Há uma “nova” guerra no horizonte ucraniano

Por The Saker

Bastou Biden retomar o poder nos EUA para os democratas belicosos, e começar a destilar toda a peçanha ocidental de instabilidade e guerra, para que surgissem notícias de nova instabilidade na região de Donbass, na Ucrânia. Jamais apaziguada pelos supostos “Acordos de Minsk”, a região já vivia uma ansiedade quanto ao futuro e novos conflitos. Os sinais indicam que a hora chegou.

Apenas algumas semanas atrás eu escrevi uma coluna entitulada “The Ukraine’s Many Ticking Time Bombs”[1] no qual listei uma série de desenvolvimentos que apresentavam uma ameaça real à Ucrânia e, de fato, todos os países da região. Nesse curto período, a situação se deteriorou dramaticamente. Farei então uma breve recapitulação de tudo que está acontecendo.

Primeiro, o governo e parlamento ucranianos declararam o fim, para todos os efeitos, dos Acordos de Minsk. Verdade seja dita, esses acordos eram um natimorto, mas enquanto todos fingissem que ainda havia uma chance de solução negociada, serviam como um “retardante”. Agora que esse retardante está fora do jogo, a situação se tornou bem mais explosiva que antes.

[O problema com os acordos de Minsk trouxe à tona toda a vertiginosa hipocrisia Ocidental: embora a Rússia nunca tenha feito parte desses acordos (os russos assinaram como mediadores, e não parte), o Oeste escolheu culpar a Rússia por “não implementar” os acordos, apesar do fato de todos saberem que era responsabilidade da Ucrânia, que por sua vez, temerosa dos movimentos neonazistas, não pôde implementá-los. Esse tipo de hipocrisia “na sua cara” do Ocidente teve tremendo impacto no cenário político interno russo que, em troca, fortaleceu imensamente a posição daqueles que, na Rússia, não acreditavam numa solução negociada em primeiro lugar. Nesse sentido, os acordos representavam uma vitória gigantesca para o Kremlin, uma vez que forçaram o Ocidente a mostrar a totalidade de sua depravação.]

Em segundo lugar, é bastante óbvio que a administração “Biden” está carregada com os piores russofóbicos da era Obama: Nuland, Psaki, e o resto estão falando abertamente sobre aumentar o confronto com a Rússia. Até mesmo os novatos, digamos Ned Price, são russofóbicos claros e raivosos. O pessoal em Kiev imediatamente entendeu que seus bons e velhos mestres estavam de volta na Casa Branca e estão também adaptando sua linguagem a essa nova (bem, não realmente) realidade.

Por fim, e mais ameaçadores, são os sinais de movimentação de forças militares ucranianas pesadas em direção da linha de contato[2].

Além de tanques, temos relatos de outros equipamentos militares pesados, incluindo LMFS[3] e mísseis balísticos táticos, transportados para o Leste na direção da linha. Não é necessário dizer, o Estado-maior russo está acompanhando essa movimentação com muito cuidado, assim como serviços de inteligência da RPLD[4].

Isso tudo ocorre enquanto a popularidade de Zelensky está em queda livre. Na realidade, não só a dele. Pense bem: Biden fraudou a eleição americana e tem de lidar com 70 milhões de “deploráveis” enquanto líderes da UE enfrentam crises severas (imigração, crime, COVID, ideologia Woke, etc.). A verdade é que eles precisam desesperadamente de alguma “distração” para manter a opinião pública longe dos verdadeiros problemas enfrentados pela sociedade ocidental.

Que tipo de distração?

Fase um: o gatilho

É improvável que a Ucrânia simplesmente ataque o Donbass. Kiev precisa fixar a narrativa “nós somos a vítima de uma nação agressora”. No entanto, se o comportamento passado é bússola para o futuro, podemos perceber o cenário mais provável.

Lembram de como três embarcações da Marinha ucraniana tentaram forçar passagem sob a ponte da Crimeia? E os grupos terroristas que Kiev tentou infiltrar na mesma Crimeia? E, finalmente, existem vários ataques terroristas sendo executados por forças especiais ucranianas dentro da Nova Rússia[5]. A verdade é que os serviços especiais ucranianos (SBU[6] e militares) tem conduzido operações de distração e reconhecimento em Donbass, Crimeia e na própria Rússia.

Neste momento, os dois lados (Ucrânia e a RPLD) declararam oficialmente ter dado autorização para suas forças responderem quaisquer provocações ou fogo. Imagine o quão fácil é para qualquer lado organizar uma provocação, afirmar estar sob ataque e declarar que “precisamos nos defender do agressor”.

Portanto, o cenário mais provável é que ocorra algum tipo de provocação ucraniana seguida de “contra-ataque defensivo” pelos militares.

Fase dois: o ataque

Ao longo dos últimos anos, os militares ucranianos receberam assistência Ocidental considerável, seja em equipamentos/dinheiro ou treinamento. Ademais, em termos numéricos, a força militar ucraniana é muito maior que as forças combinadas da RPLD. Não obstante, seria um engano assumir que as forças de resistência estão sentadas sobre os louros sem trabalhar forte num salto qualitativo de suas capacidades.

O governo ucraniano trabalha em nova mobilização (muitas foram as ondas de mobilização no passado, nenhuma bem-sucedida), e considerando o caos no país, é improvável que tenha melhores resultados que as anteriores. Se queremos “contar feijões”, podemos dizer que Kiev poderia, teoricamente, mobilizar aproximadamente 300 mil soldados enquanto as forças da RPLD acumulam aproximadamente 30 mil soldados (forças em terra pré-mobilização). No entanto, devemos levar em consideração que as forças ucranianas são compostas em geral por recrutamento enquanto as forças ao Leste são 100% profissionais voluntários lutando por sua terra em defesa de suas famílias e amigos. Isso faz uma enorme diferença!

Além disso, como toda contagem de feijões, essa comparação numérica não é o ponto. O ponto é que as forças da RPLD são melhor treinadas, equipadas, comandadas e motivadas. Mais ainda, tiveram anos para se preparar contra um ataque dos ucranianos nazistas, de fato, ambos os lados na linha de contato estão agora pesadamente fortificados. Ainda sim, apesar de tudo, a RPLD sofre de uma grande fraqueza: ausência de profundidade estratégica (ou operacional). Pior, a cidade de Donetsk é literalmente a linha de frente.

Poderiam as forças ucranianas “forçar entrada” nas defesas da resistência? Eu diria que não é impossível, e “não impossível” é sério o bastante para justificar uma forte preparação das forças armadas Russas para intervir rapidamente e parar qualquer avanço ucraniano. Podem os militares Russos para um ataque desses?

Absolutamente. Primeiro, toda a área da RPLD está literalmente ao lado da fronteira Russa, o que significa que qualquer sistema de armas Russo pode não só “alcançar” as forças de resistência, mas atravessar a profundidade tática, operacional e estratégica ucraniana. A Rússia também pode posicionar uma “cúpula” Anti Access/Area Denial[7] sobre o território da RPLD usando uma mistura de defesa aérea e sistemas de guerra eletrônicos. Os foguetes e artilharia Russa podem ser usados não só como contrabateria, mas para destruir subunidades Ucranianas. Finalmente, as forças Russas na Crimeia e no Mar Negro também podem ser ativadas se necessário. Já em relação às forças de defesa costeira Russas (Bal e Bastion), elas podem “bloquear” o Mar Negro.

O maior problema para a Rússia é não poder agir sem engatilhar uma imensa crise política na Europa; apenas visualize o que tipos como Antony Blinken, Ned Price ou Jane Psake diriam sobre uma intervenção Russa! Lembre-se, esses foram os que imediatamente acusaram a Rússia de atacar a Georgia, não o contrário. Agora vivemos na era da “pós-verdade” e do “altamente provável”, não dos fatos.

Eu tenho dito por anos que o verdadeiro objetivo de um ataque ucraniano no Donbass não seria a reconquista da região, mas forçar a Rússia a intervir aberta e inegavelmente. Esse tem sido o sonho erótico dos Neocons desde 2014, e ainda é seu principal objetivo na Ucrânia. Então, como seria um contra-ataque Russo?

Fase três: a intervenção

Antes, deixe-me perguntar: Você sabia que quase 400 mil residentes da RPLD já possuem passaportes Russos? Isso é muito? Bem, a população total da região é de aproximadamente 3.7 milhões, então mais de 10%. Isso é crucial por duas razões: primeiro, você pode imaginar esses cidadãos Russos como uma espécie de armadilha: se uma quantidade suficiente deles for morta, Putin não tem outra escolha se não intervir e protegê-los e, de fato, Putin foi claro, inúmeras vezes, sobre a recusa Russa em deixar a Ucrânia se apropriar da Nova Rússia por força ou o massacre da população. Segundo, há muitos precedentes (na maioria, ocidentais) de uso militar para proteção de cidadãos. Exemplos incluem EUA em Granada e Panamá, Turcos no Chipre e na Síria, ou Franceses em muitos países Africanos.

Depois, em termos puramente militares, a Rússia possui armamento de apoio suficiente para quebrar e interromper qualquer ataque Ucraniano sem mandar forças em terra. Não só isso, mas a resposta Russa não precisa se limitar às linhas de frente – a Rússia pode facilmente atingir os Ucranianos em suas áreas estratégias e não há realmente nada que os Ucranianos possam fazer para impedir isso. Ainda sim, eu não acredito que o contra-ataque Russo se limitaria a apoio, principalmente pela necessidade de render as forças da RPLD na linha frente, exauridas pela difícil operação defensiva. Em outras palavras, dessa vez a Rússia nem perderá tempo negando seu envolvimento; a essa altura, seria fútil e contraproducente.

O ocidente ama conceitos como “responsabilidade de proteger”? Ótimo! Então a Rússia também pode usá-lo.

É claro, não sou ingênuo ao ponto de acreditar que qualquer um no Ocidente será persuadido por noções de justiça ou precedente. Mas o Kremlin usará este argumento para educar o povo Russo sobre as intenções do Ocidente. Isso é especialmente útil para Putin em ano eleitoral (2021), e enfraquecerá mais ainda a oposição pró-ocidente (por razões óbvias) e até a oposição anti-ocidente “patriota” que não terá outra escolha se não apoiar totalmente a intervenção militar para salvar Donbass.

Fase quatro: a resposta

Eu não acredito por um único segundo que o Ocidente irá se voluntariar para o suicídio ou advogar uma intervenção militar na Ucrânia ou contra a Rússia. A OTAN é uma aliança militar “de mentirinha”. Na realidade, é um instrumento de controle europeu dos EUA. Sim, historicamente, o pretexto para a OTAN foi a suposta ameaça Soviética e, agora, Russa, mas a verdadeira razão para a existência da OTAN sempre foi o controle sobre o continente Europeu. Ninguém no Ocidente acredita que valha a pena arriscar uma guerra total contra a Russia por causa de uma intervenção (relativamente pequena) militar Russa no leste Ucraniano. No entanto, assim que a intervenção seja inegável (o Kremlin nem deverá se incomodar em negar!) a Nomenklatura transnacional imperial que governa o Império verá isso como uma oportunidade verdadeiramente histórica de criar uma imensa crise para enfraquecer a posição Russa na Europa e fortalecer imensamente o controle Americano no continente.

Todos vimos como os políticos ocidentais e as prostitutas da imprensa inventaram uma (falsa) intervenção Russa em Donbass e como ameaçaram “punir” a Rússia por “não implementar os acordos de Minsk”. Podemos apenas imaginar quão estridentes e histéricos esses gritos serão assim que a Rússia de fato intervier abertamente. Novamente, se comportamentos passados são uma bússola para o futuro, podemos seguramente afirmar que os políticos ocidentais farão o que sempre fazem: exacerbar e prolongar o conflito quanto puderem, mas sem atacar a Rússia diretamente. Esse é o propósito dos militares Ucranianos, são a bucha de canhão dos anglo-sionistas.

Fase quatro prime: possível resposta dos nazistas ucranianos

Pode acreditar: Zelensky e o resto dos palhaços no Rada[8] não são líderes militares. Na verdade, até mesmo os comandantes militares Ucranianos são de 3ª classe (os melhores, sumiram ou foram demitidos). A primeira preocupação de Kiev será evacuar os “consultores” ocidentais da área de operações e então se esconder com seu dinheiro. Com toda a correria e fadiga de batalha, além de toda a conversa sobre armas incríveis, os militares Ucranianos não resistirão como força organizada por mais de 48 horas. Como mencionei acima, a Rússia pode facilmente impor uma zona de exclusão aérea não só sobre a RPLD, mas sobre todo o leste Ucraniano. A Rússia também pode basicamente desligar a energia de todo o país. Essa é uma excelente razão para Putin ter declarado em 2018 que qualquer ataque Ucraniano sério ou provocação “terá sérias consequências para o estado Ucraniano como um todo”.

Ainda sim, seria extremamente perigoso simplesmente ignorar o potencial dos nazistas ucranianos de criar uma verdadeira dor de cabeça. Como?

Por exemplo, não seria demais para eles ameaçar um ataque contra o Grupo Operacional de Forças Russas na Transnístria. Essa é uma força pequena, longe da Rússia, cercada de vizinhos hostis. Lembrem-se que Tiraspol fica a mais ou menos 600 km a oeste de Donetsk! Não só isso, mas se a Moldóvia não faz parte da OTAN, a Romênia sim. Quanto à atual presidente da Moldávia, Maia Sandu, é uma mulher romena e anti-Rússia. Mas enquanto tudo isso é verdade, também acho importante lembrar de outro fato: Quixinau, a capital da Moldávia, fica somente a 300 km de distância da Península da Crimeia. Isso coloca a Moldávia no alcance direto das armas Russas e de forças móveis de reação rápida. Para os moldávios, qualquer ideia de ataque sobre o GOFR na Transnístria seria loucura, mas talvez preferível para um regime ucraniano nazista desesperado e louco, que não quer ser derrotado pela Rússia.

É claro, o regime de Kiev não tem autoridade, desde a “revolução da dignidade”. Todas as decisões são do Tio Shmuel[9] e seus lacaios em Kiev. Então a pergunta que devemos fazer é: alguém duvida dos loucos Neocons serem capazes de jogar o regime de Kiev no fogo para expandir seu conflito e forçar a Rússia a intervir na Transnístria?

Alguns comentadores no Ocidente, e uns poucos Russos, sugerem que o plano de “Biden” (supondo que tal coisa exista) seria ativar simultaneamente crises em diferentes localidades ao redor da Rússia: Donbass, mas também o Mar Negro e/ou Azov, Georgia, Bielorússia, Transnístria, Armênia, etc. O Império também pode decidir apoiar o plano de Hillary Clinton e impor uma zona de exclusão aérea sobre as forças Russas na Síria. Não tenho certeza se essa é uma grande ameaça para a Rússia no momento. Por exemplo, há uma boa razão para a Rússia ser dividida em distritos militares: em caso de guerra, cada distrito se torna uma frente independente que pode apoiar outras frentes autonomamente, assim como receber apoio em capacidades estratégicas dos militares Russos. Em outras palavras, a Rússia pode abordar várias crises grandes e simultâneas, até conflitos em estados vizinhos. Sobre a zona proposta por Clinton, considerando a inegável realidade que todas as bases do Comando Central dos Estados Unidos estão sob mira dupla (do Irã e da Rússia), é improvável que os EUA arrisquem uma ação tão perigosa.

[Eu estou perfeitamente ciente do fato de propagandistas anti-Rússia estarem tentando convencer-nos de que Rússia e Israel estão em conluio, ou que Putin e Netanyahu são melhores amigos. Eu já abordei essa bobagem diversas vezes e não vou me repetir. Direi apenas que a) As defesas aéreas Russas na Síria estão incumbidas de defender a força-tarefa Russa na Síria, e não o espaço aéreo Sírio. b) As defesas aéreas Sírias estão fazendo um trabalho excelente em derrubar mísseis israelenses Essas defesas estão forçando Israel a atacar alvos menos defendidos, e portanto, menos valiosos (como um alvo de fronteira entre Irã e a Síria). c) há relatos numerosos da Força Aérea Russa expulsando aeronaves Israelenses do espaço aéreo Sírio e, por último mas não menos importante, d) os ataques Israelenses são bons para a moral e propaganda (a “invencível” FDI), mas o ponto é que não fazem nenhuma diferença prática. No futuro próximo, espero escrever uma análise mostrando que esses rumores sobre a Rússia ter se vendido para Israel como sendo parte de uma psy-op dos EUA para enfraquecer Putin. Fiquem ligados.]

Por essas razões, eu acredito que o Império vai forçar a Ucrânia a entrar em confronto aberto com a Rússia, enquanto garantem que as forças americanas e da OTAN permaneçam longe da ação. De fato, de uma perspectiva da OTAN, assim que a Rússia oficialmente admitir que suas forças interviram para impedir o ataque Ucraniano, o principal objetivo do ataque terá sido conquistado: Toda a Europa acusará unanimemente a Rússia e Putin. Isso, por outro lado, resultará numa dramática deterioração da segurança na Ucrânia e no resto da Europa oriental. Uma nova “Guerra Fria” (com tons mais quentes) se tornará o fator determinante nas relações entre Ocidente e Oriente. Quanto à OTAN, ela reaquecerá o velho princípio de “deixar os russos de fora, os americanos dentro, e os alemães abaixo”.

Fase cinco: o pós-guerra

Reforçando, se podemos nos basear no passado para previsões, podemos esperar que os Russos façam algo muito parecido com os 5 dias de combate contra a Georgia apoiada pela OTAN em Agosto de 2008. Por exemplo, independente do ponto exato onde os militares Russos decidam parar (ao longo da linha de contato, ou total liberação da Donbass de forças ucranianas), essa guerra será curta (guerras longas são coisa do passado). A força militar Ucraniana será compreensivelmente destruída, mas as forças Russas não ocuparão as maiores cidades (assim como eles pararam antes de tomar Tbilisi em 2008). Como declarou um oficial da RPLD em 2015 “quanto mais longe formos, menos somos vistos como libertadores, e mais como ocupadores”. Ele está certo, mas há algo ainda mais importante: A Rússia simplesmente não pode bancar a reconstrução de uma Ucrânia quase totalmente desindustrializada. Não obstante a propaganda de seus curadores, a Ucrânia é um país falido, e tem sido por anos. E não há nada que a Rússia precise num estado falido. Absolutamente nada. A ÚLTIMA coisa que a Rússia precisa hoje é ser arrastada pelo esforço simultâneo de restaurar uma Ucrânia falida enquanto luta com todo o tipo de insurgências nacionalistas neonazistas.

Se eles tentarem se juntar à luta, então tanto a frota Ucraniana do Mar Negro quanto a sua força aérea simplesmente desaparecerão, mas a Rússia não lançará ataques anfíbios na costa Ucraniana.

Há quem, sobre bases históricas e morais, queira que a Rússia libere pelo menos o leste e sul (de Mariupol até Odessa) Ucranianos. Eu discordo categoricamente. É bonito falar “Venha Putin e restaure a ordem”, mas o povo Ucraniano deve libertar a si, e não esperar que a Rússia os liberte. Pesquisas de opinião na Rússia mostram que a maioria dos Russos se opõe categoricamente à guerra (ou ocupação prolongada) e eu não vejo sinais de ansiedade por libertação militar Russa no sul Ucraniano. Toda a idéia da Rússia desinfetar a Ucrânia da podridão nazista é um construto ideológico sem base na realidade[10]. Aqueles que ainda sonham com tanques Russos em Kiev ou Dnipropetrovsk serão fatalmente desapontados. Não vai acontecer.

Portanto, eu antecipo que o estado Ucraniano ainda existirá ao fim da guerra, ainda que muito enfraquecido. Ademais, é quase certo que se os militares Ucranianos atacarem a Nova Rússia, a Rússia repetirá o que fez em 2008 e reconhecerá a RPLD assim como algum tipo de programa com integração de longo prazo. Protestos e levantes civis são prováveis, não só no leste, mas também no sul e oeste da Ucrânia. É desnecessário dizer que a UE e OTAN enlouquecerão e outra “cortina” (talvez de “salo”[11]) dividirá novamente o continente Europeu, para o deleite da anglosfera. No fim do processo, a Ucrânia, ou Banderistão[12], será simplesmente partida em pedaços mais manejáveis que cederão sob a influência de vizinhos mais poderosos e bem organizados.

Quanto à Rússia, ela provavelmente se distanciará do Ocidente em completo asco, continuando o desenvolvimento do mundo multi-polar com a China e outros países da Zona B.

Conclusão: a volta desde o abismo, outra vez?

De fato, tudo dito acima são especulações minhas, ninguém realmente sabe se essa guerra acontecerá, e se acontecer, como acontecerá. Guerras estão entre os eventos mais imprevisíveis, já nos dizem todas as guerras perdidas por quem as iniciou. O que apresentei é um cenário possível dentre muitos outros. Da última vez que um ataque Ucraniano parecia ser iminente, bastou Putin falar sobre “graves consequências para o estado Ucraniano como um todo” para encerrar a escalada e convencer Kiev a recuar. Desta vez, os Russos não estão fazendo ameaças, mas isso é porque os Russos não acreditam em repetir ameaças, de qualquer forma.

No momento em que escrevo isso, ocorrem sérios embates entre as forças Ucranianas e os defensores da RPLD. Ambos usando armas pequenas, lançadores de granada e artilharia. De acordo com um blogueiro, suas fontes em Kiev dizem o seguinte:

Um tempo atrás, uma ordem veio do gabinete do velho e senil Biden pedindo o preparo das Forças Armadas para uma ofensiva a Donbass, mas na espera do sinal da Casa Branca. Ao mesmo tempo, essa fonte também disse que operações militares semelhantes serão conduzidas em países de interesse Russo, para defletir a atenção do público da Ucrânia e diminuir qualquer apoio a Donbass.”

Há muitos relatos como este no Telegram, incluindo comentaristas pró-Ucrânia espalhando rumores sobre mercenários Russos avistados na linha de frente ao leste de Mariupol. Já podemos dizer que a batalha informacional começou. Somente o tempo dirá se esta batalha ganhará contornos cinéticos ou não. Mas nesse momento, parecemos estar com todos os sistemas ligados.

Notas do Tradutor

1. Link para o texto: https://www.unz.com/tsaker/the-ukraines-many-ticking-time-bombs/

2. Aqui está um exemplo de um vídeo na cidade de Mariupol: https://www.youtube.com/watch?v=JSZRA0uKLes

3. Sigla para “Lançadores múltiplos de foguetes.

4. Sigla para “República Popular de Luhansk e Donetsk”. Geralmente tratadas como repúblicas separadas, o autor deu preferência para colocá-las em conjunto como representantes de uma mesma força revolucionária e de resistência.

5. A “Nova Rússia”, do cirílico Новороссия ou Novorossiya, é a confederação proclamada pelos movimentos de Luhansk e Donetsk relacionada aos territórios do Leste ucraniano que estão na guerra. Por vezes é um termo análogo às Repúblicas citadas anteriormente, assim como Donbass em geral.

6. Sigla para Sluzhba bezpeky Ukrayiny, ou Serviço de Segurança Ucraniano.

7. Sistemas bélicos utilizados para prevenir a ocupação ou passagem da força inimiga em alguma área particular de terra, água ou ar.

8. A Verkhovna Rada Ukraïny, “Conselho Supremo Ucraniano”, é o Parlamento Unicameral Ucraniano.

9. Tio Shmuel é uma brincadeira do autor combinando as expressões “Uncle Sam” referente aos EUA e a forma hebraica do nome Sam/Samuel, relacionando as forças políticas americanas e israelenses como uma coisa só.

10. o autor segue uma via de leitura geopolítica totalmente pragmática e correta. Mesmo compreendendo a força histórica e escatológica que o território ucraniano possui para os russos, ele entende que isso não será (pelo menos agora) uma verdadeira força motriz para as possíveis ações de intervenção do Kremlin.

11. “Salo” conforme a Wikipedia, trata-se de “uma preparação típica da culinária da Europa Oriental feita com o toucinho do dorso do porco, curado em salmoura ou com páprica, ou ainda fumado, muito popular para acompanhar vodka. […] O salo é tão popular na Ucrânia que uma fábrica de doces produziu como brincadeira, num 1º de Abril, um doce de chocolate recheado com uma pequena quantidade de banha a que chamaram ‘Salo vs. Chocolate'”.

12. Banderistão é uma denominação criada anteriormente pelo autor como alusão ao governo ucraniano, referente a Stepan Bandera, herói dos neonazistas responsáveis pelo Maidan.

Fonte: The Saker
Tradutor: Augusto Fleck

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