Marx tinha alguma razão?

A análise marxista está correta em sua ênfase na expropriação como elemento fundamental da formação de classes do capitalismo. Uma das grandes especificidades desse sistema econômico é que os trabalhadores são desprovidos dos meios para a própria subsistência.

Tende ao fim, portanto, a figura do camponês livre, protegido por comunas com regras próprias, e capaz de sobreviver com trabalho familiar e sazonal. E o mesmo pode ser dito do artesão, que domina determinados ofícios e repassa esses segredos dentro de uma estrutura corporativa, e do guerreiro como símbolo de distinção de natureza ou como status decorrente da conquista.

O trabalhador, ao não ter mais nada, só tem a força do próprio corpo/mente para alugar ou vender, em um mercado cujas regras não controla, que não obedece ‘economias morais’ tradicionais, e em posição de completa desvantagem.

O significado da expropriação capitalista é catastrófico em uma dimensão superior à econômica.

Marx não abordou, porém, os signos mais profundos da expropriação, embora do desenvolvimento posterior do próprio conceito de classe na tradição marxista forneça substratos para uma perspectiva mais elevada.

Porque classe não é apenas uma posição na formação social, mas envolve toda uma espécie de identidade em diálogo e tensão com os demais grupos. Fazer parte de uma mesma classe social significa partilhar determinada forma de viver, de se relacionar, valores comuns, comportamentos, linguajar, gostos etc. Até a organização familiar muda de classe para classe.

Alguns chegam a defender que os mecanismos de reprodução de classe não se dão prioritariamente no mercado, mas na transmissão de determinados saberes e bens em âmbito familiar. De modo que, em larga escala, a classe se herda por meio da sociabilidade básica nos anos de formação do ser humano.

Eis os instrumentos distorcidos para um equilíbrio sutil entre: a) a gestão de uma sociedade de sem castas por meio da expropriação e da transformação de [quase] todos em corpos/mentes disponíveis e atomizados em um mercado amoral; b) a perpetuação das novas condições em um novo organismo social deformado, cujas posições são definidas por mecanismos distorcidos de formação e reprodução das varnas/castas, uma paródia à Tradição velada sob as ideologias do mérito individual e do economicismo.

A luta de classes, nesse sentido, vai adquirindo sabores gnósticos.

André Luiz

Historiador, mestrando em História pela UFRJ, cristão ortodoxo e membro da NR-RJ.
 

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