O Nietzscheanismo de Getúlio Vargas

Qual foi a influência intelectual mais determinante sobre o pensamento Getúlio Vargas? As vozes cansadas dos conformistas dirão que era o “positivismo”. Nós diremos que era o nietzscheanismo. Desde os tempos de universitário, Getúlio Vargas foi um leitor aficionado do filósofo alemão. E segundo o próprio Vargas disse, já no auge do Estado Novo, Nietzsche foi o único pensador que seguia com ele até então. Nesse artigo estaremos navegando por essa faceta desconhecida do maior guia político da história brasileira.

“Pois creiam em mim! O segredo para colher da existência o mais frutífero e o maior prazer é: viver perigosamente! Construam suas cidades nas encostas do Vesúvio! Enviem seus navios para mares virgens! Vivam em guerra com seus pares e consigo mesmos! Sejam bandoleiros e conquistadores, caso não possam ser governantes e possuidores, vocês buscadores de conhecimento! Logo terá passado a era em que vocês poderão se contentar com viver escondidos nas florestas como gazelas tímidas! Finalmente, a busca do conhecimento cobrará o que lhe é devido: – ela quererá governar e possuir, e a vocês também!” – Friedrich Nietzsche (A Gaia Ciência)

Pergunte a um trabalhista, a um castilhista, ou simplesmente a um varguista contemporâneo qual era o pensador favorito de Getúlio Vargas e você ouvirá algumas respostas previsíveis: Júlio de Castilhos, Auguste Comte ou mesmo Saint-Simon. Afinal, a intenção aqui é tentar circunscrever (diríamos aprisionar) Vargas e o trabalhismo em uma certa tradição positivista, racionalista, iluminista, etc.

Qual não seria a surpresa ou mesmo estupefação se nós respondêssemos que o pensador favorito de Getúlio Vargas foi o alemão Friedrich Nietzsche, a mais evidente e bem acabada antítese de todo positivismo, racionalismo e iluminismo?

Nisso, Vargas não está sozinho, se irmanando com uma boa parte dos adeptos dos radicalismos políticos do início do século XX. Afinal, também nietzscheanos foram figuras como Ramiro Ledesma ou Benito Mussolini, ou o mestre desses dois, Georges Sorel, que por sua vez também foi uma das mais importantes influências sobre Vladimir Lênin, também nietzscheano.

Não se trata, de nossa parte, de uma adivinhação, de alguma conjectura ou de uma suposição, mas das próprias palavras de Getúlio Vargas, em uma entrevista dada em 1939, auge da bendita ditadura do Estado Novo: “Nos poucos intervalos que me deixa a função, leio alguns escritores do momento ou releio as páginas dos mestres da minha iniciação universitária… Dentre estes, Nietzsche escapou ao naufrágio dos ídolos”.

De fato, dos primeiros anos do século XX, quando teve Vargas a sua mocidade, o maior dos presidentes nacionais devorou volumes e volumes dos maiores pensadores do Ocidente, especialmente os dos séculos XVIII e XIX. E, como ele mesmo reconhece, entre todos esses que ele estudou desde seus anos de universitário, era Nietzsche e exclusivamente Nietzsche quem permanecia uma inspiração determinante para ele ainda em 1939.

Um exame da figura de Vargas, porém, não deveria surpreender. Ainda que fosse o caso de Vargas nunca ter sido influenciado por Nietzsche, o que sabemos não ser o caso, ou mesmo se nunca tivesse tido contato com sua obra, ainda assim poderíamos afirmar que há, definitivamente, algo de nietzscheano em Vargas.

Em Vargas se via uma imensa vontade de poder aplicada à política, como uma força interior moldada pela tenacidade e constância pampeanas, que impelia Vargas apesar de toda e qualquer adversidade, e que o levou de estancieiro fronteiriço a ditador sobre um verdadeiro Império de dimensões continentais.

Também em Vargas encontramos a disposição para o conflito, mesmo em desvantagem, contornada por um senso de “amor fati”, conceito central em Nietzsche, como uma espécie de “amor ao destino” (ou mesmo “amor à morte”). Seria a disposição para ser fiel aos próprios desígnios e para expressar sua vontade de poder, mesmo diante da previsibilidade do sofrimento, de perdas insuportáveis e de conflitos sangrentos e lamentáveis. É o ânimo que guiou Vargas dos conflitos entre clãs gaúchos da fronteira, a liderar uma revolução armada que derrubou a ordem hegemônica, a debelar uma revolta armada contra seu governo e, no poder, a desafiar os interesses das potências estrangeiras e da mídia oligárquica.

Também na morte de Vargas encontramos uma visão trágica da vida, de inspiração nietzschiana. Alguns trabalhistas arquitetam mentalmente conspirações para explicar a morte de Vargas, porque, do alto de seu materialismo, consideram o auto-sacrifício, o dar a morte a si mesmo, o escolher a morte, o dizer sim à morte (e, portanto, à Vida em um sentido superior) é algo inconcebível. Para Vargas, como bom nietzscheano, antes a morte do que a desonra ou a vergonha. Vargas saiu do teatro da vida como um patrício romano ou um samurai japonês.

Para nós, que somos dissidentes, a morte de Getúlio Vargas deve naturalmente recordar os sacrifícios de Yukio Mishima e Dominique Venner.

As reflexões sobre o auto-sacrifício de Vargas têm sido muito superficiais até agora. O gesto de Vargas é estético, artístico, como todo suicídio de um herói ou de um grande homem. Se Vargas não foi um grande estetizador da política, como outras figuras da Terceira Teoria Política o foram, ele certamente o foi na morte. Em sua carta-testamento, onde muitos pretendem ver uma seca análise político-econômico-social das relações materiais de poder da conjuntura contextual de sua época e blablabla, nós vemos novamente o espírito nietzscheano em ação.

Observemos a famosa frase: “saio da vida para entrar na História”. Todos sentem aí alguma profundidade, algo de mistério, sem saber bem o que seria. A interpretação usual, é de que, com sua morte, Vargas garantiu seu nome para a posteridade, nos livros de história. Ou que ele estava apenas fazendo uma análise factual do fato de que, estando morto, ele não estaria vivo e só poderia ser conhecido pelos livros de história, como qualquer outro homem relativamente famoso. Ora, mas a trajetória de Vargas até aquele momento já garantia que ele entraria para a história, então o que ele realmente queria dizer?

O “H” maiúsculo com que ele grafa “história” é a nossa pista. Por História, Vargas não está se referindo aos livros de história, ou à mera compilação enciclopédica de fatos, na qual ele se tornaria não mais que uma página entre outras. Trata-se da história em um sentido spengleriano, cíclico, épico, com grandes Mitos que se reencenam e se repetem. Vargas está afirmando que seu auto-sacrifício o elevaria a Mito, a algo além-humano, e que ele próprio estaria, ali, também, reencenando o heroísmo trágico do Ajax de Sófocles ou do Marco Antônio de Shakespeare, tragédias que ele conhecia muito bem, aficionado que era (tal como seu mentor Nietzsche), pelo mundo helênico.

Sob cerco do inimigo e sob o risco de ver seu nome e legado lançados na lama por uma chusma de baratas e ratos em forma semi-humana, pela escória da escória do jornalismo e do empresariado, Vargas escolheu a saída aristocrática. Xeque-mate. Em si mesmo? Sim. Mas com isso, ele desbaratou as intenções do inimigo. A multidão furiosa tomou as ruas, depredando os prédios e veículos daqueles que ela considerava responsáveis. E, depois, a multidão seguiu seu cortejo fúnebre em prantos, indignada como a plebe romana no Funeral de Júlio César, após o assassinato do ditador romano pela velha oligarquia decadente da Cidade Eterna.

Estamos cansados do Vargas morno, cinza, pequeno, racional, torpe, dos livros de História e das apologias social-democráticas.

Nos interessa o caudilho pampeano, o bárbaro erudito da fronteira austral, de verve dionisíaca, o niilista positivo, dotado de um senso trágico e mítico.

Não aceitaremos mais qualquer leitura de Vargas que não seja a leitura nietzscheana.

Raphael Machado

Advogado, ativista, tradutor, membro fundador e coordenador-geral Nova Resistência, é um dos principais divulgadores do pensamento e obra de Aleksandr Dugin e de temas relacionados a Quarta Teoria Política no Brasil.

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