Lênin e o Cooperativismo

Trabalhadores ao redor do mundo, aos poucos, percebem que o cooperativismo pode ser uma boa maneira de eliminar a maior parte dos aspectos negativos do trabalho em uma sociedade capitalista. De um modo geral, cooperativas parecem mais resistentes a crises e garantem uma qualidade de vida melhor para os trabalhadores associados. As cooperativas podem não bastar, sozinhas, para alterar a estrutura da sociedade, mas podem ser excelentes ferramentas de resistência para o trabalhador.

“Que as associações proletárias de consumo melhoram a situação da classe operária no sentido de que limitam as dimensões da exploração por parte de toda a espécie de intermediários comerciais, de que influem nas condições de trabalho dos operários ocupados nos estabelecimentos fornecedores e melhoram a situação dos seus próprios empregados.” (V.I. Lenin, 1910).

“a contribuir, por meio de uma incansável propaganda socialista nas associações de consumo, para a difusão entre os operários das ideias da luta de classes e do socialismo” (Ibid, 1910).

Quais as considerações faço a respeito destas citações:

A centralidade operária é um conceito relevante, ainda que em tempos de desindustrialização, quarteirização, fragmentação da unidade política em pautas segmentadas, a formação de cooperativas concorrendo no mercado, oferece aos trabalhadores um espírito (Geist) uma “ideia” com base em uma experiência concreta, o fazer-ser; trabalho e subsistência, a criação de um espírito de subsistência baseado em uma cooperação orgânica entre trabalhadores, que entra em choque, porém, com o pensamento administrativo industrial, o taylorismo, o fordismo e, mais recentemente, o toyotismo, cuja extração da mais-valia dada pelo quantum de trabalho dispendido pelos trabalhadores, gera um excedente de valor apropriado pelos donos dos meios de produção.

A situação é ainda mais degradante no toyotismo, onde os ideais da ideologia liberal, de flexibilidade e aceitação da gerência administrativa do trabalho oferecia ao trabalhador a compartimentalização da produção sem a realização do devido sonho prometido pela escola inglesa : a diminuição do tempo necessário de trabalho por meio do aprofundamento da divisão social do trabalho.

Assim, a cooperação e a união político-econômica de trabalhadores no ambiente de trabalho, em uma mecânica de solidariedade orgânica contra a perseguição do Estado burguês, mediante a atividade legislativa lobista, que protegerá o seu modelo administrativo e criará barreiras para a concorrência, permitirá uma experiência política, partidária, sindical e, na condição de movimento social, permitirá a defesa contra uma ofensiva burguesa contra a livre-produção.

As cooperativas não encerram a luta de classes, não superam o capitalismo por si mesmas, mas elas fornecem ao trabalhador a liberdade laboral, a capacidade de organização e a comparação em termos concretos de distintos modelos da exploração do trabalho, fomentam uma consciência social por meio de uma base material concreta.

Elas põem em confrontação direta os antagonismos de classe; permitem a luta política, em todas as esferas do Estado moderno, a formação de bancadas parlamentares, as disputas jurídicas entre sindicatos patronais e de trabalhadores no judiciário; o confronto direto entre as classes, o físico, onde agressores terceirizados pela burguesia defrontam-se com trabalhadores em defesa da associação voluntária de uma comunidade de produção material.

Elas proporcionam eventos culturais, próprios da superestrutura, choca concepções da organização do trabalho; do modo de produção e de uma existência fundamentada na cooperação mútua e na autonomia laboral, que resulta na conciliação da individualidade com a sociabilidade, o ser em comunidade.

Referência bibliográfica

V, I. Lênin. A questão das cooperativas no Congresso Socialista Internacional de Copenhagen, 1910. disponível em < https://www.marxists.org/portugues/lenin/1910/10/08.htm>. Acesso em: 26. 05. 2020.1910.

Guilherme Melo

24 anos, professor de Sociologia, formado pela Universidade de Pernambuco, graduado em ciências sociais; graduando em licenciatura em Geografia na Universidade Federal de Pernambuco; fluente em alemão, realiza sua pesquisa a respeito dos “BRICS” e o pensamento política de Maquiavel por meio do Núcleo de Pesquisa de Ciências Sociais da UPE.

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