Há um abismo entre Dugin e Olavo de Carvalho

Ainda que nomes como Dugin, Olavo de Carvalho e Steve Bannon tenham suas próprias leituras de autores tradicionalistas, as diferenças em termos de projetos políticos em que estão engajados são totais, absolutas e irreconciliáveis. 

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Existem diferenças imensas e irreconciliáveis entre intelectuais e atores políticos como Aleksandr Dugin, Olavo de Carvalho e Steve Bannon. A influência comum do tradicionalismo — e de metafísicos como Guénon, Schuon e Evola — não deveria cegar, nem enganar ninguém sobre esse ponto.

Só para fazer compreensível para quem não tem molejo com esses temas, seria como colocar católicos-romanos, cristãos ortodoxos e protestantes históricos todos em um mesmo balaio político por serem todos cristãos. Ou colocar cristãos e muçulmanos todos do mesmo lado político e ideológico por serem de ambos de “religiões abraâmicas”.

Não tem sentido nenhum, óbvio.

O primeiro ponto a se ter em mente é que René Guénon, que é a pedra basilar de todos os autores “tradicionalistas” surgidos no início do século XX, não possuía qualquer atuação política no sentido estrito do termo, e não pretendia ter absolutamente nada a ver com partidos ou com a política de massas.

Guénon pensava que sua influência deveria ser “intelectual”, ou antes “cultural”, em um sentido amplo do termo, e que pode ser vinculado, de certa maneira, aos circuitos culturais das elites sociais. Era nesse terreno que ele imaginava que pudesse existir alguma mudança tradicional do que chamava de Ocidente. A esfera política não poderia oferecer suporte nenhum para essa transformação — seria, segundo ele, uma agitação vã e até anti-tradicional.

Assim, os autores que resolvem se meter na política por considerarem tal ação como uma via tradicional já não estão mais se fiando inteiramente em Guénon. E as leituras ou propostas em que se fundamentam para realizar essa ruptura com o metafísico francês diferem caso a caso.

Esse é um dado fundamental, porque está na raiz da justificativa, compreensão e direcionamento da atuação política desses agentes supracitados — todos eles supostamente influenciados diretamente por René Guénon.

Um segundo ponto, igualmente crucial, é que René Guénon entendia o Ocidente como uma “civilização anti-tradicional”, isto é, na medida em que se pode chamá-la propriamente de civilização e não de uma forma de “barbárie”. Ele tem obras inteiras explicando o que identificava como Ocidente e porque ele seria inimigo da Tradição.

Dentre os muitos elementos e princípios analisados nestas obras, está ressaltada a presença, no Ocidente, de uma mentalidade, ou seja, de um modo de perceber e viver que são permeados por:

(a) uma noção específica de Matéria;

(b) a crença na autoridade de uma forma de ciência;

(c) a ênfase na razão instrumental, e principalmente,

(d) o conceito moderno de Indivíduo.

Todos esses elementos estão interligados, claro, mas eles são expressões, em diferentes campos, da natureza anti-tradicional do Ocidente.

Mas antes que alguém se apresse e saia falando de “irracionalismo”, “intuicionismo”, “idealismo”, ou outro chavão qualquer com que pensam poder reduzir a filosofia contemporânea, é importante esclarecer que Guénon desprezava inteiramente o que se produziu nesse campo nos últimos séculos. Os princípios de seus ensinamentos não podem ser buscados em Marx, Hegel, Schelling, Nietzsche, Heidegger, Bergson, etc. Sua perspectiva só pode se compreendida diante das áridas discussões e posições metafísicas do Vedanta, do Shaivismo e do Tantra. Nem mesmo a filosofia medieval é guia seguro para entender Guénon, porque, embora o mesmo a use, ele considerava os medievais como autores menores. Ler Guénon como se ele fosse um “conservador católico” é um dos erros mais comuns em que se cai.

Pois bem, tudo isso para dizer que, quando Olavo de Carvalho defende a sociedade norte-americana e o liberalismo, está sendo anti-guenoniano. Ele não absorveu isso de Guénon, mas está rompendo com as ideias do metafísico francês. Se alguém o define como guenoniano só pelo dito cujo ter uma leitura de Guénon e participar de alguns de seus pressupostos, então se trata de um “guénoniano” bastante heterodoxo, por assim dizer.

Quando Ernesto Araújo, discípulo de Olavo, afirma feliz que Trump é o salvador do Ocidente, está adotando uma postura anti-guenoniana, já que Guénon queria é se livrar do Ocidente — ainda que não por vias estritamente politicas.

Essas pessoas tem um pano de fundo tradicionalista, mas discordam em algum nível daquilo que Guénon chamava de Tradição. Eles se apropriam dessas deias, mas lendo-as sob nova (ou velha) perspectiva.

Mais importante: essas diferentes posições se movem num pano de fundo tradicionalista por causa do esgotamento das ideologias políticas modernas. Liberalismo, marxismo e fascismo já não se mostram mais adequados para a época; são crenças e chaves vindas de outro período histórico. As forças políticas e intelectuais estão buscando outros parâmetros. Mas isso não quer dizer que elas sejam todas iguais ou que lutem pelos mesmos objetivos, com os mesmos métodos ou nas mesmas trincheiras: algo que um simples exame superficial das ações concretas destes atores já deixa bastante claro.

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EDIT: Olavo de Carvalho, por exemplo, assimilou Guénon junto com Frithjof Schuon, um metafísico sufi que fundou toda uma organização esotérica com braços bastante longos em áreas acadêmicas nos Estados Unidos.

O pensamento de Schuon, embora de matriz guenoniana, possuía tons e teses próprias, e também todo um meio de operação que se distinguia daquele guenoniano. Schuon criou uma rede de influência, baseada em suas teorias, capaz de levar adiante a tal influência cultural nas elites sociais e religiosas, mais ou menos como se fosse uma “maçonaria tradicionalista”, para fazer uma analogia fácil de entender.

Por meio dessa rede, seus discípulos marcaram presença em diversas hierarquias religiosas, inclusive católico-romanas. Olavo absorveu muito do modus operandi de Schuon e tem discípulos agindo em diversos campos.

Cabe dizer que Guénon rompeu com Schuon por não aceitar as ideias do suíço, que considera uma espécie de “universalismo” de verniz esotericista-religioso, bastante distanciado da perspectiva que considerava tradicional.

Data de Schuon os primeiros vínculos entre tradicionalistas e o conservadorismo e até mesmo a geopolítica ianque, como se pode depreender pelo apreço e apoio de schuonianos famosos à antiga monarquia iraniana derribada pela gloriosa Revolução de Khomeini. A organização de Schuon era centrada nos Estados Unidos, o que induz associações, espúrias ou não, entre seus partícipes e a elite social e intelectual ianque.

Isto posto, é importante ressaltar que Olavo não é schuoniano. Ele rompeu há décadas com Schuon, depois de surtar e passar uns tempos no hospício, e gosta de se vangloriar disso. O caminho de Olavo de Carvalho envolveu outros movimentos, como o de Idries Shah, e seitas ocultistas romenas permeadas por um anti-comunismo paranoico.

São rupturas dentro de cisões, todas sob um pano de fundo ocultista-esotérico e em diálogo com as ideias tradicionalistas de Guénon, nem que seja para negá-las em campos bastante importantes.

Grande parte do tradicionalismo europeu e euroasiático tem vias muito distintas, e influenciadas de maneira direta pela figura de Julius Evola, ele mesmo um autor que possuía discordâncias fundamentais com Guénon desde o início, e expostas em trocas de cartas, no uso de fontes e perspectivas metafísicas um tanto diversas.

A obra de Evola tem diálogo ainda mais explícito com a magia europeia, o gnosticismo, o hermetismo. Diferente de Guénon, Evola advogava uma atuação política, considerando-a ainda mais preciosa do que a influência meramente cultural (leia-se: “intelectual”).

Evidentemente, o italiano era tão fortemente anti-ocidental quanto Guénon, compondo toda uma Filosofia da História e classificação civilizacional fundamentada, não só no esoterismo, mas num diálogo com as ciências sociais de sua época.

Em termos políticos, há uma cisão mais geral entre esses movimentos esotéricos centrados simbolicamente nos Estados Unidos e os evolianos europeus — que foi tratada de maneira mais profunda e com uma abordagem diversa da que faço aqui no livro A Grande Guerra dos Continentes, de Dugin.

Todos se digladiam tendo por pano de fundo temas e leituras tradicionalistas, mas são movimentos de matrizes, compromissos e objetivos bastante diversos. Os iluministas de plantão os consideram “a mesma coisa” porque são ignorantes e estão atrasados na história (percebam a ironia).

André Luiz

Historiador, mestrando em História pela UFRJ, cristão ortodoxo e membro da NR-RJ.
 

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