Racismo: “Sim, vidas negras importam, mas não se deve permitir que ser branco vire o novo pecado original”

Escrito por Frank Furedi
No esteio dos protestos antirracistas ao redor do mundo, ganha força uma ideologia de culpabilização dos brancos, de modo geral, pelo racismo e pelos problemas enfrentados por minorias étnicas. Essa ideologia é apoiada e promovida pela mídia de massa, e opera por mecanismos psicológicos de culpa que são típicos de populações ocidentais e das classes mais abastadas. Como não poderia deixar de ser, além de ser uma forma de racismo politicamente correto, essa culpabilização dos brancos não passa de mais uma estratégia de distração que legitima a ordem hegemônica.

Observar pessoas brancas apaziguando sua culpa racial implorando perdão de seus vizinhos negros não é nada edificante. Estas demonstrações quase religiosas de contrição pouco farão para acabar com as injustiças.

Por que tenho vontade de vomitar quando observo um grupo de brancos sentados no chão com as mãos no ar, repetindo com alegria os mandamentos dirigidos a eles por um pregador negro?

Afinal, sua cantoria de “amarei meus vizinhos negros da mesma forma que a meus vizinhos brancos” é uma afirmação totalmente incontroversa de justiça humana. Ainda assim, há algo de errado no sequestro do simbolismo e ritual da expiação cristãos para fazer uma declaração política.

Esta é uma performance grotesca de auto-humilhação disfarçada de esclarecimento racial. Quando olho para este teatro de submissão branca pela segunda vez, me lembro daquele episódio horrível de Game of Trhones, apresentando a caminhada da expiação de Cersei. No entanto, este é um espetáculo que se desenrola não na fantasia do mundo de Game of Thrones, mas em Washington, DC, em 2020!

Atitudes Racistas

Há, é claro, fortes razões para desafiar atitudes e práticas racistas nos Estados Unidos. A explosão de raiva e até mesmo de violência em resposta à execução policial de George Floyd é totalmente compreensível. Eu não tenho nenhum problema e, de fato, acolho com satisfação os protestos contra a injustiça racial. No entanto, a tendência atual de associação generalizada dos brancos com a posse de culpa racial não só é equivocada como também desvia a atenção das verdadeiras questões em jogo.

Infelizmente, durante a última década, a narrativa do privilégio branco ganhou ascendência cultural no mundo anglo-americano. Embora este seja um produto da cultura acadêmica, o conceito de branquitude incentiva as pessoas a abraçar uma forma de culpa quase religiosa.

Os brancos são exortados a reconhecer seu privilégio e a aceitar o fato de que, provavelmente, eles abrigam pensamentos racistas. Esta abordagem os encoraja a se salvarem se descarregando de seus maus pensamentos.

Embora seja promovida como um sério das ciências sociais, a branquitude é melhor entendida como um preceito semi-religioso. A branquitude transforma o pensamento racial em um ato inconsciente. Isto significa que nenhuma pessoa de pele clara pode reivindicar imunidade contra o racismo.

Limpeza Ideológica

De fato, aqueles que reclamam que não são racistas, ou nem mesmo se percebem como brancos, são denunciados por não terem reconhecido seu privilégio branco. A brancura é o equivalente ao pecado original, e até que empreendam um ritual de limpeza ideológica, eles são considerados racistas.

Durante as últimas décadas, o conceito de branquitude migrou do meio acadêmico para o mainstream. O resultado é a invenção de uma nova forma de identidade branca, dotada de características morais negativas e de um senso de inferioridade cultural. A branquitude é um status herdado e, neste caso, os pecados do pai são visitados sobre seus filhos.

Este ponto foi claramente afirmado pela revista Time esta semana, quando declarou que “os brancos herdaram esta casa da supremacia branca, construída por seus antepassados e querida por eles!”. A palavra “herdaram” é crucial aqui, pois indica que a falha moral de ser branco aflige a todos que possuem uma pele clara. Reconhecer seu pecado através da expulsão de sua herança é o primeiro passo para a redenção pessoal.

Implorar por Perdão

Não é surpreendente encontrar videoclipes de pessoas brancas se ajoelhando diante de pessoas negras, implorando por perdão. Afinal, a associação da branquitude com o pecado se tornou amplamente promovida por setores da mídia.

“América Branca, se você quer saber quem é o responsável pelo racismo, se olhe no espelho”, grita Dahleen Glanton no Chicago Tribune, antes de acrescentar: “Brancos, vocês são o problema”.

Quando a desvalorização moral de uma raça culpabilizada é normalizada, não é surpresa que muitos brancos abracem uma forma de auto-aversão que os leva a abraçar formas quase religiosas de contrição racial.

O projeto de culpabilizar os brancos por serem brancos pouco fará para resolver o problema da injustiça racial. Mas, em todo caso, esse não é seu verdadeiro objetivo. Em vez de servir como um instrumento de libertação, a cruzada religiosa contra a branquitude realmente permite que setores da elite cultural consolidem sua autoridade moral e política.

As pessoas que promovem o dogma da branquitude preferem ver pessoas ajoelhadas e orando por perdão do que ter que responder à questão sobre qual é real natureza da sociedade americana”.

Fonte: Russia Today

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