Aleksandr Dugin e sua atração pelo Peronismo

Escrito por Nicolás Mavrakis
Aleksandr Dugin, filósofo russo que possui grande influência na geopolítica russa, já viajou várias vezes à Argentina, o país ibero-americano mais visitado por ele. Tempos atrás, ele se referiu a Perón como “gênio” e “profeta”, defendendo também a íntima proximidade entre o peronismo e a Quarta Teoria Política. Em que consiste essa atração exercida por Perón e pelo peronismo sobre Dugin?

“Eu gosto muito de seu país, da cultura argentina, da filosofia argentina, de Carlos Astrada, da cultura do gaúcho, desta identidade, desta identidade profunda que se sente na Argentina apesar da modernização”, apresentou o singular moscovita Aleksandr Dugin. Foi na Escola Superior de Guerra Conjunta das Forças Armadas, na cidade de Buenos Aires, antes de uma conferência sobre geopolítica. Era novembro de 2017, mas “o pensador da nova Rússia de Vladimir Putin”, como é conhecido nos círculos intelectuais por seu planejamento da política internacional da Federação Russa, tinha começado suas viagens à Argentina em 2014.

De fato, Dugin foi um visitante regular até abril do ano passado, quando deu outra série de palestras em solo argentino sobre o 70º aniversário do Congresso Nacional de Filosofia de Mendoza, evento no qual foram apresentadas as bases de “A Comunidade Organizada”, o livro em que estabeleceu sua filosofia de governo ninguém menos que Juan Domingo Perón, em 1949. A comemoração foi oportuna, pois para este intelectual russo de 58 anos, que foi capaz de explorar o rótulo de “o filósofo mais perigoso do mundo”, como foi caracterizado na mídia européia, ou “Rasputin de Putin”, como aponta Hinde Pomeraniec em “Os Russos de Putin”, o legado peronista é hoje um dos aliados estratégicos insuspeitos da “causa russa” que Dugin ajudou a projetar como assessor do Presidente da Duma da Federação Russa entre 1998 e 2003, e como chefe do Departamento de Sociologia das Relações Internacionais da Universidade Pública de Moscou entre 2009 e 2014.

A mais parecida com as grandes aspirações de Vladimir Putin à influência mundial é a idéia que este filósofo e sociólogo chama de Quarta Teoria Política: uma superação das três grandes teorias políticas do século 20 (liberalismo, comunismo e fascismo) que, devido a suas interpretações errôneas do indivíduo, da classe e da nação, revelaram-se insuficientes para integrar politicamente, culturalmente e espiritualmente uma região continental tão vasta quanto a Eurásia, a área sobre a qual a Rússia está tentando construir um bloco de oposição à globalização liberal liderada pelos Estados Unidos.

À primeira vista, os pontos de contato entre o putinismo russo e o peronismo argentino podem parecer incomuns, até mesmo descabidos. Mas é contra esta percepção que Dugin trabalhou para explicar que o eurasianismo, o modelo russo de expansão continental baseado nos laços de diferentes sociedades tradicionais baseadas na Europa Oriental e Ásia, mas com interesses estratégicos comuns, pode entrar em diálogo com uma aliança potencial do continente latino-americano, como a que, na época, Perón projetou entre Argentina, Brasil e Chile. “É por isso que estou muito feliz de estar com a Argentina, porque estando com vocês eu defendo minha causa, a causa russa, a causa da comunidade organizada, da justiça e da identidade”, escreve Dugin em “Logos Argentino. Metafísica da Cruz do Sul”, seu livro dedicado à compreensão da Argentina.

O filósofo argentino Esteban Montenegro é um dos leitores mais aguçados da obra de Dugin, editor de suas palestras na Argentina e autor de “Pampa e Estepe. Peronismo e Quarta Teoria Política”, um livro que transforma as idéias do pensador russo (identificado com a estepe) em um diálogo ativo com a filosofia argentina (identificado com os pampas). “A Quarta Teoria Política de Dugin tem a virtude de não dar indicações, mas de abrir questões e convidar a repensar além da ‘fissura’ entre neoliberais e progressistas, na qual há mais continuidade do que ruptura”, explica Montenegro. Portanto, com base no que Dugin projeta para a Rússia, a aposta é renovar as ferramentas para repensar a Argentina. “Há uma necessidade de uma visão patriótica e soberanista que, ligada ao mundo do trabalho, e enraizada na própria tradição, pode desafiar a esquerda e a direita hegemônicas”, diz Montenegro.

Neste cenário, o legado de Perón funciona como uma figura atraente e aglutinante, tão útil para discutir o que os putinistas russos consideram ser de valor estratégico ao projetar seus interesses na América Latina, como para que os peronistas argentinos discutam, também, a reconstrução de um peronismo menos relativista e menos concessivo na hora de exercer o poder. A tarefa não é simples e, como ambos os lados apontam, exige que se evitem os dogmatismos de seus respectivos passados. Tanto que, durante uma de suas conferências na Confederação Geral do Trabalho, Dugin surpreendeu seus ouvintes dizendo que “Peron sobrevive a sua morte porque criou o peronismo, enquanto o putinismo não existe”. O que existe para “o despertar da Rússia” é o Eurasianismo e a Quarta Teoria Política, e a Teoria do Mundo Multipolar e a Geopolítica. Conceitos que, num espírito provocador, o pensador cuja voz chega aos ouvidos de Putin usa para dividir o mundo em termos claros: “Se você é a favor da hegemonia liberal global, você é o inimigo”.

1 – Eurasianismo e Peronismo: Rússia além da Rússia e Argentina além da Argentina

No coração da expansão da “nova Rússia de Putin” está a hipótese de que a Rússia é uma civilização distinta do Ocidente, uma idéia familiar aos que leram “Limonov”, a biografia de sucesso que o francês Emmanuel Carrère publicou em 2011 sobre o escritor e político russo Eduard Limonov (1943-2020). Foi junto com este personagem exótico que Aleksandr Dugin fundou, em 1992, o Partido Nacional Bolchevique, cuja dissolução conflituosa levaria o futuro conselheiro presidencial a criar o Movimento Eurasiático em 2001. Sob uma forma ou outra, a premissa do eurasianismo é a mesma: sobre os traços do fracasso da União Soviética e as idéias de filósofos como Martin Heidegger e Carl Schmitt, a Rússia deve aspirar a preservar, proteger e liderar, com uma perspectiva imperial, uma identidade comum entre a diversidade de países, grupos étnicos, comunidades, religiões e até mesmo Estados sob sua influência na Europa Oriental e Ásia. Em um mundo dividido em civilizações, portanto, a “civilização terrestre eurasiática” liderada pela Rússia seria a melhor opção para se defender contra o imperialismo da “civilização marítima atlântica”, liderada pelos Estados Unidos e seus aliados.

Neste sentido, argumenta Dugin, o continentalismo de Juan Domingo Perón deveria ser reivindicado como “o modo ibero-americano” de realizar esta civilização da terra, “porque onde estão os ibéricos, portugueses, espanhóis e indígenas que entraram neste contexto crioulo, existe a civilização da terra, da identidade”. Disposto a estabelecer alianças muito além das fronteiras geográficas, Dugin também sustenta que o futuro da América Latina e da Argentina está nesta “luta”, neste “despertar da profunda identidade latino-americana”, capaz de despertar o “logos ibero-americano”, tal como o próprio Perón planejou em seu tempo. Enquanto isso, para entender como funciona a causa eurasiática entre os verdadeiros conflitos internacionais, basta olhar para a presença russa na Síria, onde a liderança militar de Putin se desenvolve por cima das diferenças religiosas entre as facções em luta.

2 – A Quarta Teoria Política na Rússia e a Terceira Posição na Argentina: nem liberalismo, nem comunismo, nem fascismo

O próximo passo para a reivindicação territorial do eurasianismo é um novo modelo ideológico para organizar seu sentido político. E, mais uma vez, a nova Rússia de Putin e a velha Argentina de Perón parecem compartilhar uma base comum. “O diálogo entre ambas as tradições é baseado na necessidade comum de encontrar um modelo político alternativo ao comunismo e ao liberalismo”, explica Montenegro. Em seu livro, o argentino define a Quarta Teoria Política como uma alternativa às três teorias políticas clássicas (liberalismo, comunismo e fascismo) sob uma nova luz. Caso contrário, tudo o que resta é a submissão à única teoria política triunfante: o liberalismo, que em defesa do “indivíduo” concebe o ser humano como algo livre de qualquer identidade coletiva, “já que todas são coercivas e violentas”, explicou Dugin em uma palestra na Faculdade de Ciências Sociais da Universidade de Buenos Aires, em 2017. Para o russo, “se libertarmos o socialismo de suas características materialistas, ateístas e modernistas, e se rejeitarmos os aspectos racistas e xenófobos das doutrinas nacionalistas, chegamos a um novo tipo de ideologia política”. O objetivo, é claro, é imaginar uma nova maneira de enfrentar o velho e triunfante inimigo.

Mas não é esta a famosa Terceira Posição do Peronismo, que no meio da Guerra Fria se recusou a ser rotulada como capitalista ou marxista? “Longe de vê-la como algo estranho ou meramente repetir idéias já conhecidas, consideramos que ela nos ajuda a tirar do esquecimento coisas que permanecem escondidas em nossas melhores tradições”, escreve Montenegro em “Pampa e Estepe. Peronismo e Quarta Teoria Política”: E se fosse possível então atualizar a doutrina peronista à luz de uma nova era? É viável uma Quarta Teoria Política ibero-americana que combine as visões putinistas e peronistas no século XXI? Neste ponto, o debate peronista ainda parece forçado a resolver várias discussões internas a respeito do velho modelo de “unidade nacional”, que com a pretensão de conciliar capital e trabalho, gira até hoje em posições tão antagônicas como a “direita peronista” e o “progressismo”, com suas respectivas acusações cruzadas de “fascismo” e “comunismo”.

3 – Teoria do Mundo Multipolar e Geopolítica: o que o putinismo pode e o que o peronismo quer

A hipótese de Dugin é que os países com uma política externa forte são aqueles que reafirmam o fato de que suas verdadeiras fronteiras políticas vão até a unidade das pessoas em torno de sua tradição e a consciência estratégica de seus líderes. Isto é o que o próprio Putin está tentando provar ao intervir através da Síria, no Oriente Médio, e ao redesenhar as relações com países como a Turquia e o Irã. E esta é também a base da Teoria do Mundo Multipolar, disposta a enfrentar o mundo unipolar do liberalismo liderado pelos EUA. Todo o trabalho de Dugin converge para este objetivo, com a ressalva de que, no processo, se admite o espaço para que diferentes identidades locais surjam com maior autonomia do que aquela que, em seu tempo, foi permitida pela União Soviética. Mas por trás desta discussão há também um projeto existencial enraizado nas formas em que cada país é capaz de entender a si mesmo e o mundo do qual faz parte. No caso da Argentina, onde a maioria dos textos e manuais que compõem a tradição geopolítica são anglossaxões, Dugin aponta, a possibilidade de pensar em uma política externa firme implica outros desafios.

Durante uma de suas visitas à província de Córdoba, o conselheiro de Putin deu mais detalhes sobre este assunto: “Aqueles que se apresentam como verdadeiros mestres do mundo tentam impor sua agenda a todos os povos. Eles o fazem reduzindo sua soberania a zero, através da economia e da tecnologia, e através de instituições internacionais supranacionais que limitam abertamente a margem de decisão das civilizações”. Portanto, da mesma forma que a União Européia funciona como uma confederação equipada com seus órgãos de governo e uma visão geopolítica, “a União Eurasiática de Putin pode ser vista como a reintegração do espaço pós-soviético para criar outro pólo”. No caso da Argentina, porém, a viagem através deste tipo de experiência é tão diversa quanto caótica: desde o projeto de unir os BRICS (a aliança das economias emergentes do Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) até a dívida recorde com o Fundo Monetário Internacional, é claro que a posição geopolítica está longe de consolidar um eixo coerente ao longo do tempo.

4 – A Ordem Mundial e a Rússia após a Pandemia da COVID-19

Se a pandemia de Covid-19 irá alterar as condições para um mundo multipolar é uma questão que precisa ser respondida. Nesse caso, Aleksandr Dugin, como muitos dos principais filósofos, não hesitou em definir o evento como um ponto de inflexão na história moderna. “Não é o fim do mundo enquanto tal, mas certamente o fim do sistema mundial capitalista, unipolar, dirigido pelo Ocidente”, disse ele em uma entrevista em maio. “O que nem ideologias, guerras, batalhas econômicas ferozes, terror, nem movimentos religiosos foram capazes de fazer, um vírus invisível, mas mortal, fez. Trouxe morte, dor, horror, pânico, tristeza… mas também o futuro”, ele também previu em março. Entretanto, ele se permitiu algumas críticas ao presidente russo. “Sua ligação com Putin é mais sobre o impacto de seu trabalho na consciência estratégica da Rússia do que sobre um vínculo político-ideológico direto. Na verdade, ele é crítico de Putin em muitos aspectos”, adverte Montenegro.

A verdade é que Dugin não hesitou em caracterizar as primeiras medidas do governo russo como “um pouco confusas, talvez suspeitando que os países ocidentais tinham alguma agenda política ou econômica oculta por trás disso”, enquanto criticava uma quarentena que “destruiu quase completamente as pequenas e médias empresas”. Agora, até que o tráfego aéreo ao redor do mundo se normalize e ele possa mais uma vez divulgar pessoalmente os planos para um mundo multipolar, eurasiático, o que resta para Dugin é a batalha contra a censura na Internet. Nas últimas semanas, “o Rasputin de Putin” informou no Facebook que suas contas no Twitter e no YouTube, além de sua presença no Google, foram atacadas por hackers que, “como parte de uma conhecida guerra em larga escala no ciberespaço, desta vez parecem ter um objetivo puramente intelectual”.

Fonte: InfoBae

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