiosos, grandes empresas tecnológicas e outros atores não estatais também estarão ativos na arena internacional. Com os seus recursos, eles construirão e promoverão redes alternativas que, dependendo de suas funções e objetivos, competirão com ou ajudarão os estados.

Ao mesmo tempo, as organizações intergovernamentais globais que uma vez serviram para sustentar a ordem internacional liderada pelo Ocidente, incluindo a ONU, o Banco Mundial e a OMC, se desmoronarão. Os líderes dos países darão preferência a coalizões especiais e organizações regionais.

A liderança ocidental das organizações intergovernamentais também diminuirá à medida que a Rússia e a China minarem deliberadamente as iniciativas ocidentais, entre as quais os autores do relatório mencionam a Iniciativa Cinturão & Rota, a Organização de Cooperação de Shangai, o Novo Banco de Desenvolvimento e a Parceria Econômica Integral Regional.

Quanto a conflitos futuros, o risco de um conflito interestatal será maior do que antes, apesar do desejo das grandes potências de evitar uma guerra em larga escala, devido a novas tecnologias, uma gama crescente de alvos, um grande número de atores, dinâmicas mais complexas de dissuasão e normas cada vez mais enfraquecidas.

O espectro do conflito pode variar desde coerção econômica, operações cibernéticas (não cinéticas) e guerra híbrida, incluindo o uso de insurgentes, empresas privadas e procuradores armados, até o uso de forças armadas regulares e armas nucleares (convencionais e estratégicas).

O terrorismo não vai desaparecer, mas os autores do relatório mostram muito pouca imaginação e se limitam a conhecidos grupos jihadistas globais, grupos xiitas iranianos e libaneses, e grupos de extrema esquerda e direita na Europa, nos EUA e na América Latina.

Eventualmente, são apresentados cinco cenários. “Três dos cenários retratam futuros nos quais os desafios internacionais se tornam cada vez mais severos, e as interações são em grande parte definidas pela rivalidade EUA-China. Na Renascença das Democracias, os Estados Unidos lideram um ressurgimento das democracias. Em Um Mundo em Deriva, a China é o estado líder, mas não dominante globalmente, e em Coexistência Competitiva, os Estados Unidos e a China prosperam e competem pela liderança em um mundo bifurcado. Dois outros cenários retratam mudanças mais radicais. Ambos surgem de descontinuidades globais particularmente severas, e ambos desafiam suposições sobre o sistema global. A rivalidade EUA-China é menos central nestes cenários porque ambos os estados são forçados a enfrentar desafios globais maiores e mais severos e descobrem que as estruturas atuais não estão à altura destes desafios. Silos Separados retratam um mundo no qual a globalização se desmoronou e blocos econômicos e de segurança emergem para proteger os estados de ameaças crescentes. Tragédia e Mobilização é uma história de mudança revolucionária, de baixo para cima, no rastro de crises ambientais globais devastadoras”.

É claro que, além de tentar olhar para o futuro usando os dados disponíveis e estudando décadas anteriores, a comunidade de inteligência dos EUA tinha outros objetivos – 1) identificar ameaças específicas para que as autoridades americanas (e os parceiros de Washington) pudessem se concentrar nelas e alocar os recursos necessários para os terceirizados relevantes; e 2) demonizar certos países, ideologias e sistemas políticos.

Há uma preocupação notável com o colapso de um sistema internacional que atualmente beneficia o Ocidente. Se ocorressem mudanças sérias que reduzissem o papel dos EUA e da UE, isto seria visto positivamente pela maioria dos países. Enquanto os dois relatórios anteriores sobre as tendências globais falavam de multipolaridade, isso está subentendido neste relatório. É provavelmente devido à materialização gradual desta multipolaridade que os autores tentaram evitar a palavra e simplesmente se limitaram a mencionar alianças regionais em meio a uma desunião global.

Por outro lado, as previsões para 20 anos no futuro são questionáveis e mais reminiscentes da ficção científica do que da modelagem geopolítica.

O conhecido cientista americano Steve Fuller, por exemplo, observou vários pontos que negam a própria possibilidade de prever o futuro: 1) o futuro é essencialmente incognoscível porque ainda não existe, e só podemos saber o que existe; 2) o futuro será diferente do passado e do presente em todos os aspectos. Isto é possivelmente devido à incerteza da natureza, para a qual o livre arbítrio também contribui substancialmente; e 3) a interação entre as previsões e seus resultados é tão complexa que cada previsão gera conseqüências não intencionais que fazem mais mal do que bem.

Portanto, cada um pode tirar suas próprias conclusões a partir deste relatório, com base em suas opiniões e preferências pessoais.

Fonte: Oriental Review

Leonid Savin

Leonid Savin é escritor e analista geopolítico, sendo editor-chefe do Geopolitica.ru, editor-chefe do Journal of Eurasian Affairs, diretor administrativo do Movimento Eurasiano e membro da sociedade científico-militar do Ministério da Defesa da Rússia.

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