Tomás de Aquino e o Século XIII

O propósito deste texto é fazer algumas considerações da relação entre a obra de Tomás de Aquino e o contexto histórico e cultural da Idade Média. Mais precisamente, trata-se aqui de abordar de maneira breve o ambiente intelectual e as circunstâncias históricas peculiares em que a Europa se encontrava no final do século XII e início do século XIII, e entender como essa conjuntura foi determinante para os contornos que assumiria a obra atemporal do Doctor Angelicus.

Tomás de Aquino nasceu em Roccasecca, no sul do Lácio, em 1221, no seio de uma família nobre. Ingressou cedo na ordem dos dominicanos e, depois de um período de estudos universitários, foi encaminhado à carreira acadêmica por Alberto Magno, tendo lecionado em algumas das maiores universidades europeias da época. Nesse período escreveu alguns livros e preparou o esboço de sua maior obra, a Summa Theologiae, cujo término deixou à cargo de seu secretário, Reginaldo de Piperne, devido à deterioração de seu estado de saúde que o levou a falecer em 1274 aos cinquenta e três anos. Os escritos de Tomás de Aquino impressionam pela profundidade e rigor metodológico, de modo que não seria um exagero afirmar que a filosofia desvelada por Santo Tomás alterou de maneira irreversível a história do pensamento ocidental. Inspirado pelo legado platônico-agostiniano e fazendo amplo uso do arcabouço conceitual da filosofia aristotélica, construiu uma síntese original entre o pensamento filosófico grego e a doutrina cristã.

Podemos afirmar, igualmente, que o trabalho de Aquino caracterizou-se por uma sofisticada síntese entre a cultura ocidental e a abordagem de questões e proposições (Deus, o Estado, a Dignidade do ser humano, etc.). Contudo, para uma compreensão e interpretação adequada de seu pensamento, necessitamos, por um lado, abandonar os preconceitos contemporâneos em torno da Idade Média e cultura medieval, e, por outro, entender o contexto histórico em que viveu e escreveu o Aquinate. A Europa do século XIII testemunhou a ascensão da escolástica e o surgimento das universidades. Diferentemente do estigma de “Idade das Trevas”, preconceito iluminista que predominou por muito tempo nas leituras da era medieval, esse período pode ser considerado como um prelúdio do renascimento e da idade moderna. A Idade Média foi ambiente propício para o surgimento e amadurecimento de ideias diversas nos campos da filosofia e teologia, do desenvolvimento científico, da retomada de uma política de letramento, de desenvolvimento das cidades, da busca pela ordem social, de predominância do direito e controle da violência.

Entrelaçada a esse contexto e fundamentalmente razão de seus desdobramentos, a escolástica, surgida no século XII, foi um movimento que procurava dar sustentação teórica à verdade da doutrina cristã e conciliar os desacordos existentes na teologia cristã. Destaca-se aqui a polêmica entrada do pensamento de Aristóteles a partir de novas traduções latinas do original grego e de seus comentadores da filosofia árabe e judaica, entrada que foi determinante para o desenvolvimento da escolástica, de novas ideias, de outros métodos de ensino e pensamento. É nesse ambiente intelectual que surgem as universidades, em grande medida devido ao desenvolvimento da escolástica e o esforço conjunto das Igrejas e dos reis em aperfeiçoar o processo educativo. As primeiras universidades foram fundadas em solo europeu entre os séculos XI e XII – contam-se entre as mais antigas as de Paris, Bolonha e Oxford. O surgimento da universidade representa uma grande mudança no sistema de ensino medieval, pois é a primeira vez que funda-se e organiza-se uma instituição cujo propósito primeiro é dedicar-se ao estudo. É neste contexto que aparece e se destaca um frade da Ordem de São Domingos, os dominicanos.

Tomás de Aquino esteve presente nos grandes debates filosóficos e culturais do século XIII – foi uma espécie de guia e receptáculo dos principais acontecimentos desse período. Debateu, por exemplo, sobre a ideia de guerra justa e o papel sócio cultural das ordens militares de cavalaria. Sua obra debruçou-se sobre duas grandes fontes. A primeira é a Bíblia, a tradição dos Padres da Igreja e a excelsa obra de Santo Agostinho. A Segunda fonte, trata-se de um complexo conjunto de filósofos e teólogos que irão influenciar o Aquinate. Nesse conjunto, assomam-se Alberto magno, São Boaventura, Pseudo-Dionísio, os filósofos árabes e comentadores de Aristóteles Al-Farabi, Al-Kindi, Ibn-Gebirol, Avicena e Averróis e o importante filósofo e rabino Maimônides.

Podemos dividir a obra de Tomás de Aquino em cinco categorias: a) Comentários bíblicos; b) Comentários filosóficos e teológicos c) Questões disputadas; d) Opúsculos sobre temas diversos; e) as Sumas. É neste último conjunto que se inclui a Suma Teológica, livro mais importante da escolástica e indiscutivelmente a obra-prima de Santo Tomás, simultaneamente síntese de seu pensamento e dos debates e controvérsias do século XIII. É interessante notar que a estrutura desse grande trabalho se espelha no esquema neoplatônico da emanação e retorno ao Uno. A primeira parte da obra trata de Deus, a segunda parte (dividida em duas partes) trata do homem e a terceira parte de Cristo e sua Palavra, isso é, a via ou o caminho que leva de volta à Deus. Assim sendo, da mesma forma que na doutrina plotiniana o objetivo último deve ser o retorno da alma ao Uno: a união mística, em Aquino a alma do homem deve retornar à Deus através da mensagem de Cristo.

É provavelmente na Suma Teológica que conseguimos perceber, de maneira ainda mais profunda, a grande influência da filosofia aristotélica no pensamento do Aquinate. Contudo, cabe recordar que a filosofia de Aristóteles foi recebida com desconfiança pela Igreja, dada sua origem fundamentalmente pagã e também devido às traduções e comentários vindos do Oriente Médio e da filosofia árabe que a acompanharam nos séculos XII e XIII. Nesse contexto, a leitura da obra do Estagirita nos conventos e universidades foi condenada pelo Concílio de Paris, em 1210. Não obstante, a leitura e interpretação desenvolvida por Tomás de Aquino foi capaz de equilibrar os elementos da filosofia aristotélica em favor da escolástica, desenvolvendo um arcabouço conceitual que viria a favorecer a teologia cristã e afastar a influência negativa de uma possível leitura radical e fideísta de Aristóteles, tal como se verificava na atividade dos chamados aristotelistas radicais. É notável a capacidade do tomismo de conciliar fé e razão de uma maneira original e inovadora para época do medievo.

Na esteira do surgimento das universidades e da ascensão da escolástica foi fundamental desenvolver um sistema de um estudo e conhecimento em que razão e fé pudessem caminhar juntas na busca pela verdade, tarefa que, no século XII, foi assumida por importantes filósofos como, por exemplo, São Boaventura e Alberto Magno. Por sua vez, Santo Tomás desenvolveu um sistema educacional capaz de conciliar a cristandade e Aristóteles sem abandonar a herança da patrística e a obra de Santo Agostinho. Não obstante, era importante reiterar que certas verdades à respeito de Deus não podem ser demonstradas unicamente pela razão, como no caso do Dogma da Trindade, por exemplo, e, neste contexto, a razão deve demonstrar que ele não é impossível racionalmente e desfazer as objeções que lhe são opostas. A razão, portanto, ainda que sob a guia da fé, continua a desempenhar um papel fundamental no edifício argumentativo.

Enfim, cabe ainda pontuar algumas considerações finais sobre o tema e reiterar o que mencionamos ao longo do texto. Podemos concluir que a ascensão da escolástica e o surgimento das universidades foram processos simultâneos e interdependentes que acompanharam e foram razão de uma época de renascimento no campo da arte, da cultura e do pensamento religioso e filosófico, ambiente no qual a recepção da obra de Aristóteles teve um papel de destaque. Além disso, é preciso insistir nesse ponto: ao mesmo tempo que a obra de Santo Tomás se inscreve na tradição perene do cristianismo sua origem está profundamente entrelaçada ao contexto histórico e cultural do século XIII e teve a virtude de apresentar, de maneira inovadora, novos problemas, novos métodos de conhecimento e novos tipos de provas no marco de um esforço que buscava conciliar fé e razão. Importantíssimo para a cristandade e o pensamento filosófico, o século XIII foi um prelúdio do que viria a se desenvolver no renascimento e na modernidade.

Referências:
REALE, Giovanni; ANTISERI, Dario. História da Filosofia. 3. Ed. São Paulo: Paulus, 1990. v.1. p. 552-573
SANTOS, Ivanaldo Oliveira. Tomás de Aquino e o século XIII. Ágora Filosófica, Recife, n. 1, p. 123-148, jan/jun. 2017-1
ULLMANN, Reinholdo. Plotino – o retorno ao Uno. In: Teocomunicação, nº 108. Porto Alegre, 1995, p. 361-373.

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