Guerra entre Armênia e Azerbaijão: A Perspectiva Eurasiana

O conflito entre Armênia e Azerbaijão pelo Nagorno-Karabakh se intensifica. A Turquia já se envolveu diretamente pelo lado do Azerbaijão, e a Rússia pode se envolver em apoio à Armênia. Mas esse conflito é, de fato, de interesse de todos os envolvidos? Uma guerra em larga escala beneficiaria algum desses atores? Cui bono? A quem interessa essa guerra?

Em 27 de setembro, uma nova rodada de escalada do conflito em Nagorno-Karabakh começou. Como informou o Ministério da Defesa do Azerbaijão, em resposta ao bombardeio de aldeias azerbaijanesas com artilharia e morteiros do lado armênio, o exército do país lançou uma operação contra-ofensiva. Segundo informações, as tropas azerbaijanesas se deslocaram para dentro dos territórios controlados por formações armênias e tomaram uma série de assentamentos.

A lei marcial foi introduzida na Armênia e a mobilização geral foi anunciada. O lado armênio acusa os militares azerbaijaneses de bombardear áreas povoadas. Por sua vez, Baku alega que as autoridades da Armênia e a própria NKP (República de Nagorno-Karabakh), não reconhecida, colocam em risco a população civil.

O presidente do Azerbaijão, Ilham Aliyev, dirigiu-se ao povo do país e expressou disposição para finalmente pôr um fim ao problema do Nagorno-Karabakh.

O atual agravamento do conflito militar em Nagorno-Karabakh é o mais agudo desde a “guerra de quatro dias”, em abril de 2016, quando o Azerbaijão conseguiu recuperar até 20 quilômetros quadrados de território ao longo da linha de contato com as tropas armênias.

As Raízes do Conflito

O conflito em Nagorno-Karabakh se prolonga desde o final dos anos 80. Tradicionalmente, durante pelo menos os últimos 100 anos, as relações entre as comunidades armênia e azerbaijanesa na Transcaucásia têm sido tensas durante períodos de enfraquecimento do poder geopolítico que detinha o controle sobre a região. Foi assim durante os massacres armênio-azerbaijano de 1905-1906, que coincidiu com a Primeira Revolução Russa e durante a Guerra Civil na Rússia.

A era da Perestroika levou à renovação das tendências centrífugas e ao florescimento tanto dos nacionalismos azerbaijanos (túrquicos) como armênios. A própria idéia de construir Estados-nação na região, onde ambos os povos historicamente viviam intermitentemente como parte de impérios, não podia deixar de levar a uma guerra acompanhada de uma limpeza étnica.

Especificamente em Nagorno-Karabakh, a comunidade armênia proclamou a criação de seu próprio Estado com a perspectiva de se juntar à Armênia. Como resultado, eclodiu uma guerra que terminou com a assinatura de um armistício em 1994. Os azerbaijaneses foram expulsos de Nagorno-Karabakh. Por sua vez, quase toda a comunidade armênia do Azerbaijão também deixou o país.

Agora o único formato diplomático para a resolução de conflitos é o Grupo Minsk da OSCE, co-presidido pela Rússia, EUA e França.

Ao mesmo tempo, todas as iniciativas de paz chegaram a um impasse. Nos últimos 10 anos, a chamada “fórmula Kazan” tem sido discutida na comunidade de especialistas, e desde 2016 o chamado “plano Lavrov”: as propostas da Rússia para iniciar a desescalada do conflito.

A “fórmula Kazan” se referia à troca da Armênia dos sete distritos ocupados do Azerbaijão ao redor de Nagorno-Karabakh pelo fim do bloqueio econômico por Baku. Esses sete distritos compõem o chamado Cinturão de Segurança de Nagorno-Karabakh, onde praticamente não há população. A segunda iniciativa dizia respeito a cinco dos sete distritos, deixando a não reconhecido República de Nagorno-Karabakh com um corredor terrestre para comunicação com a Armênia.

Entretanto, como o político pró-ocidental Nikol Pashinyan chegou ao poder em Yerevan após uma revolução colorida, o lado armênio recusou este compromisso.

O Fator Pashinyan

Em 2018, um político liberal Nikol Pashinyan tornou-se o primeiro-ministro da Armênia. Anteriormente, ele era membro do parlamento do bloco “Yolk”, que defendia a retirada da Armênia das estruturas da integração econômica eurasiática.

O novo primeiro-ministro da Armênia tomou uma posição dupla sobre Nagorno-Karabakh. Por um lado, ele provocou o Azerbaijão ao defender negociações diretas entre Stepanakert e Baku, o que as autoridades azerbaijanesas não puderam fazer. Por outro lado, ele entrou em conflito político com a liderança da República de Nagorno-Karabakh ligada ao líder armênio Serzh Sargsyan, que foi deposto em Yerevan em 2018, como resultado de protestos.

Pashinyan também entrou em conflito com a diáspora armênia na Rússia, iniciando um processo criminal contra seus oponentes políticos. Um deles foi o ex-presidente da Armênia e o primeiro presidente da não reconhecida RNK, Robert Kocharyan, que quando era líder do país havia estabelecido bons laços pessoais com Vladimir Putin. Ao mesmo tempo, representantes de fundações e ONGs liberais ocidentais se infiltraram nas estruturas de governo da Armênia sob Pashinyan.

É possível que este fator também tenha desempenhado um papel na decisão do Azerbaijão de resolver o problema de Nagorno-Karabakh pela força: Pashinyan recusou-se a transigir, complicando ao mesmo tempo as relações com a Rússia. Baku pode muito bem ter pensado que Moscou não defenderia Pashinyan, que acumulou muitas perguntas.

O Fator Turco

Durante muito tempo, o conflito de Nagorno-Karabakh permaneceu uma mina com limite de tempo que poderia explodir a região. A razão pela qual o conflito de Nagorno-Karabakh é tão importante é que grandes potências regionais podem ser atraídas para ele, principalmente a Rússia (do lado da Armênia como aliado da CSTO) e a Turquia (como um aliado tradicional do Azerbaijão).

A Turquia, representada pelo Presidente Recep Tayyip Erdogan e numerosos funcionários já anunciou o apoio total ao Azerbaijão por todos os meios possíveis. Após confrontos na fronteira entre a Armênia e o Azerbaijão em julho de 2020, Ancara e Baku realizaram uma série de exercícios conjuntos, inclusive perto da fronteira com a Armênia.

A mídia estrangeira e russa noticiou a possível transferência de combatentes pró-turcos da Síria para o Azerbaijão (“Divisão Sultão Murad”). Além da própria Síria, a empresa militar privada turca SADAT utiliza este contingente na campanha líbia. O embaixador armênio na Rússia Vardan Toganyan também acusou Ancara de enviar 4 mil militantes para o Azerbaijão.

Se os relatórios sobre os combatentes sírios são pelo menos parcialmente verdadeiros, a atividade de Ancara na direção de Karabakh pode se dever não apenas ao desejo de ajudar os “irmãos” do Azerbaijão, mas também de pressionar a Rússia perto de suas fronteiras a fazer concessões tanto na direção síria como na líbia.

Entretanto, o envolvimento em larga escala da Turquia no conflito contradiz os interesses geopolíticos objetivos de Ancara.

A perspectiva de um confronto com a Rússia desmorona o complexo sistema de negociações e o equilíbrio de forças que Moscou e Ancara vêm construindo nos últimos anos. Apesar das contradições táticas e do apoio de várias partes em conflitos específicos na Síria e na Líbia, este sistema isolou efetivamente outros atores, principalmente países ocidentais liderados pelos Estados Unidos. De acordo com os grupos de reflexão ocidentais, a Turquia e a Rússia tornaram-se as principais forças na Síria e na Líbia.

Os projetos econômicos e energéticos, principalmente o “Turk Stream”, também são mutuamente benéficos para a Rússia e a Turquia. Pelo contrário, é importante para Washington minar este projeto, assim como o “Nord Stream-2”.

Se Ancara for arrastada para um conflito aberto com Moscou sobre Nagorno-Karabakh, a Turquia se encontrará em uma situação semelhante à do Su-24 russo em novembro de 2015. Perderá um parceiro importante, mas não terá o apreço do Ocidente (especialmente dada a atividade do lobby armênio nos Estados Unidos e nos países europeus).

Armadilha Atlantista

A Rússia mantém relações aliadas com a Armênia, e a única base militar russa na Transcaucásia está agora localizada na Armênia – em Gyumri. Entretanto, o Azerbaijão é um importante parceiro geopolítico e econômico da Rússia. Moscou está menos interessada em um conflito de larga escala na região.

Além disso, qualquer que seja a posição que assuma se o conflito se transformar em uma guerra em larga escala, a Rússia está numa posição de perdedora.

Se Moscou apoiar Yerevan no conflito, ela perderá o Azerbaijão e o projeto do Corredor Norte-Sul, que deve ligar a Rússia ao Irã e à Índia, entrará em colapso. Bases da OTAN poderão emergir no Mar Cáspio.

A recusa em apoiar Yerevan ameaça a retirada da Armênia das estruturas de integração eurasiáticas. Nesse caso, os militares russos terão que deixar a Armênia e os americanos tomarão seu lugar. A vizinhança da Armênia com o Irã é um fator motivador adicional.

Os possíveis protestos da Turquia não contam, pois os americanos já tiveram experiência de estar na Síria, perto das fronteiras turcas, apoiando as forças curdas anti-turcas, que Ancara considera terroristas. E tal comportamento hostil não acarretou as graves conseqüências para o lado americano.

Finalmente, não podemos descartar a possibilidade de “mantenedores da paz” americanos ou europeus aparecerem na zona de conflito.

É o Pólo Atlântico que se beneficia da guerra em larga escala na região com forças extra-regionais.

É do interesse dos Estados Unidos virar a Rússia e a Turquia uma contra a outra. Os americanos estão interessados que duas forças que desafiam a ordem mundial unipolar lutem uma contra a outra, e não contra a hegemonia dos EUA. Desviar a atenção tanto dos russos quanto dos turcos para Nagorno-Karabakh permitirá aos americanos aumentar drasticamente sua influência na Síria, na Líbia, no Mediterrâneo Oriental como um todo e em outras regiões onde Moscou e Ancara se tornaram visíveis.

É indicativo que a ativação do conflito em Nagorno-Karabakh coincidiu com outros golpes dos atlantistas na “Grande Guerra dos Continentes”: revoltas em Belarus e pressões sobre a Alemanha para abandonar o “Nord Stream-2” (“Envenenamento de Alexei Navalny”).

É do interesse do Pólo Geopolítico Eurasiático fazer tudo para que o cenário de vingança atlântica não se concretize e o conflito seja terminado o mais rápido possível.

Nesse sentido, deve ser estabelecido um objetivo de eliminar todas as redes de influência atlantista na região, tanto na Armênia e no Azerbaijão, quanto na Rússia e na Turquia. A interferência de forças extra-regionais no conflito deve ser detida.

O Grupo Minsk da OSCE provou ser completamente inadequado. Ele serve como uma ferramenta para legitimar a interferência americana e européia na região. A escolha dos co-presidentes do grupo com base no princípio de representar as maiores diásporas armênias do mundo também é duvidosa. Isto causa a desconfiança do Azerbaijão.

Além da Armênia e do Azerbaijão, o conflito afeta diretamente potências como a Rússia, o Irã e a Turquia. Na Síria, essas três potências conseguiram implementar um mecanismo de negociação mais eficaz – o formato Astana, que reduziu significativamente a influência destrutiva do Ocidente e dos países do Golfo Pérsico. É hora de falar sobre o formato Astana na questão de Nagorno-Karabakh.

Fonte: Geopolitica.ru

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