Geopolítica da Crise Bielorrussa: Anti-Russa, Pró-Polonesa e Neutra em Relação à China

Na análise da crise bielorrussa é fundamental ter em mente que se trata de uma revolução colorida, gerada por meio de uma guerra híbrida empreendida pela Polônia com apoio dos EUA, cuja finalidade é implementar uma guerra não convencional. Mas essa guerra híbrida não possui qualquer relação com a China, o alvo é especificamente as relações Rússia-Belarus

A crise bielorussa é uma guerra híbrida americana contra os interesses russos em apoio aos interesses regionais da Polônia apoiados pelos EUA relacionados à “Iniciativa dos Três Mares”, que não prejudicará os interesses da China, mesmo no pior dos cenários, apesar dos planos de Pequim para que a Ponte Terrestre Eurasiática transitasse pela ex-República Soviética afetada por uma revolução colorida, uma vez que a República Popular já foi promoveu vários corredores Leste-Oeste complementares com os quais poderia contar.

Noções Geopolíticas Básicas

A “Nova Bipolaridade” entre as superpotências americana e chinesa que está definindo cada vez mais as Relações Internacionais torna natural que muitos tenham começado a analisar todos os eventos significativos em todo o mundo através do prisma da competição global desses dois países. A crise bielorussa não é diferente, com alguns afirmando que esta Guerra Híbrida americana pretende prejudicar os interesses da China tanto quanto os da Rússia, apontando para o fato de que a Ponte Terrestre Eurasiática de Pequim planeja transitar pela ex-República Soviética a caminho da UE. Seguir-se-ia, portanto, que sacar este país da “esfera de influência” russa também prejudicaria o grande objetivo estratégico da China de conectar o supercontinente através deste corredor crucial da Rota da Seda. Essa análise, entretanto, não leva em conta que a República Popular já deu início a vários corredores complementares Leste-Oeste que poderiam substituir a Ponte Terrestre Eurasiática se as circunstâncias assim o exigirem com apenas pequenos inconvenientes. Este artigo argumenta, portanto, que “conter” a China não é um fator motivador por trás desta crise, que é impulsionada pela rivalidade entre a Polônia, apoiada pelos EUA, e a Rússia.

A Guerra Híbrida contra Belarus

Mas antes de chegar a isso, é importante reafirmar que a crise bielorussa é de fato um exemplo clássico da Guerra Híbrida. O autor publicou um livro sobre este tema intitulado “Guerras Híbridas: A Abordagem Adaptativa Indireta à Mudança de Regime“, que foi citado duas vezes pelo Colégio de Defesa da OTAN na página 2 de seu artigo de pesquisa de novembro de 2015 sobre “O Pensamento Militar Renovado da Rússia: Guerra Não-Linear e Controle Reflexivo” e na página 10 de seu livro de dezembro de 2015 sobre “A Resposta da OTAN às Ameaças Híbridas“, e analisa este método de guerra em detalhes. Ele cobre a motivação estratégica por trás dele, que é provocar revoluções coloridas em Estados geoestratégicamente significativos que depois transitam para guerras não convencionais com o tempo, na linha dos cenários ucraniano e sírio. A seqüência em e-book “A Lei da Guerra Híbrida: Hemisfério Oriental“, se expande sobre seu antecessor especificando que “O grande objetivo por trás de cada Guerra Híbrida é interromper projetos conectivos transnacionais multipolares através de conflitos de identidade (étnicos, religiosos, regionais, políticos, etc.) provocados externamente dentro de um estado de trânsito direcionado”. Analisada através deste prisma, a crise bielorussa é inquestionavelmente uma guerra híbrida, pois visa minar os esforços russos de integração multicamadas da União Eurasiática, do pacto de defesa mútua da CSTO e do “Estado da União”, bem como da Ponte Terrestre Eurasiática da China.

Secretário de Estado dos EUA Mike Pompeo e Ministro de Relações Exteriores Vladimir Makei juntos para uma conferência de imprensa em Minsk, Belarus, 1 de fevereiro de 2020

As Soluções Chinesas

Tendo estabelecido isso, é agora relevante analisar até que ponto a crise bielorrussa realmente prejudicaria os interesses da China acima mencionados. Mesmo na pior das hipóteses, o impacto seria insignificante, já que a China poderia simplesmente redirecionar seu comércio Leste-Oeste planejado através da “Rota da Seta Polar”, do “Corredor do Meio” através da Ásia Central e do Cáucaso, ou simplesmente continuar confiando na rota tradicional de comércio marítimo através do Canal de Suez (seja atravessando o Mar do Sul da China em rota ou pegando um atalho via CPEC). Seria certamente mais inconveniente para ela continuar a negociar com a Europa por meios multimodais do que o unimodal prometido pela Ponte Terrestre Eurasiática, mas ela já está fazendo isso de qualquer forma, de modo que remover o potencial de trânsito através de Belarus não é uma mudança de jogo para a China. Mesmo seu Parque Industrial China-Belarus, perto de Minsk, seu principal investimento da Iniciativa do Cinturão & Rota em Belarus, que pretende funcionar como um dos nós continentais da China, provavelmente não teria muito impacto se os neoliberais pró-ocidentais radicais tomassem o poder. Ou não interfeririam no valor de mais de meio bilhão de dólares de investimento estrangeiro ou simplesmente imporiam mais regulamentações. No pior dos cenários, a China poderia facilmente arcar com as perdas.

As Aspirações da Polônia a Grande Potência

Mike Pompeo com o presidente polonês Andrzej Duda e o Ministro da Defesa da Polônia Mariusz Blaszczak posando para uma foto após a assinatura do Acordo Ampliado de Cooperação em Defesa EUA-Polônia em Varsóvia, 15 de agosto de 2020

Aceitando que a crise bielorussa é, portanto, muito mais prejudicial aos grandes interesses estratégicos da Rússia do que os da China, agora é hora de falar dos interesses se pretende promover, que são os da Polônia. Varsóvia lidera a “Iniciativa dos Três Mares” (TSI), apoiada pelos Estados Unidos, que visa reavivar sua “esfera de influência” há muito perdida em toda a Europa Oriental, mas também expandi-la em toda a Europa Central, bem como em um renascimento de sua estratégia de entre-guerras do “Intermarium”, no século 21. A América prevê que esta rede de Estados aliados funcione como uma cunha entre uma Alemanha cada vez mais desobediente e o rival russo dos Estados Unidos. O núcleo da TSI é o recentemente inaugurado “Triângulo de Lublin“, e o alvo mais recente das ambições regionais da Polônia é Belarus, depois de ter tido sucesso na Ucrânia há seis anos com o EuroMaidan. O modus operandi de Varsóvia é aplicar a estratégia entre-guerras do “Prometeísmo”, que é apenas um eufemismo para provocar conflitos de identidade entre Moscou e todo o povo não-russo a leste da Polônia. Para uma compreensão mais profunda destes conceitos, o leitor deve fazer referência à pesquisa do autor sobre “Relações Polaco-Russas”: A Culpa Russa e o Excepcionalismo Polonês“.

De Volta para o Futuro

O que está acontecendo hoje em dia em Belarus na verdade não é nada de novo, pois é simplesmente a manifestação da estratégia ocidental de longo prazo para estabelecer um chamado “cordão sanitário” ao longo da fronteira ocidental da Rússia, que foi ativamente perseguido durante o período entre as duas guerras. A Polônia é o Estado de vanguarda neste esforço por causa de seus interesses preexistentes em reviver sua “esfera de influência” há muito perdida sobre as terras da antiga Comunidade Polaco-Lituana, no centro da qual (e, mais importante, no meio de todos os Estados do “Triângulo de Lublin”) se encontra Belarus. Esta estratégia permaneceu dormente por décadas enquanto a Polônia estava sob a influência da URSS e depois levou várias outras se tornar novamente credível enquanto o país da Europa Central trabalhava para se tornar a principal força econômica e militar da região (com o apoio dos EUA). A Rússia deveria ter detectado esta ameaça latente há muito tempo, mas isso não aconteceu devido a sua húbris pós-Crimeia, que o autor elaborou em seu recente artigo sobre “Críticas Construtivas à Estratégia Russa, e em particular em relação a Belarus“. Em vez de tratar a Polônia como a aspirante a Grande Potência que é como ela sempre seviu, mesmo durante seu período mais fraco, o establishment russo muitas vezes riu dela como nada mais do que um fantoche americano até a presente crise, quando já era tarde demais para mudar alguma coisa.

Pensamentos Finais

Observadores objetivos deveriam ter previsto a inevitabilidade de a Polônia e a Rússia retomarem a competição histórica entre si pelas terras que se encontram dentro de suas “esferas de influência” sobrepostas, mas esta dinâmica geoestratégica foi subestimada e até mesmo muitas vezes retratada como “fantasia política” devido à arrogância daqueles que se recusaram a reconhecer a realidade. A crise bielorrussa é a segunda salva da manifestação da sua rivalidade no século XXI depois que a Ucrânia representou o primeiro tiro nesta luta, o que é impossível negar após os últimos acontecimentos. Embora o pior cenário possível de o país estar sendo “puxado” pelo Ocidente para dentro da “esfera de influência” da Polônia seria incômoda para a China, interferindo com sua Ponte Terrestre Eurasiática e obrigando-a a confiar em seus três outros corredores multimodais complementares Leste-Oeste, é um exagero apresentar a Crise Bielorrussa como sendo motivada por qualquer desejo americano de “conter” a República Popular. Esta é principalmente uma questão polaco-russa onde os EUA estão “guiando por trás” em apoio a Varsóvia e não tem nada a ver diretamente com a China. Enquadrar eventos de forma sino-cêntrica é, portanto, impreciso e distrai da realidade de que a Polônia é uma potência em rápido crescimento dedicada a “conter” a Rússia.

Fonte: One World

Andrew Korybko

Analista político e jornalista do Sputnik, é também autor do livro "Guerras Híbridas".

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