10 clássicos para conhecer a música nortista

A nossa listagem precisou, por medida pedagógica, estabelecer um ponto de partida. Escolhemos princípios históricos e geográficos, mas esta lista está longe de estabelecer clássicos absolutos, é sobretudo, uma lista das sensações e sentimentos, de quem já partiu deste lugar e fitava, no horizonte, a esperança de reencontrar o rio-mar.

É extremamente clara a influência de africanos, indígenas e portugueses na constituição dos ritmos locais. No estado do Amapá, por exemplo, o centenário marabaixo, influenciará outro ritmo, comum em terras paraenses, o carimbó, até chegar em outros mais recentes, como a lambada, guitarrada, calypso e o brega paraense. Belém-do-Pará é, definitivamente, a capital cultural dessa parte do país e de seu porto, subindo o Rio Amazonas, toda essa variedade musical foi encontrando seus apreciadores.

Subindo o Rio Amazonas, já no estado homônimo, na cidade de Parintins, o famoso Festival Folclórico de Parintins e suas toadas, invadem os sons de Parintins e da capital Manaus, onde se confluiu essa mística paraense com o forró trazido pelos nordestinos que deixaram grande marca durante o ciclo da borracha. O Beiradão, antes de tudo, uma festa que atraía gente de comunidades ribeirinhas, foi ganhando uma forma mais tangível ao passo que interioranos de toda região chegavam à Manaus, no apogeu da Zona Franca.

O distanciamento geográfico com o resto do país e a proximidade com Caribe temperou os ritmos locais com o merengue e a salsa, tocados pelos cobiçados aparelhos de rádio produzidos em Manaus ou importados da Índia. Sintonizado, estava pronta a festa do paraense ou do macuxi, o popular nascido em Roraima.

Então, seja no lago do Caracaranã, nas praias do Açutuba ou Ajuruteua. Seja com tambaqui assado ou açaí mas sempre acompanhado da CERPA, essa é a nossa lista de clássicos da região norte.

1 – Cileno (AM) – Lusis

O primeiro da lista é o cantor amazonense Cileno da Conceição. É o primeiro, fora da nossa ordem, por imprimir nas suas canções dilemas cotidianos das urbanidades nortistas. A escolha feliz dos instrumentos sempre imprime o regional em canções cujo o tema nada tem a ver com estereótipos de temas locais. Escolhemos a forte “Lusis”, que se tornou um hino da boemia manauara.

2 – David Assayag (AM) – El Dorado

David Assayag é um cantor amazonense, conhecido como uirapuru, famoso por ser sido intérprete de toadas do Boi Bumbá Garantido até juntar-se, em 2009, ao rival Boi Bumbá Caprichoso. Entra na lista com a canção Eldorado, do Boi Bumbá Garantido, cuja letra faz uma homenagem às riquezas da civilização Inca. Ressalto que nem de longe as melhores gravações se aproximam das interpretações ao vivo no Festival de Parintins.

“Montanhas cobertas de ouro

Estradas do Eldorado

Sol do Inca, do reino encantado

Atahualpa, Imperador imortal

Valeu rios de ouro, no tempo colonial

Pico da Neblina, Ye’pa Oa’kêe

Parima, Pacaraima, Maturaca, Jauaretê

Misterioso ritual guataviana

Do homem que virou ouro

Na era pré-colombiana

Mina de metal precioso

A história secular, está no ar

É o paradoxo sem terra

Do Eldorado Karajá”.

3 – Raízes Caboclas (AM) – Banzeiro

Imagina um forró, elemento trazido pelas famílias nordestinas que se assentaram cá desde o período de exploração da borracha com um forte instrumental indígena e vozes afinadas. Está aí a banda em que muitos amazonenses definem como um exemplo do que é a música regional raiz. A difícil escolha de uma única música dos Raízes Caboclas me obriga a dizer para quem está lendo a lista: procure as outras canções do grupo, são igualmente belas. Banzeiro, é uma canção erótica implícita, crianças cantam essa música nas festividades cívicas das escolas sem saber muito bem o que se quer dizer.

Banzeiro é o nome que se dá para as ondas dos rios, não tão grandes quanto as do mar, mas capazes de virar embarcações.

“Reviro os olhos

no momento mais gostoso

e o balanço do caboco

vai ficando remançoso

é o momento do banzeiro

no prazer se derramar.”

4 – Teixeira de Manaus (AM) – Deixa meu sax entrar

Teixeira de Manaus está lista de músicos autodidatas da região norte. Saxofonista nascido em comunidade ribeirinha, é símbolo do Beiradão, festas que ocorriam em determinados lugares, na beira dos rios, e que atraiam moradores, vindos de barco de outras vizinhanças, para dançar a noite inteira. “Deixa meu sax entrar” foi escolhida como a música que representa Manaus quando a cidade completou 350 anos.

5 – Pinduca (PA) – Tia Luzia, tio José

O octogenário Rei do Carimbó, um ritmo marcadamente paraense, transformou canções em clássicos afetivos por toda a região norte. Escolho a “Tia Luzia e tio José”. O primeiro refrão “A bença tia Luzia, a bença tio José; minha mãe mandou buscar um pouquinho de café” transmite bem a relação dessa região com a religiosidade católica e a grata sensação de proteção de se ouvir um “Deus te abençoe, meu filho”. Pinduca também é muito popular durante a época onde saem os resultados do vestibular. Imortalizou a clássica “Marcha do Vestibular”. Durante a recepção dos calouros, ainda se ouve os versos “Alô papai, alô mamãe, põe a vitrola pra tocar, pode soltar foguetes que eu passei no vestibular”.

6 – Aldo Sena (PA) – Lambada Complicada

Mestre Aldo Sena é considerado um virtuoso da Guitarrada, discípulo direto do Mestre Vieira. Gravou mais 20 discos, incluindo quando era conhecido pelo pseudônimo Carlos Marajó. Artista reconhecido na região, chegou a fazer relativo sucesso no Nordeste. Lambada Complicada é referência pois nela está explicita não apenas a influência caribenha na música nortista mas por exigir atenção dos mais treinados guitarristas.

7 – Chimbinha (PA) – Dançando Calipso

Cledivan Farias deve entrar na lista por alguns motivos que citarei com gosto. Consideremos: Chimbinha é, como muitos grandes artistas locais dessa lista, autodidata. Conseguiu desenvolver um método muito peculiar e mostra muita qualidade em seus discos solos. Juntamente com o mestre Aldo Sena, é uma unanimidade nas comunidades ribeirinhas quando o assunto é guitarra. Em mais de 30 anos de carreira, contabiliza participações em centenas de discos. A canção escolhida é a instrumental “Dançando Calipso”, a primeira música do álbum “Guitarras que cantam”.

8 – Teddy Max (PA) – Ao pôr do sol.

Teddy Max entra na lista por uma aclamação popular. A canção “ao pôr do sol” foi escolhida como a canção símbolo do quarto centenário da capital paraense. Alguém pode afirmar “nem tudo que é popular é bom”, tudo bem, mas para além de representar um estilo musical de uma camada grossa da população, é dançante e conforme os ouvidos se acostumam, os mais desgostosos com o brega começam a se familiarizar. O brega paraense chama atenção por ser a última reverberação de rock´n´roll clássico, com sintetizadores e percussão característica. Neste ponto poderia estar outros artistas como o também falecido Ditão, Alberto Moreno – com a canção “Agora eu não sei não” ou Roberto Villar.

9 – Nivito Guedes (AP) – Tô em Macapá.

Da agradável Macapá, outro hino popular, de Nivito Guedes, “Tô em Macapá” é mais uma canção que marca a influência caribenha nas canções dessa parte do país. Muito se fala da salsa, do merengue, do Calypso, mas as rádios de Georgetown, capital da Guiana, também nos apresentaram o reggae, criando uma síntese muito apreciada nas capitais nortistas e no Maranhão. A canção de Nivito Guedes apresenta essa sonoridade e por isso entra na lista.

“É um paraíso na terra

E nada é iqual aqui

Tenho um amor do lado

Tô apaixonado por ti

Arrepiado quando vejo este teu luar

Alucinado com as ondas desse rio-mar

Sentindo o sol raiando no antigo garapé

A sua benção meu querido São José”

10 – Zeca Preto e Neuber Uchoa (RR) – Makunaimando

Expoentes do movimento denominado Roraimeira, está no rol de artistas locais que levantaram uma temática regionalista do estado de Roraima. Se tratando disso, a canção “Roraimeira” do Zeca Preto, tem uma letra bonita e é considerada a maior por muitos, mas “Makunaimando” traz um tom alegre e melancólico de um dos estados mais conflituosos no que diz respeito a conflitos entre camponeses, indígenas, garimpeiros e grandes proprietários de terras.

“Cai o sol na terra de Makunaima

Boa Vista no céu, lua cheia de mel

sob a serra de Pacaraima

eu sou de Roraima

surubim, tucunaré, piramutaba

sou pedra pintada, buriti, bacaba

Caracaranã, farinha d?água, tucumã

curumim te espera cunhantã

um boto cantando no rio

beijo de caboco no cio

parixara na roda de abril, se abriu

linha fina no meu jandiá

carne seca, xibé, aluá

jiquitaia, caxiri, taperebá”

Yukihiro Aoyagi

Professor de História da rede pública de ensino, pós-graduando em Metodologia do Ensino, e membro da NR-AM.

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