Os catolicismos brasileiros

Se criarmos um ”mapa das religiões” brasileiras baseado nas posições políticas, morais, horizontes mentais e grupos sociais que as frequentam, como ele ficaria?

Os grupos evangélicos, apesar de cada vez mais espraiados por todo o território e todas as classes, ainda são marcadamente vinculados às áreas populares das regiões metropolitanas.

Em geral, são classes populares que se equilibram para não cair na Ralé, habitantes dos ”sertões” das grandes cidades, com uma mentalidade fortemente conservadora, arcaica e anti-cosmopolita. Sua religiosidade é fundamentada na magia, na possessão por forças e espíritos, nos prodígios, nos exorcismos e curas, na mística da batalha espiritual e numa escatologia voltada para a conquista de estabilidade e conforto material.

As religiões afro-ameríndias-brasileiras têm pathos semelhante, mas me parecem mais dicotômicas. Há maior participação da ‘Ralé’, dos estratos mais marginalizados, e da baixa classe média. Territorialmente, buscam mais as áreas rurais ou semi-rurais das grandes metrópoles, tanto por motivos de prática religiosa quanto de discriminação e perseguição social. Quando nas áreas mais urbanizadas, se confundem muito com um catolicismo popular.

Diferentemente dos evangélicos, no entanto, tem muito mais presença de horizontes e comportamentos liberais, modernos e apartados da moralidade dominante. Provavelmente por terem uma feição mais forte de nicho, serem mais marcadamente iniciáticas — o que já supõe um apartamento do entorno social –, por não terem necessidade de aderir à ética cristã. Sua respeitabilidade não advém da adesão à moralidade cristã, mas da eficácia de seus atos mágicos. Muitos grupos que não tem espaço em outras religiosidades desaguam seus ímpetos mágicos nos terreiros. Na verdade, os grupos mais ”conservadores” dentre essas religiosidades de transe são os kardecistas, que tem uma ”respeitabilidade” e frequência de classe média e fortemente associada a uma mentalidade católica-romana tradicional.

O protestantismo histórico deitou poucas raízes no país. Assim como na Europa e EUA, é marcadamente liberal e laicizado, pelo menos nas grandes cidades. Vem de comunidades descendentes de imigrantes e de classe média.

O catolicismo está tão disseminado e é tão fluido no Brasil que dialoga com quase todas as demais adesões religiosas. Como o brasileiro está muito pouco interessado em rigidez dogmática e muito mais focado em eficácia mágica, transe e ”respeitabilidade cristã”, isso facilita muito o trânsito religioso.

Não há traumas profundos de passagem entre alguém que sobe as escadarias da Penha para pagar promessa, faz adivinhações com búzios ou recebe os dons de línguas em igrejas pentecostais. Há de se falar de diversos catolicismos. O dos pobres e das classes populares se aproxima muito em prática religiosa e posição moral e política daqueles dos evangélicos e umbandistas de áreas mais povoadas e urbanizadas das grandes cidades.

André Luiz

Historiador, mestrando em História pela UFRJ, cristão ortodoxo e membro da NR-RJ.
 

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