Bolsonaro está sendo tutelado pelos militares?

A atual posição de Braga Neto no governo levou muitos, aqueles que apostam na consolidação de um regime hegemonizado pelos militares, a dizerem, quase triunfantes, ”ah rá! Eu avisei!”

Sabemos que avisaram, mas a essa altura já avisam há alguns anos sem que o tal regime tenha dado as caras.

Militares fazem parte do jogo político, buscando posições estratégicas e disputando com outros polos de poder, que também tem suas cartas e planos. Ora, os militares que fazem parte do poder se fortalecem, ora se enfraquecem, sem, no entanto, conquistarem a tal centralidade hegemônica a ponto de podermos dizer que tem as rédeas do sistema nas mãos.

Um ponto para exemplificar a diferença crucial entre o que está acontecendo hoje e uma intervenção direta das Forças Armadas: um dos grandes problemas dessas últimas era a necessidade de um certo consenso entre os generais sobre o uso das armas, e a direção que a intervenção viria a tomar. Afinal, existia mais de uma corrente no interior das tropas, em diálogo incessante com diferentes campos da assim chamada sociedade política.

Braga Neto e Fernando Azevedo representam esse consenso? Nada indica até aqui que possam construí-lo ou impô-lo ao próprio Exército, a opacidade nesse terreno é imensa. Assim, a projeção mesma de uma ação unificada do generalato por trás das figuras de um ”comitê” tem dificuldades imensas por enquanto.

Há de se notar também que Braga Neto e Fernando Azevedo não apontaram armas para a cabeça de Bozó, nem canhões para o Palácio do Planalto [foi mais ou menos assim em 1937, 1945, 1964, e em tentativas frustradas nos anos 1950]. Não houve nem uma carta assinada pelos oficiais superiores avisando ”ou dá ou desce” [como fizeram com Getúlio em 1954]. Nem mesmo um pequeníssimo manifesto de coronéis.

Vimos generais e oficiais superiores aproveitando a desarticulação política do governo, as pontes queimadas com a política institucional, e o esvaziamento da autoridade presidencial durante uma pandemia, para atuarem como bombeiros. Não foram os únicos a fazê-lo, mas por fazerem parte do governo e pela posição palaciana se tornam mais visíveis e também mais efetivos.

A ”tutela” de Ministros militares em algumas áreas e decisões existe desde o início desse governo. Algumas vezes se amplia depois de crises, como aconteceu em relação a Ernesto Araújo e Felipe Martins na pendenga com a Venezuela; outras vezes, se retrai, como flagramos nos conflitos com o círculo ianque-olavete em torno da Educação e da Cultura.

Existem alas inteiras do Ministério que não possuem a blindagem realizada por esse ”comitê” em torno da Saúde. Weintraub, Ernesto Araújo, Damares Alves, Paulo Guedes, Onyx Lorenzoni etc. representam outros grupos de interesse, que embora temporariamente secundados por causa da crise, são independentes e não se subordinam a nenhuma suposta ”estratégia hegemônica dos generais”.

Na análise que fiz sobre a formação do Reino dos Bozós ainda em novembro de 2018, apontei que o círculo de generais e oficiais que participavam do [des]governo era o mais forte e próximo ao Presidente, abaixo apenas do círculo ianque-sionista, ou olavete. E que esses dois grupos tinham tudo para se digladiar por discordâncias em torno do liberal-conservadorismo e da agenda de política externa.

É o que temos visto desde então nesses altos escalões, com baixas, recuos, avanços, vitórias e derrotas de ambos os lados, sem, no entanto, que um dos campos tenha prevalecido sobre o outro. E, nesse momento, é necessário recordar um ponto fundamental: Bozó ainda não caiu de fato e de direito.

Por que não caiu? Porque não há nenhum arranjo político ainda que substitua o atual. Nenhum consenso dentro do Palácio do Planalto, do Ministério, do campo político — incluindo as forças em torno do Congresso e do Judiciário –, ou da sociedade política mais ampla, incluindo mídia, eleitorado etc. Possivelmente, não existe consenso nem entre Fernando Azevedo, Mourão e Braga Neto, que dirá do Exército, das Forças Armadas ou ”dos militares”.

Se amanhã os generais tomarem o poder será porque venceram uma complicada e ferrenha luta política. Não porque estava escrito nas estrelas. O mesmo vale para os demais atores políticos, que continuam no xadrez e bem posicionados.

André Luiz

Historiador, mestrando em História pela UFRJ, cristão ortodoxo e membro da NR-RJ.
 

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