O Pesadelo Americano

O assassinato de George Floyd desatou uma onda de protestos e saques por várias cidades americanas. Uma polícia brutal e tão fora de controle que a população tem medo de chamá-la mesmo quando é vítima de crime. Uma sociedade mais racista que a da Alemanha nazista. Uma mídia extremamente sensacionalista e oportunista. Tudo isso é lenha na fogueira. Mas estamos diante de algo cíclico, e não de uma ruptura revolucionária. Uma onda de indignação incendiária e de caos catártico que é parte da própria estrutura do pesadelo americano.

No dia 25 de maio, um negro, George Floyd, foi assassinado pela polícia. Assistir ao vídeo de sua prisão e morte é simplesmente chocante, pois esta é a metodologia usual nos EUA, ao ponto de não só os negros, mas qualquer um de lá pensar duas vezes antes de chamar a polícia.

Se houver um acidente de trânsito, eles podem acabar revistando seu carro porque vêem que você está nervoso e suspeitam que você está carregando drogas ou algo assim; se você teve uma briga com um vizinho, eles ainda vão te deter por qualquer outra desculpa, se você vir um carro da polícia na estrada, você não vai se atrever a ultrapassá-lo para que você não receba uma multa por nada… Eles costumam atirar primeiro e depois vão te dizer: “estamos de olho em você, não cometa nenhum erro”.

Matar uma pessoa negra ou hispânica (sul-americana) não é menos grave do que matar uma pessoa branca, mas é verdade que é mais frequente, já que a cultura racista clássica anglo-saxônica ainda está muito viva nos EUA. Não foi em vão que até os anos 60 houve ali segregação racial (hoje, no prédio do Pentágono, há duas vezes mais banheiros por causa desse fato: para negros e brancos), naquele país que se gabava de ter derrotado o racista Hitler, quando negros foram para a Europa em batalhões separados para esse fim…

Nos Estados Unidos, os brancos que são pobres são chamados de “white trash” (lixo branco) porque são uma ofensa ao orgulho racial, já que a origem dessa expressão data de 1830, usada pelos proprietários de escravos da classe alta dos estados do sul (terratenentes aristocráticas) contra os brancos pobres que trabalhavam no campo ou como servos (ou seja, como negros).

Em toda sua história, só houve um presidente (metade) negro e, para completar, ele nem mesmo veio das comunidades que emergiram da escravidão histórica, já que seu pai era diretamente africano (e não era nada pobre). Depois de 400 anos de presença negra nos EUA, nunca houve unidade nacional, mas simplesmente uma sociedade cheia de comunidades vivendo de costas umas para as outras.

Esta sociedade, a estadunidense, caracterizou-se desde o início por ser construída sobre os valores do mercantilismo, do racionalismo, do desprezo pelo passado e do entusiasmo pelo dinheiro e pelo sucesso, sinais de serem escolhidos por Deus. Os negros que vivem nos EUA têm assimilado muito bem essa cultura.

Os saques são a prova. Milhares de negros são mortos pela polícia (e brancos também) todos os anos, mas os saques não acontecem com a mesma intensidade. Certamente devemos pensar que o impacto da mídia é responsável: o jornalismo nos EUA responde ao paradigma comercial, e as notícias devem ser sensacionais e sentimentais, causando emoção. A verdade já é mais relativa. Então as comunidades negras reagem como um efeito dominó, não porque realmente se preocupam com aquele homem que morreu, mas porque foram “sacudidas” e precisam de uma válvula de escape. E essa válvula corresponde aos valores que eles aprenderam com o capitalismo.

Eles vivem diante de uma vitrine cheia de doces que nunca conseguem alcançar e sua reação é quebrá-la o mais rápido possível e se apoderar deles: roupas de marca, tênis, produtos informáticos e tudo o que dá status. Vai ser difícil vê-los invadindo lojas de alimentos. Vai ser difícil vê-los organizando um movimento de classe. Porque a sociedade americana não é um crisol, mas um conjunto de compartimentos fechados que compartilham apenas o amor ao dinheiro e ao sucesso.

Esses saques são cíclicos, como todas aquelas coisas tão ianques dos tiroteios escolares, das seitas religiosas e dos assassinos em série. Depois de um tempo nós nem nos lembraremos e até o próximo show made in USA.

Fonte: Mediterráneo Digital

Jordi Garriga

Colaborador em diversos meios de comunicação espanhóis e de outros países como autor, tradutor e organizador. Ensaísta, publicou vários livros sobre assuntos históricos, políticos e filosóficos. Tem sido militante e político nas Juntas Espanholas e no Movimento Social Republicano.

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