Michel Houellebecq – “O mundo será o mesmo, apenas um pouco pior”

É a primeira vez que Michel Houellebecq se manifesta desde o início da pandemia. Nesta carta, ele recusa a ideia de advento de um mundo novo após a crise do coronavírus.

Um pouco pior, respostas a alguns amigos…

Este confinamento me parece a ocasião ideal para decidir a velha querela Flaubert-Nietzsche. Algures (esqueci onde), Flaubert afirma que apenas se pensa e se escreve bem enquanto sentado. Protestos e zombarias de Nietzsche (também esqueci onde), que chega a tratá-lo como niilista (isso se passa, portanto, à época em que ele já tinha começado a empregar a palavra a torto e a direito): ele próprio concebeu todas as suas obras a pé, tudo o que não é concebido em uma campanha é nulo, aliás ele sempre foi um dançarino dionisíaco etc. Pouco suspeito de simpatia exagerada por Nietzsche, devo, no entanto, reconhecer que, sobretudo neste caso, ele tem razão. Tentar escrever, se não houver a possibilidade, durante o dia, de se entregar a várias horas de caminhada a um ritmo acelerado, é fortemente desaconselhável: a tensão nervosa acumulada não consegue se dissolver, os pensamentos e as imagens continuam a girar dolorosamente na pobre cabeça do autor, que num instante fica irritado ou mesmo louco.

A única coisa que verdadeiramente conta é o ritmo mecânico, maquinal da marcha, que não tem como primeiro propósito revelar ideias novas (ainda que isso possa, numa segunda fase, se produzir), mas apaziguar os conflitos induzidos pelo choque de ideias nascidas na mesa de trabalho (e é aí que Flaubert não está totalmente enganado); quando ele nos fala de suas concepções elaboradas nas colinas rochosas do interior de Nice, nos prados do Engadine etc., Nietzsche divaga um pouco: exceto quando se escreve um guia turístico, as paisagens atravessadas têm menos importância que a paisagem interior.

Catherine Millet (habitualmente bastante parisiense, mas encontrando-se por sorte em Estagel, nos Pireneus-Orientais, no momento em que a ordem de imobilização caiu). A situação presente lhe faz irritantemente pensar no aspecto “antecipação” de um de meus livros, “A possibilidade de uma ilha”.

Então, aqui pensei que seria bom, de toda maneira, ter leitores. Por isso eu não tinha pensado em fazer a aproximação, quando está totalmente claro. Ademais, se olho para trás, é exatamente isso o que eu tinha em mente à época, relativo à extinção da humanidade. Nada de um filme em grande estilo. Alguma coisa bastante monótona. Indivíduos que vivem em seus bunkers, sem contato físico com seus semelhantes, apenas algumas trocas por computador, cada vez menores.

Emmanuel Carrère (Paris-Royan; ele parece ter encontrado um motivo válido para se deslocar). Nascerão livros interessantes, inspirados por esse período? Ele pergunta. Eu também me perguntei. Estou, de fato, pondo a questão, mas no fundo não acredito. Sobre a peste, tivemos muita coisa, ao longo dos séculos a peste tem interessado muito os escritores. Aqui, tenho dúvidas. Já não acredito por uma fração de segundo em declarações do gênero: “nada voltará a ser como antes.” Ao contrário, tudo permanecerá exatamente igual. O desenvolvimento dessa epidemia é mesmo extremamente normal. O Ocidente não está para a eternidade, o direito divino, a zona mais rica e mais desenvolvida do mundo; tudo isso acabou, já há algum tempo, e não é uma história, um scoop. Se examinamos pormenorizadamente, a França está a se sair um pouco melhor que a Espanha e que a Itália, mas bem menos que a Alemanha; isso também não é uma grande surpresa.

O coronavírus, ao contrário, deve ter como principal resultado acelerar certas mutações em curso. Há muitos anos, o conjunto de evoluções tecnológicas, quer sejam menores (vídeo sob demanda, pagamentos sem contato), quer sejam maiores (o teletrabalho, as compras por internet, as redes sociais), tiveram como principal consequência (para o principal objetivo?) diminuir os contatos materiais, sobretudo humanos. A epidemia de coronavírus oferece uma magnifica razão de ser para esta forte tendência: uma certa obsolescência que parece atacar as relações humanas. O que me leva a pensar numa comparação brilhante que apareceu em um texto anti-PMA redigido por um grupo de ativistas chamados “Os chimpanzés do futuro” (descobri estas pessoas na internet; eu nunca tinha dito que a internet tivesse apenas desvantagens). Cito-os, pois: “Daqui a pouco, ter filhos por si mesmo, gratuitamente e aleatoriamente, parecerá tão incongruente como pegar carona sem plataforma web.” O compartilhamento de carro, a coabitação, temos as utopias que merecemos, finalmente.

Seria igualmente falso afirmar que estamos a redescobrir o trágico, a morte, a finitude etc. A tendência há mais de meio século, bem descrita por Philippe Ariès, tem sido dissimular a morte, tanto quanto possível etc. Bem, jamais a morte tem sido tão discreta como nestas últimas semanas. As pessoas morrem sozinhas em quartos de hospital ou em lares de idosos, e nós as enterramos imediatamente (ou as cremamos? a cremação é algo que está muito mais de acordo com o espírito do nosso tempo), sem convidar ninguém, em segredo. Mortas sem que tenhamos um único testemunho, as vítimas se resumem a uma unidade nas estatísticas cotidianas, e a angústia que se espalha pela população à medida em que o todo aumenta tem algo de estranhamente abstrato.

Outro dado terá tido grande importância nestas semanas, a idade dos doentes. Até quando convém trazê-los de volta à vida, curá-los? 70, 75, 80 anos? Isso depende, aparentemente, da região do mundo ou de onde se vive, mas nunca, em todo caso, tínhamos expressado com tanta imoralidade o fato de que a vida de todos não têm o mesmo valor; que a partir de uma certa idade (70, 75, 80 anos?) é como se já estivéssemos um pouco mortos.

Todas essas tendências, tenho dito, já existiam antes do coronavírus, apenas vieram a se manifestar com uma evidência nova. Não acordaremos, após a quarentena, em um novo mundo. Ele será o mesmo, só que um pouco pior.

Fonte: Revue Éléments

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