Magna Graecia: Última Resistência à Pós-Modernidade

Escrito por Alessandro Napoli
Ao redor do mundo, enquanto o novo coronavírus se espalha, poucos lugares tem sido poupados do pior da pandemia. Um desses lugares é o sul da Itália, a chamada “Magna Grécia”. Há decadas zombada, tripudiada, insultada e desprezada pelo resto da Itália e, inclusive, pelo resto da Europa, como uma região atrasada, subdesenvolvida, de pessoas simplórias propensas à violência das vendettas e à criminalidade da máfia, a solidariedade comunitária das pessoas da região nesse período de dificuldades contrasta com o individualismo neurótico das grandes metrópoles do resto do primeiro mundo.

Nesse texto, o autor, um correspondente nosso que vive na Apúlia, expõe a sua crença nas lições que essa região de cultura multimilenar tem a oferecer ao resto do mundo, que padece agora das piores consequências de um mundo globalizado e pós-moderno.

Nesse momento de transição histórica, em que conceitos como desenvolvimento, progresso e “normalidade” da vida moderna se mostram inconsistentes diante da ameaça de um vírus provavelmente produzido pela mesma era de guerras híbridas e da corrida ao domínio global por uma super-burguesia – vírus que, de fato, entre as características fundamentais e dominantes, não possui a letalidade de doenças do passado ou que ainda existem hoje em lugares remotos do planeta, mas o de desestabilizar principalmente e fortemente o sistema administrativo, econômico e social devido a seu alto nível de virulência e seus efeitos sobre os afetados que precisam de intervenções invasivas para sobreviver e que não estão disponíveis para todos quando são muitos – existe um medo atávico da instabilidade que essa condição pode gerar. Tal como o mesmo medo da morte iminente ressurge das profundezas da história re-evocando cenários medievais. Medos estes aos quais indivíduos e povos reagem de maneira diferente, dependendo do impacto que sofrem com ele – em lugares agora habituados a viver com esse medo, como Síria, Iêmen ou Donbass, as pessoas se preocupam mais com um atentado que, além de causar vítimas, poderia mover a linha de frente, causar um recuo, tornar progressos vãos. Em outros países como os EUA, o individualismo basilar da sociedade desencadeou uma corrida armamentista como se cada um tivesse que se defender de outro e não de um perigo comum.

Olhando para o nosso país, Itália, até poucos dias atrás, o epicentro global da pandemia e no qual o vírus já causou o colapso da economia e até hoje quase 20.000 mortes com uma taxa média de cerca de 800 por dia, é curioso notar que as regiões que melhor resistem ao impacto são as mais pobres economicamente, socialmente comprovadas, onde a globalização comprometeu até o único recurso disponível que residia na agricultura e os cortes na saúde desejados pelo modelo liberal reduziram o sistema de saúde ao pior na Europa. Calábria, Sicília, Apúlia, Basilicata, Campânia estavam entre as últimas regiões da Europa, enquanto tudo estava bem, mas ao mesmo tempo foram aquelas que nunca perderam o relacionamento com os antigos, a tradição, o Fogo Sagrado dos Pais que neste momento lhes permite sobreviver como se nada estivesse acontecendo em um contexto em que, se o vírus se enraizasse, seria um massacre que poderia acabar com uma civilização inteira, fazendo as pessoas morrerem nas ruas, como hoje acontece na rica Nova Iorque ou em outras metrópoles do mundo ocidental.

Essas são regiões, nas quais as culturas comunitárias do démos nunca foram suplantadas pelo individualismo pós-moderno, que tambem se aproximou arrogantemente aqui nas últimas décadas, mas encontrou diante de si o muro de escudos da sagrada tradição e da continuidade com um passado simples e glorioso que aos olhos preconceituosos do sujeito cosmopolita de natureza burguesa parecia um atraso, obsolescência, inadequação diante do tempo, algo a ser vencido, a ser denegrido. Esta é a Magna Graecia, mais de 5.000 anos de continuidade conceitual, instintiva e naturalmente interiorizada nas profundezas da alma daqueles que nasceram e foram criados aqui. Galenica, Agoghé, Paideia, dialética aristotélica, platonismo político, até a arte culinária antiga e engenhosa que concebeu conservas, salsichas, pastas de gordura de porco misturada com pimentas que permitiram que nossos ancestrais resistissem ao frio, às pragas e aos cercos dos sarracenos são normalidade diaria há milênios para essas pessoas, com rostos esculpidos por uma genética arcaica que é ao mesmo tempo mista e imutável.

São pessoas que neste momento de crise global transformaram suas agradáveis aldeias em fortalezas inexpugnáveis, nas quais um protege os ombros do outro, desafiando o destino adverso com coragem pagã e fatalismo cristão indissoluvelmente amalgamados juntos por épocas e épocas de continuidade cultural e espiritual desde os tempos das cidades-estado de Nea-Polis, Kroton, Rhegion, Thurii, Taras, Siracusa, Agrakas, através do Império Romano, do Império Bizantino, do Sacro Império Romano dos “Puer Apuliae – Stupor Mundi”, que dessa mesma terra fez a maravilha do mundo, até hoje dominada pelos “Mercadores do Templo”, cuja religião do dinheiro não conseguiu corromper a alma daqueles que, nestes tempos sombrios, mostram que o que realmente importa é o sangue que flui em suas veias, a dignidade humana e do povo.

São tempos em que, enquanto em outros lugares os infectados do Covid-19 são discriminados, isolados e até expulsos de suas casas, como acontece em algumas metrópoles da América, aqui são protegidos pela mesma comunidade no anonimato e no espírito típico da “pequena tribo” até ontem zombado e motivo de vergonha, hoje motivo de força, persistência, resiliência. Momentos em que, enquanto os povos civilizados do norte da Europa correm para pegar os últimos rolos de papel higiênico, como se fosse o antídoto vital para o vírus, desencadeando brigas bárbaras na entrada dos supermercados, aqui a comunidade se auto-organiza automaticamente, no espírito da caritas cristã, para a distribuição de necessidades básicas aos cada vez mais numerosos que não têm mais a oportunidade de comer devido ao colapso econômico que, além disso, deveria ter alertado para o perigo de tumultos onde não há mais medo do vírus, mas a única preocupação é que, para amanhã, quando tudo isso passará, nosso país permanecerá na UE, o espírito comunitário, renascido na pequena vila, terá que ceder novamente às grandes finanças que reestruturará o sistema ao seu gosto e vantagem.

São tempos em que o povo do sul encontra até o tempo e a alma para entoar o hino nacional na varanda; por outro lado, nós que “fomos pisoteados e ridicularizados por séculos” somos os netos daqueles que partiram de Lucania, de Sicania, de Bruzio, de Salento, de Irpinia, para ir à luta no Rio Piave, cantando hinos de revolta que zombavam da morte em nome da Unidade daqueles povos que, dos Alpes ao Mar Jônio em suas diversidades e peculiaridades, sempre constituíram uma unica entidade espiritual indissolúvel. E é um fato irônico que as mesmas pessoas que nos atropelam e zombam hoje estão deitando cadáveres em sacos pretos de lixo, na melhor das hipóteses, se não queimando seus mortos na rua, para não parar a máquina do Capital que tira proveito de uma pandemia que reproduz os efeitos de uma guerra mundial para se regenerar, como Lênin também demonstrou precisamente um século atrás – e isso também não é coincidência – falando sobre os efeitos do capitalismo decadente em sua obra “Imperialismo: Fase Suprema do Capitalismo”.

Outros, cujos presidentes foram ao teatro dando as costas para a Itália que pedia ajuda, provavelmente chegarão nessa situação em breve, enquanto do outro lado encheu nossos corações ver nossos irmãos em infortúnio nos imitarem e cantarem seus hinos entre os prédios de Teerã ou enviarem o seus médicos da China rapidamente para nos ajudar, embora este último, segundo alguns, preencha um espaço geopolítico deixado vazio pelos chacais que até ontem se deleitavam nos restos de nossa Itália. Pelo contrário, parece-me, a esse respeito, um fio vermelho, um laço indissolúvel que se perde no início dos tempos que liga o destino, o sangue e a nobreza do martírio aos povos antigos da Rota da Seda: o centro do Mar Nostrum – Roma Caput Mundi – com a Partia e A Terra do Meio. E, na minha opinião, certamente, essa também é a chave para entender os eventos que estamos enfrentando hoje, eventos que absolutamente não podem ser reduzidos às meras fórmulas de relações internacionais concebidas por um mundo anglo-saxão de memória curta, utilitária e sem essa previsão que permita compreender a natureza espiritual das civilizações e dos povos entendidos como entidades eternas.

Voltando ao tópico e concluindo, este parece ser o momento para todos “os homens integrais” estarem prontos para aproveitar todas as oportunidades que lhe são oferecidas, explorando as contradições para serem o máximo possível de areia no motor da globalização e da pós-modernidade, no que será a grande reconstrução pós-capitalista, porque essa será – uma superação do capitalismo por uma elite que levará o mundo a uma ditadura financeira total – ou um possível futuro próximo no qual, além do espírito dos ancestrais também teremos que recuperar seu conhecimento da sobrevivência diária em ambientes e situações hostis. Nesse caso, haverá indivíduos mais preparados que outros, civilizações mais preparadas que outras. Somente aqueles que não perderam o contato com a tradição, o vínculo com a terra, o “Culto dos Lares” que encontra continuidade na cultura de nosso país na tradição católica da família tradicional e indissolúvel, a pedra angular da comunidade, poderão resistir o que virá. Se o sul da Itália – Nossa Magna Graecia – conseguir preservar seus muros da onda de pandemia que o ameaça e está dobrando o país, poderia ser essa terra muito atormentada, o núcleo do qual começar de novo, quando o fogo tiver queimado tudo, somente os pilares permanecerão de pé e é a partir daí que, o destino de uma nação que é livre e soberana, terá que ser reconstruído.

Esta não é “a hora mais sombria”, como tagarelam aqueles que são cúmplices desse tormento. Este momento é apenas o lugar místico no qual reconstruir a resistência que será necessária quando a responsabilidade moral passar nas mãos do indivíduo, ou melhor, do indivíduo que ainda não se curvou. Esta é a floresta sagrada do sacrifício ritual antes da batalha final, o Getsêmani antes do Gólgota. É o momento em que o “sujeito radical” reúne forças e espera a hora de realizar sua tarefa e sua vocação para fazer surgir a nova floresta, é hora de transformar o rebanho em matilha, porque quando a Hidra oligárquica lançar o ataque final, não haverá espaço para meias medidas e meios homens: quando os primeiros tentarem impor seu domínio total, apenas aqueles que hoje são os últimos serão capazes de evitá-lo se conseguirem manter sua intransigência, pureza, integridade, nobreza da mente, pois é precisamente no nível do espírito que esta guerra é travada.

De fato, estamos tendo a oportunidade de meditar sobre a transitoriedade da própria vida em um mundo baseado no material, no efêmero, no supérfluo típico de uma pós-modernidade alienante e padronizada, da qual hoje estamos vendo a verdadeira face desumana e brutal pela qual o dinheiro importa mais que a dignidade humana e lembre-se, falo de dignidade, não da própria vida, pois ela – dignidade – vale ainda mais que a própria vida humana: morrer com dignidade importa muito mais do que viver em si. Assim como existem ideais, valores, deveres, vínculos tão íntimos quanto indissolúveis que transcendem a própria vida: este é o A.D. 2020 – a Meia-noite do Mundo – a Paeninsula Italica é o lugar mais atormentado do planeta pela pandemia, mas nenhum de nós gostaria de estar em outro lugar.

2 Comments

  1. Primeiramente, muito obrigado pelo conteúdo.
    Seria possível ter acesso a versão do texto em italiano?
    Gostaria de compartilhá-lo com amigos e parentes que vivem justamente nessa região que foi a Magna Grécia, mas eles não falam português.

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