A ofensiva niilista e a teoria da Quarta Volta

Por Kevin Barrett

Dentre sua magnífica e vasta (em tamanho e robustez) obra, Dostoiévski compôs um dos romances proféticos mais intensos e complexos dos últimos séculos. Em Demônios, o russo ortodoxo identificou a raiz dos males modernos político-sociais em um niilismo anticrístico e virulento. Em verdade, seu acerto foi tamanho, que não só o autor soube identificar males que afligiriam a Rússia de seu tempo, mas o mundo inteiro. Kevin Barrett traça os danos e prognósticos desse Mal encarnado, no atual caos político-social estadunidense, fazendo uma análise paralela com a teoria da Quarta Volta, de Strauss e Howe.

“Estes são os novos nazis, Walter?” “Não, Donny, estes homens são niilistas, não há o que temer.” – O Grande Lebowski

Desde a tão falada ‘insurreição’ em 6 de Janeiro, as grandes mídias, governo e corporações têm cobrado o escalpelamento coletivo da alt-right trumpista. O pretexto: se não fizermos esses 70 milhões de eleitores do Trump sumirem, a democracia americana está condenada.

A alt-right concorda com a ameaça existencial à democracia americana, mas discorda vorazmente sobre a natureza dessa ameaça. Enquanto democratas e a mídia corporativa consideram o culto à personalidade de Trump um regime fascista em ascensão, e seus seguidores como storm-troopers, iludidos e não tão brilhantes, os deploráveis, por sua parte, veem esses democratas como fraudes eleitorais, amantes da censura e aficionados pela TDS (Trump Derangement Syndrome, ou Síndrome de Desvio Trumpista), dedicados ao estabelecimento de uma ditadura “woke”. [1]

O que isso tudo realmente quer dizer? O que estamos testemunhando é o enfrentamento entre ideologias crescentemente frenéticas, enquanto pouco coerentes – algo que a geração precedente jamais imaginou enquanto notoriamente proclamava o fim da ideologia. Parece que Francis Fukuyama nunca leu Dostoiévski. Se tivesse, teria compreendido que o colapso do grand récit moderno não leva à satisfação universal sob o neoliberalismo, mas ao extremismo ideológico, ao caos e derramamento de sangue.

Dostoiévski literalmente escreveu o manual do extremismo ideológico, suas causas e consequências. O livro é Demônios, [2] também conhecido em outras traduções como Os Demônios, ou Os Possessos. Penúltimo romance do autor, ele detalha o processo pelo qual pais e educadores liberais produzem jovens radicalizados e enlouquecidos pela ideologia, inclinados a destruir o mundo em que nasceram. Essa sede inextinguível pela destruição – chame de niilismo, se quiser – é o motor de todas as ideologias políticas pós-religiosas, sejam de esquerda ou direita. Socialismo, anarquismo, comunismo, fascismo, nazismo, “wokeismo”: todas compartilham de uma mal velada urgência em destruir a ordem social herdada, ostensivamente reconstruindo-a como uma forma nebulosa de paraíso na terra. Mas todos esses planos de reconstrução são pura fachada. O que vale é a destruição, e somente a destruição.

Dostoiévski havia originalmente visionado Demônios como uma polêmica política, mas o expandiu numa obra de arte polifônica durante o trabalho. Horrorizado pelas notícias do líder niilista Sergey Nechayev e sua orquestração de um assassinato político sem sentido, Dostoiévski decidiu ficcionalizar a história, na esperança de iluminar como os liberais sensíveis, polidos e bem-intencionados da década de 1840 pavimentaram o caminho para a geração de niilistas lunáticos de duas décadas mais tarde. (Hoje, podemos nos perguntar com a complacência neoliberal da geração passada, especialmente a margem acadêmica avant-garde, conseguiu parir a emergente geração woke de manifestantes hipócritas com máscaras anti-COVID, arruaceiros Antifa, canceladores, negacionistas de gênero, destruidores de estátuas, entre outros dedicados ao extermínio niilista da tradição humana e americana, se não da própria realidade).

Demônios, publicado entre 1871-1872, previu o surgimento de niilismos ainda piores – e desenvolvimentos futuros, incluindo a emergência do Bolchevismo e do Nazismo, parecem ter realizado suas profecias. Mas o que Dostoiévski antecipou foi mais um padrão do que eventos particulares: Pais liberais negligentes à educação religiosa de seus filhos, que então crescem e abraçam ideologias políticas radicais como pobres substitutos da fé e da vida espiritual. É por isso que a cultura Ocidental se aprisionou numa dinâmica oscilante entre o liberalismo e radicalismos niilistas por aproximadamente dois séculos, sem fim à vista. A única escapatória, sobre a qual Dostoiévski berrou do alto dos telhados, seria um retorno decisivo para a religião. Isso se parecia com uma quimera na década de 1870. Mas cem anos depois, o colapso do comunismo e o despertar islâmico restaurariam essa ideia como concebível.

A galeria de criminosos niilistas intelectuais dostoievskiana da década de 1860 inclui Nikolai Stavróguin, um infrator carismático de berço rico com predileção pela crueldade e atos de choque gratuitos que incluíam pedofilia e outros experimentos dignos de ensinar uma coisa ou outra ao Marquês de Sade; Piotr Verkhovensky, um ativista voluvelmente falso e organizador dedicado a incendiar a sociedade “opressora”, no estilo BLM-Antifa; e Alexei Kirillov, que acreditava ser capaz de simultaneamente superar a fé em Deus e o medo da morte (dois lados da mesma moeda) através do suicídio. Finalmente, e talvez mais profeticamente, há o historiador Shigalov, que pode antever o futuro: “Procedendo de liberdade ilimitada eu termino com despotismo sem fim.”

O Dr. Frankenstein liberal responsável por gerar esses monstros intelectuais e demoníacos é representado no romance por Stiepan Verkhovensky, pai de Piotr e tutor de Stavróguin. Um autointitulado livre-pensador em cuja mente é também uma lenda e ameaça para o status quo, Stiepan é, na verdade, pateticamente ineficaz em sua devoção servil e menos que inútil às ideias modernas, ateístas e socialistas provenientes do Ocidente. Seus pupilos, a emergente geração de niilistas da década de 1860, irá, ao contrário de seu mestre, fazer ao menos um esforço real para viver as implicações dessas ideias – com trágicas consequências.

O equivalente contemporâneo de Stiepan são os pós-modernistas, que conquistaram as ciências humanas da academia nos anos 90 e fincaram a bandeira do relativismo niilista em seus muros. Seu ataque ao real, o verdadeiro, o absoluto, justo, transcendente – Deus, na verdade – foi, tal qual uma efusão logorreica de Stiepan Verkhovensky, uma campanha puramente imaginária, conduzida dentro de um “espaço seguro” bem remunerado, com poucos ou quase nenhum efeito no mundo real. Mas seus pupilos escutaram, com cuidado, e agiram.

A principal lição dos Stiepans Verkhovenskys do nosso mundo, profundamente absorvida e praticada pelos Piotrs, Stavróguins e Kirillovs, é a rejeição da realidade, tanto a natural quanto a social. Eles estão em revolta entranhada contra Deus, autoridades tradicionais que afirmem reprensentá-Lo, e tudo o mais que iniba sua liberdade de ser e fazer o que quiserem. Dado que o mundo, suas tradições, autoridades (sem mencionar Deus) estão constantemente frustrando seus desejos caprichosos, eles são dirigidos pelo ódio mesmo quando professam os ideais mais humanitários. “É tudo culpa do sistema, de nossas tradições malignas, das autoridades! Queimem as cidades! Quebrem as estátuas! Desarmem a polícia!”

Alguns chegam ao ponto de odiar tanto seus cromossomos, hormônios e genitais dados por Deus, que são impelidos à automutilação. Seus ladradores carnavalescos, ideólogos do “wokeismo”, apenas levemente menos desconfortáveis em sua própria pele, lançam campanhas ferozes de “cancelamento” contra qualquer um que recusar seu jogo de um milhão de gêneros inventados.

A cena em Demônios na qual um elegante baile social, estrelado por discursos literários liberais em uma versão russa do Partido Democrata contemporâneo, é organizado como disfarce para que os capangas socialistas e niilistas de Piotr queimem boa parte da cidade, pode ser lido como retirado das notícias atuais. Julia von Lembke, organizadora do baile, encarna o papel de Nancy Pelosi, enquanto Piotr e seus amigos assassinos incendiários representam Antifa-BLM.

Outra preocupação alarmantemente contemporânea do romance dostoievskiano de 1872 é o papel central da pedofilia. Stavróguin, personagem central icônico, ou anticristo, se preferir, guarda um segredo tenebroso: Muitos anos atrás, seus esforços para viver amoralmente, como se Deus genuinamente não existisse, o levo a perpetrar a terrível sedução e estupro de uma criança inocente, que subsequentemente cometeu suicídio. Mas embora a lógica diga a ele que um mundo sem Deus, e consequentemente sem base fundamental para a moral, não dê nenhuma boa razão para não seguir seus desejos ao limite e além (tons de Woody Allen), ele é invariavelmente atormentado por um remorso extremo.

A situação de Stavróguin lembra não só Woody Allen e outras celebridades acusadas de crimes sexuais, mas também vislumbra o modo como a pedofilia tornou-se o último tabu sexual, e assim, o último recurso de chantagistas sexuais. Meyer Lansky, o chefe da máfia que mandava em J. Edgar Hoover e (indiretamente) em quase qualquer pessoa de relevância na América pós-guerra do século 20, não precisava da pedofilia; ele chantageava seus alvos com fotos de todo e qualquer tipo de ação extraconjugal. Mas hoje, vivemos em um mundo comandado por Jeffrey Epsteins e seus chefes da inteligência israelense, que bem sabem, “não quer dizer nada se não tiver aquele toque menor de idade”. Até o canibalismo consensual e incesto perdem seu brilho transgressor. Nossa absurda cultura “sexualmente liberal” inundada pelo controle de natalidade, abortos, pornografia, viagra e celebração de quase todo tipo de devassidão, ainda tem vergonha da pedofilia, um século depois de Nikolai Stavróguin. Aparentemente, o anticristo não atingiu controle total de nossa vida sexual… pelo menos por enquanto.

Em um mundo sem Deus, onde está a transcendência? Não é possível simplesmente livrar-se dela. O anseio pela transcendência está interligado à alma humana. Em Demônios, as ideologias de uma liberdade sem Deus leva a formas distorcidas de transcendência: Stavróguin transcende a moralidade ao estuprar e suicidar uma criança; Piotr, através da orquestração de destruição gratuita, e talvez mais interessantemente, Kirillov, através de um assalto direto contra Deus, ao cometer um suicídio altamente elaborado.

Hoje, alguns buscam transcender a banalidade do materialismo secular através de um despertar. [3] Ao juntar-se a um movimento ostensivamente idealista que tenta mudar radicalmente a sociedade e fazer história – ou melhor, apagar a história – o desperto vive por algo maior que ele, ou assim imagina. Um simulacro tão débil de despertar espiritual nada é em comparação ao suicídio planetário à la Kirillov que vem sendo projetado pelo movimento transumanista e seus aliados da singularidade, em engenharia genética, inteligência artificial, vida artificial e nanotecnologia. Essa gente, como Kirillov, pensa que pode desafiar Deus através do suicídio… junto com o resto de nós. (Não, Marvin Minsky, não vamos ter sorte se nos tornarmos seus bichinhos de estimação; essa coisa, não eles, será uma toxina auto-reprodutiva, um câncer no planeta e talvez no universo.

Dostoiévski não podia prever a singularidade. Mas ele percebeu como os revolucionários niilistas empurravam a Rússia até a destruição da velha ordem através de um banho de sangue sem precedentes… e como as forças dirigindo essa destruição representavam uma geração e estavam enraizadas na forma com que gerações sucedentes cuidam, ou falham em cuidar, de suas crianças. Em Demônios, o intelectual liberal Stiepan Verkhovensky é o pai ausente (de Piotr) e o professor irresponsavelmente irreligioso (de Stavróguin), e é finalmente a sua falha como figura paterna que transforma a próxima geração em demônios. Nós vemos esse mesmo tipo de abdicação da autoridade paternal/religiosa na erosão do patriarcado na América contemporânea. Na comunidade negra, a destruição do patriarcado e da religião por engenharia social (as duas coisas estão relacionadas porque somente a religião dá ao homem razão suficiente para sacrificar a si na proteção e cuidado de sua família) produziu índices de criminalidade sem precedentes, abuso de drogas, e natalidade extraconjugal. Outros grupos étnicos do país, incluindo a maioria branca, também foi devastada, embora mais comuns que o crime sejam o seu desespero silencioso, antidepressivos e políticas identitárias idiotas dentre as classes média e alta, assim como opioides, álcool e idolatria trumpista nas classes trabalhadoras.

Desde o baby boom iniciado após a Segunda Guerra, pais cada vez mais ausentes produziram gerações de crianças cada vez mais perturbadas (ou “demoníacas”), culminando na psicose de massa da geração Woke. Conseguirão os despertos, por fim, engendrar uma nova revolução-guerra civil bolchevique, um banho de sangue americano da década de 2020? É isso que a teoria da Quarta Volta [4] de Strauss e Howe prevê. Conforme escrevi recentemente para a Crescent Magazine:

Alguns que esperam pelo pior, incluindo o ocasional consultor de Trump, Steven Bannon, citam a teoria da Quarta Volta dos sociólogos William Strauss e Neil Howe. De acordo com essa teoria, mudanças geracionais cíclicas dirigidas por padrões na educação infantil criaram um ciclo de 80 anos na história americana. No fim de cada ciclo de 80 anos, uma chacina cataclísmica ocorre, destruindo o regime anterior e abrindo caminho para uma nova.

Se Strauss e Howe estão corretos, estamos a caminho do abatedouro. Por volta de cada um dos anos de 1780, 1860 e 1940, oceanos de sangue correram, gerando novos mitos americanos que dirigiram novos regimes políticos. 1780 marcou a primeira guerra civil americana, uma série sangrenta de atrocidades fratricidas miticamente lembradas como a “Revolução Americana”. 1860 trouxe a Guerra Civil. 1940 trouxe a Segunda Guerra Mundial e seus muitos holocaustos, incluindo Dresden, Hamburgo, Hiroshima e Nagasaki (e o sacrifício de mais de 300 mil vidas americanas, uma pequena porção da contagem global de 75 milhões).

Quão grande será o massacre gerado do imenso abismo aberto pelos conflitos mutuamente destrutivos de 2020? Todas as chacinas passadas foram vencidas pelos equivalentes ao lado azul – as pessoas inclinadas a derrubar a velha ordem. Os revolucionários de 1780 demoliram a ordem colonial britânica e construíram uma união de estados largamente independentes. Os Ianques de 1860 aniquilaram a fraca união dos estados soberanos e a substituíram pela tirania federal. E o partido pró-guerra de 1940 – uma porção minúscula do eleitorado, que era totalmente contrário à entrada americana na guerra – colocou a tirania federal sob o efeito de esteroides ao jogar o poder para um complexo militar-industrial-bancário sem legitimidade e seu Deep State permanente.

Com base no precedente histórico, podemos esperar uma guerra vermelho-vs-azul [5] na década presente com mais uma decisiva vitória azul, apagando todos os vestígios de tradição e consagrando uma forma ainda mais extrema de tirania (se é que isso é possível). Mas há um provérbio árabe que diz, “uma coisa que excede seus limites se torna seu oposto.” Se o que Alan Sabrosky chama de “Terror Azul” for longe demais, atropelando seus oponentes, censurando e silenciando a dissidência com húbris excessiva, uma reação vermelha pode ser estimulada a algum tipo de vitória, ainda que pírrica – seja por estabelecer sua própria forma de terror, ou partindo a nação em pedaços.

Será a reação vermelha representada por grupos como os Proud Boys, uma voz de sanidade? Os será apenas mais um movimento “demônico” e em niilista? Se Dostoiévski fosse um colunista para The Unz Review (único site que o publicaria se ainda estivesse vivo e participando da guerra cultural americana), ele indubitavelmente argumentaria que os Proud Boys e a maior parte da alt-right acertam sobre a necessidade de um patriarcado, mas estão errados em estabelecer sua verdade na etnicidade, e não na religião. “Vocês se chamam de chauvinistas europeus?” Ele zombaria. “Estão malucos? A Europa é a fonte da infecção! Venham para a Mãe Rússia! Retornem à Santa Igreja Ortodoxa e para Cristo! Restaurem o czarismo, e no meio tempo, aproveitem a segunda melhor coisa, Vladimir Putin!”

Se ele pudesse superar os preconceitos provinciais, o autor de Demônios também poderia olhar favoravelmente para o Despertar Islâmico, especialmente sua manifestação na República Islâmica do irã. Em vez de Igreja e Czar, o Irã é governado por um clero encabeçado pelo Líder Supremo em um lado da balança de poder, e um governo republicano-democrático no outro. Esse tipo de equilíbrio entre as autoridades seculares e religiosas era a norma até os illuminati niilistas desarrolharem a Revolução Francesa e liberarem os demônios do secularismo totalitário da garrafa.

De todo modo, retornando à América, Strauss, Howe e a Quarta Volta, é notável que embora as revoluções niilistas americanas, pontuais como um relógio a cada quatro gerações, tenham sempre sido vencidas pelos azuis, sempre foram bem-sucedidas em reestabelecer o patriarcado, por uma razão bastante óbvia: os novos regimes emergem de uma guerra aberta e sangrenta de pessoas extremamente masculinas, pessoas de cromossomos XY e até ocasionais XYY com Q.I. elevado e uma média de testosterona 30 vezes maior que das pessoas com cromossomos XX (ainda temos autorização para dizer “homens” e “mulheres”?). Quando os fanáticos matadores carregados de testosterona e peitos cabeludos voltam para casa da guerra e saciam sua sede sexual, eles tendem a reestabelecer a autoridade masculina em seus lares. E assim começava um novo ciclo de 80 anos.

Então, se tudo proceder de acordo com a programação, a Quarta Volta de hoje, a que começa por volta de 2020, presumivelmente se transformará em algum tipo de chacina, caseira ou estrangeira, após a qual os matadores vitoriosos reestabelecerão uma vez mais o patriarcado (relativo). Você consegue imaginar a geração Woke de niilistas multi-gênero fazendo isso? Eu não. Então alguma coisa terá de acontecer. Ou os vermelhos reacionários pró-patriarcado relativamente religiosos finalmente ganharão uma, ou os azuis passarão por uma metamorfose com sede de sangue e emergirão como patriarcas reconstruídos. (Ou, de forma bem plausível, Strauss e Howe estão errados, e a Quarta Volta será um fracasso.)

O que poderia fazer a Quarta Volta diferente, e uma verdadeira quebra no padrão, é a probabilidade dos Ianques Woke finalmente perderem uma grande guerra. Se os EUA tentarem liderar os poderes marítimos e periféricos contra uma aliança russo-chino-iraniana defendendo o coração eurasiano, a Eurásia poderá muito bem derrotar Oceana, com consequências catastróficas para os agressores ianques. Seguindo a corrente de vitórias na Quarta Volta de 1780, 1860 e 1940, uma derrota em 2020 abalaria as próprias fundações do Leviatã. Quem sabe o quê, se é que algo, emergiria dos destroços.

O futuro é de difícil previsão, como disse Yogi Berra, porque ainda não aconteceu. Mas seja qual for o resultado do confronto entre vermelhos e azuis, e o regime geopolítico que surja depois, uma coisa é razoavelmente certa: as pessoas continuarão lendo Dostoiévski, e até os não-reacionários admitirão que seu Demônios acertou em muitos aspectos.

Notas do Tradutor

1. O termo “woke” surgiu nos Estados Unidos como representativo de uma suposta consciência social e racial atrelada ao pensamento progressista e pautas identitárias pós-modernas. Aparece diversas vezes no texto, geralmente mantivemos a forma como expressão particular.

2. Embora não haja publicação em português do livro de Fiódor Dostoiévski simplesmente como Demônios, preferimos usar esse formato para manter a concordância com o texto.

3. Aqui preferimos traduzir “wokeness” como “despertar” e “wokester(s)” como “desperto(s)”, para melhor inteligibilidade.

4. “The Fourth Turning”, é uma teoria desenvolvida pelos sociólogos americanos William Strauss e Neil Howe, especificamente trabalhada no livro homônimo “The Fourth Turning: An American Prophecy – What the Cycles of History Tell Us About America’s Next Rendezvous with Destiny”. A “Quarta Volta” é tradução nossa.

5. Para evitar confusão com a simbologia política brasileira, frisamos que no contexto americano, os “vermelhos” são os Republicanos conservadores, enquanto “azuis” são os Democratas progressistas.

Fonte: The Unz Review
Tradutor: Augusto Fleck

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